Pré-visualização gratuita Fogo no corpo
O despertador tocou às 5h23. Jade Monteiro já estava acordada.
Como sempre.
Os olhos claros fixos no teto do alojamento, ouvindo os sons da cidade despertando lá fora. Sirenes distantes, buzinas, passos. O caos urbano que ela conhecia tão bem quanto conhecia o próprio corpo.
Levantou da cama com movimentos precisos. Alongou os braços, girou o pescoço. Um corpo treinado. Uma mente disciplinada. Jade era filha de militar e bombeira desde os 21 anos. E a essa altura da vida, sentia mais afinidade com as chamas do que com as pessoas.
A água fria do chuveiro escorreu por sua pele bronzeada e firme. Ela fechou os olhos, sentindo o arrepio involuntário correr pela espinha. Não havia tempo para vaidade, mas era impossível ignorar o corpo que construíra com disciplina e suor: curvas acentuadas, coxas fortes, abdômen definido, s***s firmes.
Homens a desejavam. Mulheres a admiravam. Mas ela não se entregava a ninguém. Não mais.
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O quartel era sua casa, seu refúgio e seu campo de batalha.
— Monteiro, desce pra escala da manhã. Ocorrência no Complexo — gritou o tenente, com a prancheta nas mãos e cara de sono.
Jade calçou as botas com pressa. Vestiu o macacão vermelho com a naturalidade de quem está sempre pronta. No caminho, recebeu olhares. Sempre recebia.
— Se hoje o fogo for alto, já sei quem vai apagar com estilo — brincou um dos colegas, rindo.
Ela sorriu de lado, sem devolver palavra.
Jade era respeitada, mas também era alvo de comentários — nem sempre maldosos, mas sempre marcando seu lugar como mulher em um mundo de homens. Ela não se importava. Sabia que, no campo, ninguém era mais rápida ou mais eficiente que ela.
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O chamado era no alto da favela da Rocinha. Um incêndio de grandes proporções havia se iniciado em um barraco, com risco de alastramento. A viatura avançava pelas ruas estreitas, sirenes gritando, e o rádio do comandante repassava instruções.
— Muita gente já evacuou a área. Mas há relatos de moradores ainda presos. A prioridade é evacuação e contenção. Entendido?
— Entendido — respondeu Jade, ajustando o capacete.
Quando chegaram, o caos já tomava conta das vielas. Chamas saíam pelas janelas, fumaça densa cobria os telhados, e moradores gritavam, tossiam, se amontoavam nas escadas estreitas.
Ela não pensou duas vezes. Pulou da viatura, ligou a mangueira e correu.
Era nisso que ela era boa. No meio do caos, ela encontrava foco. Subiu escadas, arrombou portas, resgatou uma criança que chorava escondida debaixo da cama. Saiu com ela no colo, suada, ofegante, e ouviu os aplausos tímidos dos moradores.
Foi quando o viu.
No meio da fumaça, na parte mais alta da viela, um homem a observava.
Estava encostado em uma parede, uma perna dobrada, cigarro nos lábios. Camisa aberta, tatuagens pelo peito, olhar fixo nela como se a conhecesse. Como se a desejasse. Como se pudesse atravessá-la com os olhos.
Ela parou por um segundo. Só um segundo. Mas foi o suficiente para que ele sorrisse. Lento. Insolente. Perigoso.
Coringa.
Ela ainda não sabia o nome dele. Mas o corpo soube.
Sentiu o calor subir pela nuca, que nada tinha a ver com o incêndio.
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— Monteiro, tá tudo certo aí? — chamou o tenente pelo rádio.
— Sim, tenente. Só limpando o último perímetro.
Mentira.
Ela estava tentando entender por que, no meio da fumaça e da adrenalina, seus olhos tinham travado nos dele. E por que o sorriso dele tinha sido como gasolina em uma brasa que ela não sabia que existia.
Jade voltou para a viatura. O fogo havia sido contido. As vítimas estavam a salvo.
Mas algo dentro dela continuava queimando.
Algo que não havia sido apagado.
Algo com cheiro de crime… e gosto de perigo.