A favela era dele. Não por papel assinado, nem por voto em urna. Mas por respeito. Medo. E controle.
Coringa era um nome sussurrado, temido. Um fantasma que aparecia quando menos se esperava. O tipo de homem que sorria com um canivete na mão e tomava decisões com a calma de um monge e a crueldade de um carrasco.
Ninguém sabia ao certo seu nome verdadeiro. Havia boatos. Diziam que viera de outra comunidade, que era cria do tráfico desde moleque. Que perdeu a família num incêndio. Que matou o primeiro homem aos treze. Mas ninguém sabia. E ele gostava assim.
O mistério era sua armadura.
Naquela manhã, Coringa estava no topo do morro, sentado numa cadeira de plástico, com o cigarro entre os dedos e a Glock apoiada no colo.
— O bagulho pegou fogo na viela 9 — avisou um dos seus.
— Já apagaram?
— Tão tentando. Bombeiro subiu.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Bombeiro? Aqui em cima?
— É. A viatura encostou no asfalto. Tão entrando com mangueira.
Coringa deu uma tragada lenta, olhos fixos no horizonte. O céu estava encoberto pela fumaça. E, ainda assim, ele via com clareza.
— Quero saber quem tá no comando.
— Posso checar.
— Checa. Mas discretamente.
Ele não gostava de surpresa. E farda entrando no território sem aviso era sempre uma surpresa indesejada.
Levantou-se. Estalou o pescoço. Desceu pelas vielas como quem caminha entre reis: cumprimentando alguns com aceno de cabeça, ignorando outros. Crianças saíam da frente quando o viam. Mulheres olhavam com curiosidade. Homens desviavam o olhar.
Ele parou quando a viu.
No meio da fumaça, entre os gritos e o caos, ela caminhava com passos firmes. Ombros retos. Corpo coberto por um macacão vermelho justo nos lugares certos, solto nos outros.
Cabelos presos. Olhos claros. Testa suada. Boca apertada num foco absoluto.
Jade Monteiro.
Ele não sabia o nome dela ainda. Mas soube, naquele instante, que precisava descobrir.
Ela salvava uma criança, depois outra. Gritava ordens com voz firme. Estava no meio do inferno — e ainda assim, parecia invencível. O tipo de mulher que não baixa a cabeça. Que não se curva. Que não aceita metades.
Coringa sentiu o corpo reagir.
Aquela mulher era uma ameaça. Não pela farda. Mas pelo que despertava nele.
Desejo.
Ela parou por um segundo e o viu.
Os olhos dela encontraram os dele como se o mundo à volta tivesse desaparecido. Por um segundo, só havia aquele olhar. Aquele confronto silencioso.
Ele sorriu. Lento. Insolente. Cheio de promessas.
Ela desviou os olhos e continuou o trabalho. Mas ele sabia: ela também sentiu.
De volta ao ponto de observação, Coringa sentou-se novamente, o sorriso ainda no canto da boca.
— Descobriu quem era?
— Bombeira. Nome dela é Jade Monteiro. Lotada na base central. Famosa entre os próprios.
Coringa repetiu o nome em voz baixa. Jade.
Soava como algo que não se encontra fácil. Que se lapida. Que se guarda com cuidado.
— Quero saber tudo sobre ela.
— Tudo?
— Tudo. Onde mora. Quem fode. Quem evita. E principalmente… o que a faria voltar aqui.
O outro assentiu e saiu. Coringa ficou ali, olhando para o rastro da fumaça no céu.
A favela podia estar pegando fogo, mas aquele calor no peito dele tinha outro nome.
Jade Monteiro.
E Coringa nunca deixava um desejo passar sem consumi-lo até o fim.