A sirene ainda ecoava na mente de Jade, mesmo depois do incêndio já ter sido controlado. O cheiro de fumaça ainda impregnava sua farda, e seus cabelos loiros, presos em um coque apressado, estavam úmidos pelo suor. Mas nada, absolutamente nada, fazia seu coração disparar tanto quanto o olhar que havia cruzado naquela noite.
Ele estava lá, parado entre os becos da comunidade da Rocinha, camisa aberta, tatuagens à mostra, músculos tensos e uma postura de quem não devia nada a ninguém. O nome era sussurrado como uma lenda urbana: Coringa.
E ele a havia encarado. Não com medo. Não com desprezo. Mas com um interesse cru, masculino, perigoso.
Jade caminhava pelo quartel, tentando afastar a lembrança daquele olhar. Seus dedos tremiam levemente quando se lembrava da forma como ele se aproximara do perímetro de segurança durante o combate ao fogo — como se não houvesse bombas, mangueiras ou soldados que pudessem impedi-lo de chegar até ela.
E ele chegou.
— Bonito o jeito como você enfrenta o fogo, bombeira — ele dissera, os olhos percorrendo cada centímetro do corpo dela com fome. — Fiquei imaginando como seria você enfrentando o meu.
Ela não respondeu. Não devia. Mas o corpo respondeu. E agora, horas depois, ela ainda sentia o calor daquele encontro.
Mais tarde naquela noite, Jade foi até o terraço do alojamento. Precisava de ar. De silêncio. De esquecer.
Mas a favela brilhava no horizonte como um convite perigoso. E em algum ponto entre aquelas vielas, ela sabia que Coringa a observava.
O celular vibrou. Número desconhecido.
"Você não apaga só incêndios, né bombeira? Essa chama que você deixou em mim... não tem água que dê conta. Me encontra. 00h. Viela dos Anjos."
Jade deveria apagar a mensagem. Deveria desligar o telefone. Mas os dedos hesitaram. O pulso acelerou. O corpo respondeu antes da mente.
Ela chegou com a jaqueta de couro fechada até o pescoço, farda por baixo. Disfarce? Proteção? Nem ela sabia. A viela estava escura, silenciosa, como se o mundo tivesse segurado o fôlego esperando por aquele momento.
Coringa apareceu das sombras. Lento. Letal. Lindo de um jeito quase c***l.
— Eu sabia que você vinha — ele disse, com voz rouca, grave. — Você quer isso tanto quanto eu.
— Isso o quê? — ela perguntou, embora já soubesse.
Ele se aproximou até quase tocar seu corpo.
— O incêndio que começa na pele e só se apaga dentro da gente.
Ela não respondeu com palavras. Os olhos o devoraram. A respiração ficou curta. E quando ele encostou os dedos na sua cintura, Jade sentiu o mundo parar.
O beijo veio denso, urgente, selvagem.
Coringa não pedia permissão. Ele tomava. E ela, por mais que soubesse que não devia, se deixava tomar.
As mãos dele subiram por dentro da farda, encontrando pele, calor, tremores. Os corpos se chocaram contra a parede fria do beco, em contraste com a febre que crescia entre eles. O cheiro de fumaça ainda estava nela. Nele, cheiro de pólvora e pecado.
Ela gemeu baixo quando a boca dele deslizou por seu pescoço, língua quente, respiração pesada.
— Fala que você quer, bombeira — ele sussurrou, a mão apertando a curva de sua coxa.
— Eu quero... — ela cedeu, quase num sussurro ofegante.
— Então me deixa queimar você.