Metódico

1772 Palavras
Lua narrando. A luz do sábado parecia ter um brilho diferente. Acordei antes mesmo do despertador, com a sensação de que meu corpo ainda vibrava pela conversa da madrugada. Rolei na cama, abraçando o travesseiro, e a primeira coisa que fiz foi tatear o lençol em busca do celular. Li a resposta dele: "Às 20h eu vou ser a sua sombra". Um frio na barriga, daqueles que a gente só sente na adolescência, subiu pelo meu peito. — Foco, Lua. É só um jantar — falei para o quarto vazio, mas nem eu mesma acreditei. Pulei da cama e fui direto para o closet. O dia seria longo, mas a preparação já tinha começado. Espalhei três opções sobre a poltrona: um vermelho fatal, um nude que parecia uma segunda pele e o meu favorito, um preto de seda, com um corte enviesado que valorizava cada curva e deixava as costas quase totalmente nuas. — É esse — decidi, passando a mão pelo tecido frio. — Se ele quer ser minucioso, vou dar cada detalhe para ele analisar. Depois, veio a parte mais difícil: a lingerie. Eu queria algo que fosse um segredo entre mim e ele, algo que ele só descobriria se cumprisse todas as promessas da madrugada. Escolhi um conjunto de renda francesa, verde-esmeralda para combinar com os meus olhos, com tiras finas que se prendiam na cintura. Olhei-me no espelho, segurando o conjunto contra o corpo, e mordi o lábio lembrando da frase dele: "Minhas mãos teriam planos bem específicos para essa sua camiseta". Passei a tarde em um transe de ansiedade e autocuidado. Hidratei a pele com aquele creme de baunilha que ele disse que queria sentir no meu pescoço, fiz as unhas, cuidei do cabelo. Cada movimento era pensado para o momento em que a campainha tocasse. Às 19h15, comecei a me vestir. O vestido deslizou pelo meu corpo como água. O contraste da seda preta com a minha pele parecia perfeito. Finalizei com um batom nude, rímel e um perfume que fixava na alma. Eu estava pronta. Mais do que pronta, eu estava elétrica. Matheus narrando. Eram 19h45 quando estacionei o carro comum na frente do prédio da Lua. Eu estava impecável: camisa social azul-marinho levemente aberta no colarinho, calça escura e um casaco. Por fora, eu era o engenheiro de sucesso. Por dentro, eu era um homem em estado de alerta. Olhei pelo retrovisor para conferir o cabelo, mas algo cortou minha respiração. Um vulto. Uma moto preta estacionando a cinquenta metros de distância, sob a sombra de uma árvore. O piloto não desligou o farol imediatamente. Meu sangue gelou. Eu conhecia aquele porte, aquela inclinação de ombros. Renan. Aquele desgraçado tinha me seguido. Ele estava ali para garantir que eu soubesse que ele estava vigiando. Apertei o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Eu queria descer e acabar com aquilo ali mesmo, mas o celular vibrou. Lua: "Estou descendo, gigante. Preparado?" Eu não podia deixar ela ver o que eu era. Não hoje. Renan desceu da moto devagar, tirou o capacete e acendeu um cigarro, fazendo questão de que o brilho da brasa fosse visto por mim. Ele me encarou fixamente através do vidro, soltou a fumaça e deu um sorriso de lado — o sorriso de quem tem uma arma na cintura e um segredo na mão. Foi o recado mais claro que já recebi: "Eu sei onde ela mora. Não vacila na terça". Meu coração martelava contra as costelas. No momento em que o portão do prédio começou a abrir, Renan montou na moto e deu uma acelerada brusca, o barulho do motor ecoando pela rua silenciosa, antes de sumir na escuridão da avenida. E então, o portão se abriu por completo. A Lua apareceu. Ela estava deslumbrante no vestido de seda, com um sorriso que poderia iluminar a cidade inteira. Ela caminhava em minha direção, radiante, sem ter a menor ideia de que o rastro de fumaça do cigarro de um assassino ainda flutuava no ar ao lado do meu carro. Eu abri a porta, forçando o melhor sorriso de "bom moço" que conseguia, enquanto por dentro eu só conseguia pensar em uma coisa: eu tinha que proteger aquela mulher do mundo que eu mesmo tinha construído. O barulho da moto do Renan ainda vibrava nos meus ouvidos quando vi a Lua cruzar o portão. Naquele instante, o mundo criminoso, o banco e a ameaça velada do meu cúmplice desapareceram. Só existia ela. Ela estava flutuando naquele vestido de seda preta. O contraste com a pele clara e o jeito que o tecido acompanhava o movimento do quadril dela... era uma obra de arte viva. Engoli o gosto amargo da adrenalina e saí do carro antes que ela desse o terceiro passo na calçada. Forcei meus ombros a relaxarem. Respirei fundo, deixando o "arquiteto do crime" para trás e assumindo o papel do homem que queria conquistá-la. Caminhei em sua direção com passos calmos, ignorando o rastro de fumaça que o Renan tinha deixado para trás. Quando cheguei perto o suficiente, parei, mantendo aquela distância respeitosa, mas carregada de intenção. — Lua... — minha voz saiu mais profunda do que eu planejava. — Eu passei o dia imaginando como você estaria, mas a realidade acabou de deixar minha imaginação no chinelo. Você está absolutamente magnífica. Dei um sorriso de canto, aquele que eu sabia que desarmava qualquer tensão. Estendi a mão para ela, sentindo o toque suave dos seus dedos nos meus. A pele dela estava quente, e o perfume de baunilha me atingiu como um soco — o tipo de soco que eu gostaria de levar a noite toda. Levei-a gentilmente até a porta do passageiro. Com uma das mãos, abri a porta para ela, e com a outra, fiz um apoio discreto acima da moldura do carro para garantir que ela entrasse com conforto. — Por favor — eu disse, esperando ela se acomodar. Antes de fechar, inclinei-me levemente, o suficiente para que ela sentisse meu perfume e a seriedade no meu olhar. — O jantar é na minha casa. Espero que esteja preparada para ser mimada, porque eu não planejo aceitar nada menos que um dez hoje à noite. Fechei a porta com um clique sólido e elegante. Dei a volta pelo carro, sentindo o peso do mundo lá fora, mas quando entrei no banco do motorista e olhei para ela, decidi: o Renan não ia tirar isso de mim. Ninguém ia. Liguei o motor, o som suave do carro preenchendo o silêncio. — Vamos? O vinho já deve estar no ponto. Matheus narrando (Chegada ao apartamento). O trajeto foi tranquilo. Eu me certifiquei de manter a conversa leve, focando no brilho dos olhos dela toda vez que passávamos por baixo de um poste de luz. Quando entramos no meu apartamento, a atmosfera mudou. O som ambiente de um jazz baixo e o cheiro dos ingredientes frescos criavam o cenário perfeito. — Sinta-se em casa — falei, retirando o casaco e revelando os braços levemente marcados pela camisa social ajustada. Fui até o balde de gelo e retirei a garrafa de vinho branco, o vidro suado indicando a temperatura ideal. Peguei duas taças de cristal, servindo-as com a precisão que era minha marca registrada. Entreguei uma a ela, deixando meus dedos roçarem nos seus de propósito. — Um brinde à nossa primeira noite fora das telas — brindei, mantendo o contato visual. — E ao fato de que, pessoalmente, você é ainda mais perigosa do que por mensagem Eu estava na bancada, focado em cortar as cebolas com uma precisão quase cirúrgica. O vinho já estava fazendo efeito, relaxando meus ombros, mas a presença da Lua ao meu lado era como um campo magnético. Ela estava perto demais, ajudando a separar as raspas de limão siciliano, e o cheiro de baunilha da pele dela estava vencendo o aroma do refogado. — Você é muito metódico, sabia? — ela disse, a voz suave, quase um sussurro contra o som baixo do jazz. — Até cortando cebola você parece estar executando um plano mestre. — O segredo de uma boa estrutura é a base, Lua — respondi, tentando manter a voz firme enquanto sentia o braço dela roçar no meu. — Se a base for m*l feita, tudo desmorona depois.- lavei minhas mãos enquanto falava. — E se a base for sólida demais? — ela perguntou. Eu senti o movimento dela. Ela não estava mais mexendo nas raspas de limão. — Às vezes, a gente precisa de um pouco de caos para saber que está vivo. Antes que eu pudesse processar a frase, senti a mão dela subir pelo meu peito, sentindo a batida acelerada do meu coração sob a camisa social. Ela se inclinou, e eu fiquei imóvel, preso no verde daqueles olhos que, agora, estavam escuros como uma floresta à noite. Ela deu o passo. Lua segurou o meu rosto com as duas mãos e me beijou. Não foi um beijo de "primeiro encontro", foi um beijo de quem estava guardando aquele desejo desde a primeira mensagem. Doce no início, mas que rapidamente se tornou urgente, faminto. As mãos dela se enroscaram na minha nuca, puxando-me para mais perto, e eu finalmente soltei o ar que nem sabia que estava segurando, passando meus braços pela cintura dela e colando nossos corpos. A seda do vestido dela era tão escorregadia quanto eu imaginei, e a curva das suas costas sob minhas mãos me fez esquecer de banco, de Renan e de qualquer lei que eu já tivesse quebrado. Quando nos afastamos, apenas alguns centímetros, nossas respirações estavam misturadas. — O risoto... — eu tentei dizer, a voz completamente rouca, mas meus olhos não saíam da boca dela. — O risoto vai queimar, Lua. Ela deu um sorriso travesso, aquele mesmo sorriso da foto que me tirou o sono. — Deixa queimar, Matheus — ela sussurrou, passando o polegar pelo meu lábio inferior. — Eu não vim aqui pela comida. E acho que você também não planejou essa cozinha inteira só para me ver comer. Enquanto ela falava, tateei os botões do fogão e apaguei o fogo. — Você não tem ideia do perigo que está correndo dizendo isso — respondi, apertando a cintura dela, sentindo a lingerie que ela tinha escolhido sob o tecido fino. — Eu sou um homem de muitos planos, Lua. E, agora mesmo, nenhum deles envolve o fogão. — Então me mostra — ela me desafiou, os olhos brilhando. — Me mostra o que o "gigante" faz quando decide que a estratégia acabou e o que importa é o agora.
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