Criptografado

1488 Palavras
Matheus narrando. Minha respiração estava curta, a mão apertando realmente as chaves do carro sobre a mesa. A vontade de dirigir os 15 minutos que nos separavam era quase incontrolável. Eu queria sentir o cheiro dela, queria ver se aqueles olhos verdes ficavam escuros de desejo como eu imaginava. Mas, de repente, o brilho de um LED vermelho no canto da sala me trouxe de volta. Era o roteador enviando dados criptografados para o notebook onde o plano de terça-feira estava escondido. Um banho de água fria. Se eu fosse até ela agora, eu me perderia. E um homem na minha profissão não pode se dar ao luxo de se perder. Se eu ficasse com ela até o sol nascer, eu chegaria no galpão com a guarda baixa. E o Renan... o Renan mataria nós dois se percebesse que eu estava trocando a segurança do golpe por uma noite de prazer. Soltei as chaves. O barulho do metal batendo na madeira soou como uma sentença. Matheus: "Você não tem ideia do sacrifício que estou fazendo para não dar partida nesse motor agora. Mas se eu for hoje, não vou ter forças para ir embora nunca mais. E eu quero que amanhã seja o começo de algo, não apenas uma noite de impulsividade. Tenta dormir, Lua... se é que o estrago que eu fiz aí deixa." Lua: "Sacrifício? (risos). Eu chamaria de tortura, Matheus. Mas tudo bem, eu aceito sua 'nobreza'... por enquanto." Lua: "Só que tem um detalhe: você disse para eu tentar dormir, mas esqueceu que agora eu sei exatamente o que as suas mãos e a sua boca pretendem fazer comigo. O estrago não só foi feito, como ele está aqui, queimando." Lua: "Vou te mandar uma última coisa para você entender o que está perdendo por ser tão 'ajuizado'. Mas olha bem... porque amanhã eu quero que você execute cada detalhe desse plano." (Lua envia uma foto: apenas o detalhe da sua cintura, a camiseta larga levemente levantada por uma das mãos, revelando o início do quadril e a marca da lingerie sob a luz baixa do abajur.) Lua: "Bons sonhos, gigante. Se é que você vai conseguir fechar os olhos agora. Até amanhã, às 20h. Não se atrase um minuto sequer." O celular vibrou na minha mão e, quando a imagem carregou, eu senti meu sangue ferver. Aquela curva... a pele clara contrastando com a sombra do quarto. O nó na minha garganta apertou tanto que precisei soltar o ar devagar para não socar a mesa de frustração. Ela era letal. Muito mais perigosa que qualquer sistema de segurança que eu já tivesse invadido. Joguei o celular longe, no sofá, e fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro no gelado, encostando a testa nos azulejos frios enquanto a água caía. Eu precisava de foco. Terça-feira eu estaria invadindo um banco, mas agora, tudo o que eu conseguia pensar era que o verdadeiro roubo já tinha acontecido: aquela mulher tinha acabado de levar o meu controle. O sábado amanheceu com um céu cinzento que combinava perfeitamente com o clima metálico e frio do galpão. Para Matheus, o silêncio da manhã era um contraste violento com o barulho que a conversa de ontem ainda fazia na sua cabeça. Eu estava debruçado sobre a mesa de ferramentas, fingindo analisar o sensor de pressão que Renan usaria para enganar o cofre na terça-feira. Mas meus olhos não focavam. A imagem da cintura da Lua, o detalhe da pele sob a luz do abajur, parecia estar queimada na minha retina. Eu não tinha dormido. Nem um minuto. — Matheus! — A voz de Renan ecoou, cortante, enquanto ele jogava uma chave inglesa pesada sobre a bancada. O estalo do metal contra a madeira me fez saltar. — Tá surdo, p***a? É a terceira vez que eu te pergunto sobre a frequência do rádio. — Eu ouvi, Renan. Só estou conferindo a latência do sinal — respondi, tentando manter a voz plana, sem rastro de hesitação. Renan caminhou até mim, limpando as mãos pretas de óleo em um pano encardido. Ele parou do meu lado, o cheiro de cigarro e suor se misturando ao de gasolina. Ele me encarou por baixo das sobrancelhas grossas, como se estivesse tentando ler o que havia por trás do meu cansaço. — Conferindo? Você está olhando para esse sensor há dez minutos e nem ligou o multímetro. — Ele se aproximou mais, invadindo meu espaço pessoal. — Você está com cara de quem passou a noite em claro, mas não foi estudando planta. — O café não fez efeito ainda. Só isso — retruquei, finalmente ligando o aparelho e focando nos números digitais. — Sei... — Renan soltou uma risada anasalada, cheia de veneno. — Cuidado, mestre. Você é o cérebro dessa operação. Se o cérebro estiver pensando em "outras coisas", o corpo todo vai para a vala. E eu não pretendo morrer ou ser preso porque você resolveu ficar de p*u duro por uma mulherzinha — Já disse para não se meter, Renan. Terça-feira o dinheiro vai estar na conta. Hoje é sábado, meu dia de folga. Minha vida pessoal não afeta o plano. — Afeta no momento em que você esquece de ligar a p***a do multímetro! — Ele gritou, perdendo a paciência por um segundo. Depois, baixou o tom, o que era sempre pior. — Vai lá. Vai fazer seu papel de apaixonado. Mas se amanhã, na nossa última revisão, eu sentir que você não está 100% aqui... eu vou atrás dessa tal de Lua só para tirar o seu motivo de distração. Ficou claro? Senti o sangue gelar, não de medo, mas de uma fúria fria que raramente eu sentia. Encarei Renan de volta, sustentando o olhar até que ele desse de ombros e voltasse para a moto. Eu precisava ser impecável hoje à noite. Tinha que ser o homem dos sonhos da Lua, enquanto enterrava o monstro que trabalhava com o Renan. Peguei o celular e vi que eram 10h da manhã. O desejo de mandar um "bom dia" era imenso, mas me forcei a guardar o aparelho. "Foco", repeti para mim mesmo. "Às 20h você é o Matheus que ela quer. Até lá, você é o cara que vai roubar o Banco Central." O clima no galpão estava pesado, o silêncio entre mim e Renan era quase físico. Eu tentava me concentrar no diagrama elétrico, mas meus dedos ainda pareciam formigar. Senti o celular vibrar contra a minha coxa. Eu sabia que era ela. Meu corpo inteiro reagiu instantaneamente, uma descarga de adrenalina que não tinha nada a ver com o roubo de terça-feira. ​Renan estava a dois metros de mim, ajustando a corrente da moto. Ele parou o que estava fazendo e olhou para o meu bolso. ​— Outra notificação? — Ele perguntou, a voz rouca e carregada de sarcasmo. — Ela deve ser viciante mesmo para fazer um cara como você ficar com essa cara de quem ganhou na loteria. — É só uma confirmação de entrega de material que vou precisar na terça— menti, sem nem piscar. Anos de crime me ensinaram a manter o rosto de pedra, mas por dentro, o coração martelava. — Engraçado... eu nunca vi ninguém sorrir para uma entrega de uma escuta— Renan cuspiu no chão e voltou ao trabalho, mas a tensão no ar era palpável. Ele não acreditou em uma palavra. Aproveitei que ele se abaixou e tirei o celular por um segundo, apenas para ler. Lua: "Bom dia, gigante! ☕" Lua: "Passei só para saber se você sobreviveu à noite... ou se o 'ajuizado' aí ainda está tentando recuperar o fôlego." Lua: "Acordei com uma energia ótima hoje, mas confesso que olhar para aquela porta do meu quarto me fez imaginar certas cenas que você descreveu... 😈" Lua: "Faltam menos de 10 horas. Espero que você seja tão bom de pontualidade quanto é de conversa, porque eu não pretendo facilitar sua vida hoje à noite." As palavras dela eram como gasolina no fogo. "A porta do meu quarto", "imaginar certas cenas"... Eu fechei os olhos por meio segundo, tentando expulsar a imagem da Lua de camiseta larga da minha mente antes que eu cometesse um erro fatal ali mesmo. Eu precisava responder, mas tinha que ser rápido. Tinha que ser curto o suficiente para ela continuar querendo mais, e discreto o suficiente para o Renan não virar a mesa. Matheus: "Sobrevivi, mas por pouco. Digamos que o 'engenheiro' aqui teve que revisar muitos cálculos mentais para manter a calma." Matheus: "Quanto à pontualidade... eu nunca chego atrasado para o que realmente importa. Esteja pronta, Lua. Às 20h eu vou ser a sua sombra. E sobre 'facilitar'... eu nunca gostei de caminhos fáceis mesmo." Guardei o celular e respirei fundo. O jogo agora era outro. Eu tinha que sobreviver ao Renan durante o dia para poder me perder na Lua durante a noite.
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