Matheus narrando.
Minha respiração estava curta, a mão apertando realmente as chaves do carro sobre a mesa. A vontade de dirigir os 15 minutos que nos separavam era quase incontrolável. Eu queria sentir o cheiro dela, queria ver se aqueles olhos verdes ficavam escuros de desejo como eu imaginava.
Mas, de repente, o brilho de um LED vermelho no canto da sala me trouxe de volta. Era o roteador enviando dados criptografados para o notebook onde o plano de terça-feira estava escondido.
Um banho de água fria.
Se eu fosse até ela agora, eu me perderia. E um homem na minha profissão não pode se dar ao luxo de se perder. Se eu ficasse com ela até o sol nascer, eu chegaria no galpão com a guarda baixa. E o Renan... o Renan mataria nós dois se percebesse que eu estava trocando a segurança do golpe por uma noite de prazer.
Soltei as chaves. O barulho do metal batendo na madeira soou como uma sentença.
Matheus: "Você não tem ideia do sacrifício que estou fazendo para não dar partida nesse motor agora. Mas se eu for hoje, não vou ter forças para ir embora nunca mais. E eu quero que amanhã seja o começo de algo, não apenas uma noite de impulsividade. Tenta dormir, Lua... se é que o estrago que eu fiz aí deixa."
Lua: "Sacrifício? (risos). Eu chamaria de tortura, Matheus. Mas tudo bem, eu aceito sua 'nobreza'... por enquanto."
Lua: "Só que tem um detalhe: você disse para eu tentar dormir, mas esqueceu que agora eu sei exatamente o que as suas mãos e a sua boca pretendem fazer comigo. O estrago não só foi feito, como ele está aqui, queimando."
Lua: "Vou te mandar uma última coisa para você entender o que está perdendo por ser tão 'ajuizado'. Mas olha bem... porque amanhã eu quero que você execute cada detalhe desse plano."
(Lua envia uma foto: apenas o detalhe da sua cintura, a camiseta larga levemente levantada por uma das mãos, revelando o início do quadril e a marca da lingerie sob a luz baixa do abajur.)
Lua: "Bons sonhos, gigante. Se é que você vai conseguir fechar os olhos agora. Até amanhã, às 20h. Não se atrase um minuto sequer."
O celular vibrou na minha mão e, quando a imagem carregou, eu senti meu sangue ferver. Aquela curva... a pele clara contrastando com a sombra do quarto. O nó na minha garganta apertou tanto que precisei soltar o ar devagar para não socar a mesa de frustração.
Ela era letal. Muito mais perigosa que qualquer sistema de segurança que eu já tivesse invadido.
Joguei o celular longe, no sofá, e fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro no gelado, encostando a testa nos azulejos frios enquanto a água caía. Eu precisava de foco. Terça-feira eu estaria invadindo um banco, mas agora, tudo o que eu conseguia pensar era que o verdadeiro roubo já tinha acontecido: aquela mulher tinha acabado de levar o meu controle.
O sábado amanheceu com um céu cinzento que combinava perfeitamente com o clima metálico e frio do galpão. Para Matheus, o silêncio da manhã era um contraste violento com o barulho que a conversa de ontem ainda fazia na sua cabeça.
Eu estava debruçado sobre a mesa de ferramentas, fingindo analisar o sensor de pressão que Renan usaria para enganar o cofre na terça-feira. Mas meus olhos não focavam. A imagem da cintura da Lua, o detalhe da pele sob a luz do abajur, parecia estar queimada na minha retina.
Eu não tinha dormido. Nem um minuto.
— Matheus! — A voz de Renan ecoou, cortante, enquanto ele jogava uma chave inglesa pesada sobre a bancada. O estalo do metal contra a madeira me fez saltar. — Tá surdo, p***a? É a terceira vez que eu te pergunto sobre a frequência do rádio.
— Eu ouvi, Renan. Só estou conferindo a latência do sinal — respondi, tentando manter a voz plana, sem rastro de hesitação.
Renan caminhou até mim, limpando as mãos pretas de óleo em um pano encardido. Ele parou do meu lado, o cheiro de cigarro e suor se misturando ao de gasolina. Ele me encarou por baixo das sobrancelhas grossas, como se estivesse tentando ler o que havia por trás do meu cansaço.
— Conferindo? Você está olhando para esse sensor há dez minutos e nem ligou o multímetro. — Ele se aproximou mais, invadindo meu espaço pessoal. — Você está com cara de quem passou a noite em claro, mas não foi estudando planta.
— O café não fez efeito ainda. Só isso — retruquei, finalmente ligando o aparelho e focando nos números digitais.
— Sei... — Renan soltou uma risada anasalada, cheia de veneno. — Cuidado, mestre. Você é o cérebro dessa operação. Se o cérebro estiver pensando em "outras coisas", o corpo todo vai para a vala. E eu não pretendo morrer ou ser preso porque você resolveu ficar de p*u duro por uma mulherzinha
— Já disse para não se meter, Renan. Terça-feira o dinheiro vai estar na conta. Hoje é sábado, meu dia de folga. Minha vida pessoal não afeta o plano.
— Afeta no momento em que você esquece de ligar a p***a do multímetro! — Ele gritou, perdendo a paciência por um segundo. Depois, baixou o tom, o que era sempre pior. — Vai lá. Vai fazer seu papel de apaixonado. Mas se amanhã, na nossa última revisão, eu sentir que você não está 100% aqui... eu vou atrás dessa tal de Lua só para tirar o seu motivo de distração. Ficou claro?
Senti o sangue gelar, não de medo, mas de uma fúria fria que raramente eu sentia. Encarei Renan de volta, sustentando o olhar até que ele desse de ombros e voltasse para a moto.
Eu precisava ser impecável hoje à noite. Tinha que ser o homem dos sonhos da Lua, enquanto enterrava o monstro que trabalhava com o Renan. Peguei o celular e vi que eram 10h da manhã. O desejo de mandar um "bom dia" era imenso, mas me forcei a guardar o aparelho.
"Foco", repeti para mim mesmo. "Às 20h você é o Matheus que ela quer. Até lá, você é o cara que vai roubar o Banco Central."
O clima no galpão estava pesado, o silêncio entre mim e Renan era quase físico. Eu tentava me concentrar no diagrama elétrico, mas meus dedos ainda pareciam formigar.
Senti o celular vibrar contra a minha coxa. Eu sabia que era ela. Meu corpo inteiro reagiu instantaneamente, uma descarga de adrenalina que não tinha nada a ver com o roubo de terça-feira.
Renan estava a dois metros de mim, ajustando a corrente da moto. Ele parou o que estava fazendo e olhou para o meu bolso.
— Outra notificação? — Ele perguntou, a voz rouca e carregada de sarcasmo. — Ela deve ser viciante mesmo para fazer um cara como você ficar com essa cara de quem ganhou na loteria.
— É só uma confirmação de entrega de material que vou precisar na terça— menti, sem nem piscar. Anos de crime me ensinaram a manter o rosto de pedra, mas por dentro, o coração martelava.
— Engraçado... eu nunca vi ninguém sorrir para uma entrega de uma escuta— Renan cuspiu no chão e voltou ao trabalho, mas a tensão no ar era palpável. Ele não acreditou em uma palavra.
Aproveitei que ele se abaixou e tirei o celular por um segundo, apenas para ler.
Lua: "Bom dia, gigante! ☕"
Lua: "Passei só para saber se você sobreviveu à noite... ou se o 'ajuizado' aí ainda está tentando recuperar o fôlego."
Lua: "Acordei com uma energia ótima hoje, mas confesso que olhar para aquela porta do meu quarto me fez imaginar certas cenas que você descreveu... 😈"
Lua: "Faltam menos de 10 horas. Espero que você seja tão bom de pontualidade quanto é de conversa, porque eu não pretendo facilitar sua vida hoje à noite."
As palavras dela eram como gasolina no fogo. "A porta do meu quarto", "imaginar certas cenas"... Eu fechei os olhos por meio segundo, tentando expulsar a imagem da Lua de camiseta larga da minha mente antes que eu cometesse um erro fatal ali mesmo.
Eu precisava responder, mas tinha que ser rápido. Tinha que ser curto o suficiente para ela continuar querendo mais, e discreto o suficiente para o Renan não virar a mesa.
Matheus: "Sobrevivi, mas por pouco. Digamos que o 'engenheiro' aqui teve que revisar muitos cálculos mentais para manter a calma."
Matheus: "Quanto à pontualidade... eu nunca chego atrasado para o que realmente importa. Esteja pronta, Lua. Às 20h eu vou ser a sua sombra. E sobre 'facilitar'... eu nunca gostei de caminhos fáceis mesmo."
Guardei o celular e respirei fundo. O jogo agora era outro. Eu tinha que sobreviver ao Renan durante o dia para poder me perder na Lua durante a noite.