Hadassa Alecastro
O ar do quarto 1012 do hotel Lemar cheirava a jasmim e tensão. A luz suave da tarde escorria pelas cortinas entreabertas, pintando o carpete bege com listras laranjas. Eu segurava a taça de vinho tinto com firmeza, os dedos frios contra o cristal, enquanto observava Lucas do outro lado do sofá. Ele estava lindo, como nunca reparei nisso? O paletó azul-marinho abraçava seus ombros largos, e a camisa branca, com o primeiro botão aberto, revelava um vislumbre da pele bronzeada do pescoço. Mas eram seus olhos que me prendiam – castanhos, profundos, uma mistura perigosa de curiosidade e e desejo.
— Isso é casamento, — eu disse, minha voz calma, — Quero que se case comigo.
Levei a taça aos lábios, sentindo o sabor encorpado do vinho aquecer minha garganta.
Lucas ficou em silêncio, os punhos cerrados sobre as coxas. Eu podia ver a raiva nos olhos dele, não contra mim, mas contra Marcus. Sempre soube que Lucas desprezava o irmão, mas agora havia algo mais – uma dor que ele tentava esconder.
— Hadassa, — ele disse finalmente, a voz baixa, quase um sussurro. — Você sabe o que está pedindo? Casar comigo… isso é uma guerra. Contra Marcus, contra nossa família, contra tudo o que o nome Albieri representa.
— Eu sei,— respondi, sustentando o olhar dele. — E é exatamente por isso que preciso de você. Não é só sobre amor, Lucas. É sobre poder. Sobre tomar de volta o que é meu.
Ele franziu a testa, confuso, — O que é seu?
— A Alecastro, — eu disse, endireitando a postura. — O contrato de casamento entre nossas famílias estipula que, para manter o controle da minha empresa, eu devo estar casada com um Albieri. Mas não precisa ser Marcus. — Fiz uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar. — Pode ser você
Lucas piscou, processando a informação. Então, ele se levantou abruptamente, caminhando até a janela como se precisasse de espaço para respirar. — Você está dizendo que quer se casar comigo para manter o controle da empresa? Que isso é… uma estratégia?
— Não é só isso,— eu disse, me levantando também. Caminhei até ele, meus saltos ecoando no silêncio do quarto. — Você sabe que não é só isso. Mas eu não vou mentir para você, Lucas. Eu preciso da sua ajuda. E sei que você quer me ajudar.
Ele se virou para mim, os olhos brilhando com desejo e frustração. — Hadassa, eu…— Ele parou, engolindo em seco. — Eu sempre quis você. Desde antes de Marcus, desde antes de tudo isso. Mas casar com você enquanto você ainda está tão machucada, tão focada em se vingar dele… eu não sei se posso ser apenas uma peça no seu plano.
Suas palavras foram como um soco no estômago. Por um momento, eu me vi refletida nelas – a mulher que Marcus transformou, fria, calculista, disposta a usar até mesmo Lucas para alcançar seus objetivos. Mas então, algo dentro de mim se partiu. Dei um passo à frente, tão perto que podia sentir o calor do corpo dele.
— Não é só um plano,— murmurei, minha voz tremendo. — Você é mais do que isso para mim. Sempre foi. Mas eu preciso que você confie em mim. Que esteja ao meu lado. E talvez eu… talvez eu possa retribuir seu sentimento.
Ele me encarou por um longo momento, e então, lentamente, sua mão subiu até meu rosto, os dedos traçando a curva da minha bochecha. — Hadassa, se eu fizer isso… se eu me casar com você… não vai ser só por um contrato. Não pra mim.
— Eu sei, — sussurrei, meus olhos buscando os dele. — Não quero que seja só por um contrato pra você. Nem pra mim.
A mão dele ainda repousava em meu rosto, quente, firme, tentando memorizar minha pele. O toque de Lucas sempre foi diferente — nunca invasivo, mas sempre presente, como se ele quisesse me proteger até de mim mesma.
— Mas eu preciso que você entenda, —eu continuei, engolindo em seco. — Se não for com você… Marcus vai ganhar. Ele vai tomar a Alecastro, e eu vou perder tudo. Inclusive a mim mesma.
Lucas respirou fundo, os olhos deslizando pelos meus lábios antes de voltarem aos meus. A tensão entre nós parecia elétrica, viva. Ele lutava consigo mesmo. Eu podia ver.
— E se eu disser sim? — ele perguntou, a voz rouca. — Se eu disser que aceito ser seu marido… você vai me deixar te amar de verdade?
A pergunta me pegou desprevenida. Eu hesitei, os olhos se enchendo de algo que eu não sabia nomear — medo, talvez. Ou esperança.
— Eu vou tentar, — respondi com sinceridade. — Não prometo ser perfeita. Não prometo que não vou errar. Mas prometo que não vou fugir de você.
Ele sorriu. Não um sorriso leve, mas um sorriso cheio de dor e desejo, como se estivesse vendo a mulher que sempre quis finalmente se aproximar… e ainda assim não soubesse se era real.
— Droga, Hadassa… — Ele se aproximou mais, colando nossos corpos. — Você sempre soube como me ferrar.
Antes que eu pudesse responder, os lábios dele estavam nos meus. O beijo foi intenso, urgente, como se ele estivesse despejando anos de silêncio, de saudade contida na minha boca.. Minhas mãos se agarraram à sua camisa enquanto a taça escorregava dos meus dedos e caía no carpete sem quebrar — o vinho manchando o bege como um lembrete de que nada entre nós jamais seria limpo ou fácil. Ele era tão delicioso que eu tive medo de não conseguir parar de beija-lo.
Suas mãos deslizaram pelas minhas costas apertando cada centímetro e então quando já não tinha mais ar em meus pulmões, ele se afastou, ainda ofegante, com a testa encostada na minha, murmurou:
— Se vamos fazer isso… vamos fazer do nosso jeito. Nada de festa, nada de aliança de ouro. Um contrato com vinho e sua assinatura no meu peito.
Meu coração disparou, mas eu não recuei. — Me diga, Lucas. O que seria pra você?
Ele sorriu, — Tudo.
Sorri, sentindo as lágrimas ameaçando cair, mas não deixei. Eu não chorava mais por dor. Agora, era guerra. E ele tinha acabado de escolher o meu lado. — Então casa comigo, Lucas Albieri. E vamos destruir Marcus juntos.
Ele me puxou de novo para o beijo, e desta vez, não havia hesitação. Apenas a certeza de que éramos a arma um do outro — e talvez, se sobrevivêssemos ao caos, também fôssemos a salvação.