Capítulo 6

1346 Palavras
Lucas Albieri Estava no meio de uma reunião quando recebi uma mensagem de Hady. Franzi a testa confuso porque ela nunca me mandou mensagens no meio do dia a não ser para combinar algum jantar de negócios e isso era realmente algo muito incomum dela. Abri a mensagem para visualizar seu conteúdo: Hady: Ei Lucas, você pode me encontrar hoje às 15:00 no hotel Lemar? Tenho algo a te propor. O conteúdo da mensagem me deixou ainda mais intrigado. Hady era sempre precisa, objetiva. Nunca dava voltas, nunca escrevia “ei” ou pedia um encontro fora do script ensaiado das obrigações familiares e empresariais. E o pior — ou o melhor, dependendo da perspectiva — é que meu coração respondeu antes de qualquer raciocínio lógico. Um aperto no peito, uma ansiedade morna e perigosa subindo pela garganta. Merda. Respondi o mais neutro possível: Lucas: Estarei lá. Às 15h. Guardei o celular e tentei me reconectar com a conversa sobre o novo condomínio, mas era impossível não pensar no que ela teria a me dizer. Uma proposta, ela escreveu. E logo num hotel. Que espécie de proposta ela estava querendo me fazer? Tantas coisas poderiam estar por trás dessas palavras que, por um instante, me peguei imaginando cenas que não devia. Hadassa era casada com meu irmão e ela o amava. Até ficou horas ontem esperando por ele e o cretino não apareceu, mas ela ainda o amava. Isso deveria bastar para me manter longe. Mas nunca bastou. — Senhor Albieri, o senhor gostaria de conversar mais sobre o terreno para o nosso novo condomínio ou todas as especificações estão de acordo com o projeto? — o diretor de projeto, senhor Norman, das indústrias Norman falou com um sorriso levemente apreensivo. Chamando minha atenção novamente. — Senhor Norman, acredito que se estiver dentro das especificações do projeto original não haja um motivo para não darmos continuidade ao projeto. — respondi acenando positivamente para todos os acionistas presentes. Construí minha empresa do 0, embora carregar o sobrenome Albieri comigo tenha um grande peso eu não queria depender da influência e poder dos meus pais. Marcus já havia ficado com a maior parte da herança por ser o mais velho e ter assumido a empresa antes de mim. Ele até me ofereceu um emprego na empresa, mas isso chegou como um insulto, pois ele sabia que eu havia fundado uma construtora. No último ano nos tornamos a maior do país e meus pais começaram a me dar um pouco de crédito. Horas depois, exatamente às 14h57, o carro estacionava em frente ao Lemar. Um dos hotéis mais luxuosos e discretos da cidade. Claro que seria aqui. Nada menos do que o melhor para Hadassa Alecastro. — Senhor Lucas, tem certeza de que não quer que eu o acompanhe até a suíte? — perguntou João Romeo, o assistente mais intrometido e leal que eu já tive. Nós nos conhecemos desde a faculdade também e ele tem me acompanhado fielmente desde então. — Só me leve até o andar, João. — respondi retirando o cinto de segurança, — E depois… você sabe, dê uma volta, tome um café. Mas fique de prontidão pois ainda temos um jantar com a família da Silvana Costa para discutirmos nossa cooperação. — Como sempre, senhor. — Seu tom era respeitoso ainda que levemente sarcástico, — Espero que a senhora Hadassa não esteja acompanhada daquela… criatura. — Que criatura? — perguntei de cenho franzido. — A amiga dela. Nádia. Aquela língua afiada com perfume doce de veneno. — Vocês dois deviam tentar se matar de uma vez e acabar com isso. — murmurei, ajeitando o paletó, — ou se casarem. — Ugh! Prefiro a morte rápida. — ele disse fazendo uma careta e tapando a boca como se fosse vomitar com a minha sugestão, me fazendo rir. Subimos pelo elevador de vidro em silêncio até o décimo andar, João avistou Nádia encostada casualmente na parede, mexendo no celular com uma postura irritantemente elegante. O cabelo ruivo preso num coque baixo, um terno neutro, saia lápis até o joelho e os saltos vermelhos que batiam no mármore do corredor denunciando a sua impaciência. — Falando no d***o. — ele murmurou. — Cuidado, senhor João — disse ela sem nem levantar os olhos do telefone —, se continuar me chamando de d***o, eu posso começar a agir como um e atormentar a sua vida. — Não precisaria fazer muito esforço — respondeu ele, com um sorriso sarcástico. — Pelo menos sou honesta com quem sou, ao contrário de certos assistentes que se escondem atrás de ternos de três mil reais e uma agenda que ninguém pediu pra ser tão organizada. — Chega. Os dois podem ser profissionais?— interrompi antes que a coisa explodisse. Nádia revirou os olhos e João assentiu bufando um sorriso. — Nádia, João, podem sair e voltar em alguns minutos? — Com o maior prazer. — disse Nádia, piscando para mim antes de se afastar. — Boa sorte, Albieri. Ela está no quarto 1012. E… bem mais linda do que deveria estar. João lançou um olhar desconfiado para mim, mas não disse nada. Caminhei até a porta indicada e respirei fundo antes de bater. Um, dois, três segundos. A porta se abriu com um clique suave e ali estava ela. Hady vestia um vestido azul-marinho que moldava seu corpo com um recato provocante no decote pequeno. O cabelo solto, maquiagem impecável, e aquele perfume doce. — Lucas. — ela disse com um leve sorriso. — Que bom que veio. Ela se afastou da porta para me deixar entrar, e eu soube naquele instante: aquela proposta que ela tinha… não era apenas de negócios. Entrei no quarto e a porta se fechou atrás de mim. O ambiente estava levemente iluminado, com as cortinas semiabertas deixando a luz suave da tarde escorrer pelas paredes em tons creme. A suíte cheirava a flores e a pecado. Hadassa caminhou até o aparador, pegou duas taças e serviu vinho tinto. Ela me estendeu uma das taças, sem pressa, o olhar fixo no meu, — Você veio rápido — comentou, os lábios encostando na borda da taça, vermelhos como o vinho. — Você me chamou. Sempre vou vir quando for você, Hady — respondi, e não fiz esforço para disfarçar o duplo sentido. Ela deu uma risadinha leve, mas havia tensão por trás do som. Caminhou devagar até o sofá, sentando-se com elegância, cruzando as pernas de maneira elegante e sexy. p***a! — Não quero rodeios, Lucas. Chamei você aqui porque preciso de algo que só você pode me dar. Me aproximei, parando diante dela. Não sentei. Ainda. — Está começando a parecer menos uma proposta e mais uma provocação. — eu falei e ela sorriu. — Talvez seja um pouco dos dois. — Ela olhou para a taça, depois para mim. — Você é inteligente. Percebeu que meu casamento com o Marcus não passa de fachada há muito tempo. E se não percebeu, agora estou te dizendo. Não existe mais amor ali. Nem desejo. Só as obrigações. Me sentei ao lado dela, mantendo um palmo de distância que me custou manter. — Por que está me dizendo isso agora? — Porque você sempre esteve lá. Me observando. Me protegendo. Então sei que vai me ajudar. — ela hesitou por um segundo, tragando o ar — eu cansei de fingir também. Meu coração martelava no peito. — E o que você quer de mim, Hadassa? Ela se virou, finalmente me encarando de frente. Seus olhos escuros estavam marejados, mas não frágeis. Não havia fragilidade em Hadassa. Apenas determinação disfarçada de elegância. — Quero que aceite meu plano. Quero sair desse casamento sem escândalos, sem perdas para a família. E para isso… preciso que você se case comigo. Quero tirar a Alecastro das mãos dele. E preciso de você como sócio. Como escudo. Como homem. Quero que você ajude a derrubar seu irmão traidor. — Isso é perigoso. Você está falando de guerra. De desafiar seu marido e meu irmão. — Isso é casamento. Quero que se case comigo.
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