Herdeira do Abismo

935 Palavras
Dominic estava parado diante do espelho do banheiro da casa de campo, o tronco n.u revelando a constelação de tatuagens e as marcas frescas do asfalto. Ele segurava uma gaze embebida em álcool contra o ombro cortado, mas a ardência na pele não era nada comparada à queimação no seu peito. O som da porta se abrindo anunciou a chegada de Lian. Dominic não se virou; ele apenas observou o reflexo do seu executor pelo espelho. O rosto de Lian estava mais sombrio do que o normal. — Relatório — a voz de Dominic saiu como um comando de execução. Lian parou a dois passos de distância, mantendo a postura rígida. — O nome dela é Alicia Rizzuto, chefe. 29 anos. Formada em Direito com honras, mas nunca exerceu. Dominic travou o movimento da mão no ombro. O nome "Rizzuto" ecoou como um disparo. — Rizzuto? A filha do Olavo? O advogado que limpa o rastro de sangue dos políticos de Toronto? — Dominic se virou devagar, os olhos estreitados. — Por que uma Rizzuto estaria servindo mesas num restaurante de quinta categoria e morrendo de fome, Lian? — Porque o pai dela é um sádico — Lian respondeu, e Dominic notou o aperto na mandíbula do seu homem de confiança. — Eu a vi ser recebida com um golpe no rosto assim que desceu do carro. Ela caiu no chão, Dominic. E ele permitiu que os seguranças a arrastassem para dentro como se fosse um animal ferido. O silêncio que se seguiu foi mortal. Dominic largou a gaze ensanguentada na pia de mármore. A revelação de Jin sobre o a.b.u.s.o coletivo de cinco homens já tinha acendido um pavio curto na sua mente, mas saber que o próprio pai a tratava como lixo era o combustível que faltava para o incêndio. — Ele bateu nela na sua frente? — Dominic perguntou, a sua voz agora era um sussurro perigoso, o sinal mais claro de que ele estava prestes a matar alguém. — Ele nem olhou para o carro — Lian continuou, a voz tensa. — Achou que ela vinha de um encontro qualquer. Ele a humilhou na calçada, Dominic. E... Dominic travou o movimento de limpar o sangue do ombro e cravou os olhos em Lian. O silêncio que se seguiu foi cortante. — E? — a pergunta de Dominic saiu baixa, como o aviso de um predador antes do bote. Lian hesitou por um segundo, buscando as palavras. — Na verdade, confesso que estou bem preocupado com o estado dela agora. — Como assim, Lian? — Dominic cuspiu as palavras, a paciência esgotada. O sangue na suas mãos parecia ferver. Lian suspirou, o peso do que vira ainda nítido na sua mente. — Abri um pouco o vidro do carro para entender o que estava acontecendo. Ela gritava desesperada, dizia que não queria voltar para algum lugar... um pavor que eu nunca vi. Ele a agrediu de novo, Dominic. Foi um golpe seco, forte o suficiente para fazê-la apagar na hora. Ele a arrastou pelos pés para trás da mansão. Dominic fechou os punhos com tanta força que as feridas do acidente ameaçaram reabrir. — Eu não podia ir embora sem saber — continuou Lian. — Saí do carro e escalei o muro lateral. O que vi lá atrás não era um quarto, era um casebre velho, isolado de tudo. Jogaram ela lá dentro como se fosse um fardo de lixo. E o pior: o lugar está cercado. Tem vários seguranças do lado de fora, vigiando cada centímetro daquele barraco. Dominic sentiu a fúria gélida tomar conta. Olavo Rizzuto não estava apenas punindo a filha; ele a estava mantendo em um cativeiro doméstico, sob guarda armada. — Um casebre... — Dominic sibilou, os olhos faiscando. — Aquele m.a.l.d.i.t.o... Dominic sentiu a fúria gélida tomar conta de cada fibra do seu corpo. Olavo Rizzuto não estava apenas punindo a filha por um atraso; ele a mantinha num cativeiro doméstico, sob a mira de guardas armados, como se ela fosse uma prisioneira de guerra na sua própria casa. — Um casebre... — Dominic sibilou, a voz saindo como o rastro de uma lâmina no gelo. Os olhos faiscavam com uma promessa de morte. — Aquele m.a.l.d.i.t.o. Ele abandonou o que estava fazendo, lavou o sangue das mãos com uma urgência brutal e caminhou até o escritório. Vestiu uma camisa de seda preta, deixando-a aberta; as bandagens brancas contra o tecido escuro eram o único sinal de que ele também era feito de carne e osso. Lian estendeu a pasta. Dominic a tomou para si, as páginas rascunhando o destino trágico de Alicia Rizzuto. Ali, sob a luz fraca da luminária, a vida dela se desdobrava em horror: a mãe, uma sombra de mulher em estado vegetativo num hospital público; as dívidas médicas acumuladas que Olavo, com seus bilhões, se recusava a quitar por puro sadismo. O contraste era doentio. De um lado, a madrasta e a irmã desfilando em eventos beneficentes cobertas de diamantes; do outro, Alicia, a herdeira legítima, sobrevivendo com o salário de garçonete e o pão doado por uma padaria de bairro para não morrer de fome. — Ele a deixa passar fome... — Dominic murmurou, o maxilar travado. — Ele ostenta o ouro que roubou da mãe dela, enquanto a joga num buraco de ratos no jardim. Ele fechou a pasta com um estalo seco. — Olavo Rizzuto acha que é um mestre do Direito. Ele vai descobrir que, no meu mundo, a única lei que importa é a retribuição. E a conta dele acabou de chegar com juros de sangue.
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