LIS
Depois dessa, eu vou pro céu.
Tive o prazer de dar um tapas na cara dele para ajudá-lo a acordar e ajudei o embuste a levantar.
— Vamos embora. — passei seu braço por cima do meu ombro e ele ficou de pé.
— Eu ainda não terminei a minha bebida.
Ele está muito bêbado. Quem fica tão bêbado em tão pouco tempo assim?!
— Já terminou sim. Vamos antes que eu mude de ideia. — caminhei junto com ele para a saída da festa.
Eu pretendia voltar, não sei como, mas pretendia, pois ainda tinha que cumprir o horário para pegar a minha grana.
Como ele é pesado!
E cheira a maconha. A mão dele cheira a isso.
Do lado de fora da boate, eu fiquei confusa, sem saber o que fazer. Se chamava um táxi.
— Cadê o seu carro?
— Sei lá.
— Otávio! Colabora, p***a! Depois de me chamar de p**a, você deveria no mínimo me ajudar a te levar pra casa sem fazer mais raiva! Agradeça o meu bom coração.
— O que você tá falando, garota? Eu nem sei quem você é. O meu carro tá por aí.
Ótimo. Agora deu amnésia.
— Ainda é o mesmo carro ou você trocou?
— É meu carro preferido. — ele falava bêbado.
Tive que ir até o estacionamento com ele pendurado no meu ombro.
Com certeza amanhã eu ficarei com essa região dolorida. Ele é pesado pra c****e!
Encontrei o seu carro. É aquele carrão que só ele tem na cidade.
Pelo menos soube zelar de alguma coisa.
O levei para a porta do carona e com ele escorado no carro, meus ombros finalmente descansaram.
— Cadê a chave?
— Lis. — ele segurou meu braço e me puxou para perto dele. — Você tá gata. Essa sainha… meu Deus…
Revirei os olhos, consciente de que quem está falando isso é um bêbado safado.
— A chave.
— No meu bolso. — ele colocou a minha mão no lugar. Olhei para seu rosto e ele estava com um sorrisinho cínico.
— Arg! Você continua o babaca de sempre. — me soltei dele e enfiei a mão em seu bolso. Tirei a chave e abri o carro. — Entra.
— Entra você.
— Você não vai dirigir! Você está muito bêbado, Otávio!
— E quem vai dirigir? Você? — riu. — Eu não deixo ninguém dirigir meu carro. — ele tentou pegar a chave.
— Entra na p***a do carro. Quem vai dirigir sou eu! — deixei a chave presa na minha mão fechada e o empurrei para dentro do carro.
— Calma! Vai machucar a minha cabeça!
— Eu acharia pouco.
Ele sentou no banco do carona e eu coloquei o cinto. Nessa hora ele resolveu se aproveitar e me abraçar.
— Vai dormir comigo?
— Não! Óbvio que não! — me afastei dele. — Olha, se você não se comportar eu te deixo passar a noite dentro do carro e volto para a festa.
— Eu não pedi pra me tirar de lá.
— m*l agradecido do c*****o! — bati a porta.
— Não faça isso com o meu carro, Lisa!
Lisa!
— Eu deveria ter te deixado dormindo. Você calado é melhor.
Mesmo assim eu ainda entrei no carro.
Só tinha um motivo agora que estava me fazendo levá-lo para sua casa: dirigir aquele carro, pois eu não sei quando terei outra chance dessas na vida.
O ronco do motor deixou meu coração acelerado e eu logo me animei.
— Uau! Isso é irado!
— Um único e pequeno risco e você vai ter que virar p**a mesmo pra pagar o conserto. — ele me avisou.
— Pare de agouro! Eu sei dirigir. Tenho carteira. Só não tenho um carro.
— Essa máquina custaria seus dois rins, coração e o fígado.
Burguês safado.
— Credo.
Tirei o carro do estacionamento e dirigi pela cidade.
Tinha até garrafas de água mineral no carro.
— Toma. — entreguei uma para ele. — Pra ver se melhora.
Ele parecia péssimo.
Pegou a garrafa e tomou quase tudo. — O filho da p**a batizou a minha bebida.
— E você ainda queria beber mais...
Sem noção.
— Larica desgraçada! — ele segurou o celular de cabeça para baixo.
O carro dele é tão bom!
Eu estava me achando no volante, mas não estava em alta velocidade não. Só o permitido em cada rua.
E ele ainda mexia no celular de cabeça para baixo.
— O celular está de cabeça pra baixo, Otávio. — avisei concentrada na direção. — Qual o endereço da sua casa?
— Me leva pra um hotel. Não quero você sabendo onde eu moro. Você é fofoqueira demais.
— Estou começando a achar que você não tacou o f**a-se para a sua família. Acho que não tem culhões para enfrentá-los depois de tantos meses sumido.
Ele riu. — Você não sabe de nada. Eu tenho culhões até demais. Tanto que você correu de mim.
Ele vai tocar nesse assunto...
— Isso não me impede de cumprir a minha ameaça.
Ele me ignorou. — Tô com fome. Chame um Uber. — me entregou seu celular.
— Você vai comer um Uber? — perguntei parando o carro no sinal e peguei seu celular.
— Peça alguma coisa pra eu comer.
Entrei no app de comida e selecionei numa pizzaria. Escolhi uma pizza meia portuguesa e meia marguerita e refrigerante, então o sinal abriu e eu tive que continuar dirigindo.
Mais na frente, quando parei em outro sinal, terminei de fazer o pedido.
Cobrava direto no cartão dele e eu vi seu endereço.
Não acredito que ele mora nesse lugar!
É um condomínio chique que o pessoal vive falando que é um sonho de moradia.
E eu de tanto pesquisar sei aonde fica.
Casa 5.
Dirigi para o endereço e ignorei sua ideia de ir para um hotel.
Eu quero entrar naquele condomínio e ver como é.
Devolvi o celular e ele segurou a minha mão e deu uma mordida nela.
— Otávio! — puxei a mão e lhe acertei um tapa. — Pode ficar um minuto sem parecer um cachorro no cio?
— Que calor, hein... — ele começou a desabotoar a camisa e eu ignorei isso. Não vou virar p**a pra pagar o conserto de um ralão o qual a culpa é dele e sei que ele não vai admitir.
Custa ser um embuste burro e feio?
Depois de abrir a camisa ele se aquietou. Ficou com a cabeça erguida para o teto, dormindo ou refletindo, e eu terminei o caminho até o condomínio.
Nem precisou dizer quem era, o porteiro deixou a gente passar.
O condomínio era puro luxo!
As casas pareciam ter sido feitas pelos irmãos a obra juntamente com ame-a ou deixe-a. Ou seja, perfeitas.
Os números eram alternados e as casas eram distantes uma das outras.
De um lado a casa 1, do outro a casa 2 e assim eu cheguei na frente da casa 5.
E que casa!
Ela não tinha muros, tinha uma calçada inclinada para subir com o carro, perto da parede as portas da garagem. Arbustos bem cortados e um banquinho de madeira no lado esquerdo da fachada. Tinha dois andares, janelões de vidro e uma porta enorme de madeira. A cor da casa era naquele bege médio com detalhes que parecia que o piso entre o primeiro e segundo andar e também o teto do terraço tinham sobrado para fora, ultrapassando as paredes da fachada e tinham a cor cinza escura.
Linda demais. Até pra uma vista noturna! O lugar era bem iluminado.
Subi a calçada e estacionei o carro em frente a porta da garagem.
— Como descobriu o meu endereço, peste?
— No seu "Uber". — abri a porta e saí do carro. — Consegue sair sozinho?
— Consigo.
Fechei a porta e arrodei o carro com a minha bolsa pendurada no ombro. Ele saiu do carro e tombou para cima de mim.
— Consegue sair, mas ficar de pé... — observei.
Ao invés de ele se recompor, ficou agarrado em mim.
— Me larga, embuste. — o empurrei no carro e ele se encostou ali. Fechei a porta e pensei se iria abandoná-lo ali ou entraria na casa para ver como é lá dentro e também comeria a pizza que já deve estar chegando.
Eu estava morrendo de fome.
— A chave está aí. — ele apontou para a chaves do carro.
Eu vou entrar pra ver se ele sabe se virar sozinho.
Provavelmente deve ter empregada. Se o Gustavo, que parece ser bem organizado, tinha uma. Imagine esse outro que tem cara de quem não sabe fritar um ovo.
— Vamos. — estendi o braço sem olhar para ele e ele segurou a minha mão e depois pendurou seu braço sobre o meu ombro.
Ele encostou o nariz na minha cabeça. — Seu cabelo é cheiroso.
— Eu sei me cuidar.
— Não estava dançando na mesa feito uma maluca?
— Já aprendi a minha lição.
— Parece que o jogo virou... — ele abraçou o meu pescoço.
— Pois é. — paramos em frente a porta e então peguei a chave e abri a casa. — Onde fica o interruptor? — passei a mão pela parede.
— Um pouco mais pra dentro.
Entrei na sala e o encontrei.
Com a luz acesa eu vi a casa dos sonhos diante dos meus olhos.
Era linda! Linda!
Tinha uma escada bem moderna, só com os degraus em madeira, nada de corrimão. A parede parecia ter sido feita de pedra branca. Era uma coisa rústica. O sofá industrial enorme. Plantas eram os enfeites do lugar. Um tapete preto bonito e uma tv de mais de 50 polegadas presa a um painel na parede.
Indo reto pela porta de entrada, parece que dava para a cozinha.
Otávio saiu cambaleando, tirando a camisa e caiu no sofá.
Que ódio. Ele sabe ser gostoso.
Fechei a porta e fiquei andando de um lado para o outro sem saber bem o que fazer.
— Cadê a comida?
— Deve estar chegando.
— Que fome desgraçada...
— Isso que dá ficar usando certos tipos de coisa.
Deve ter sido muito mais que um cigarro de maconha ou uma bala.
Otávio já é uma péssima companhia, andando com pessoas assim só fica pior.
Ele sentou e ficou me encarando.
— Eu já vou tá. Só vou pegar um pedaço de pizza e chamar o Uber.
Ele pegou o celular. — É mais de meia-noite. Não vai pegar Uber sozinha!
— E qual é o problema? Eu sempre faço isso.
Mentira. Eu sempre faço amigas na balada e dividimos o Uber. Desta vez estou sozinha.
E falando em balada, eu deveria voltar na boate para pegar a minha grana.
— Tenho que voltar pra boate.
— De jeito nenhum. Eu vou te levar.
— Não! Você está bêbado. Totalmente drogado!
— Quando eu comer ficarei sóbrio.
— Achei que era uma pizza, não o elixir da sobriedade.
— Senta aqui, teimosa.
— Não! — passei bem longe dele e sentei na outra ponta do imenso sofá.
— Esqueci o quanto você é complicada. — ele deitou de novo.
— Isso é fácil de esquecer. Difícil mesmo é esquecer o quanto você é desagradável.
— Você vai dormir aqui. Amanhã eu te levarei pra casa.
— Não!
— Chega de dizer não, Lis. — ele cobriu o rosto. — Vai buscar a pizza.
Revirei os olhos, arrependida de ter vindo.
Eu deveria ter deixado ele lá na boate mesmo.