Heloísa Torres
Me deito ao lado do meu filho e sinto ele se mexer e virar pra mim.
— Mamãe ? Já acabou ? — escuto a voizinha de sono dele
— Já sim meu amor, pode voltar a dormir — faço carinho nos seus cabelos loiros lisos e dou um sorriso leve vendo ele fechar os olhos, já não se ouvia mais os barulhos dos tiros
Eu espero que ninguém tenha se machucado.
Arthur era a minha força, quando me vi no fundo do poço, totalmente humilhada e sem ninguém do meu lado a não ser os meus pais, eu descobri da sua existência no meu ventre, mesmo não sabendo ele me dava forças para levantar e continuar.
Confesso que é difícil as vezes ser mãe solteira, cuidar de uma criança sozinha. E por mais que o Arthur seja quieto e não me desse nenhum trabalho, eu tinha que me dobrar toda para comprar os mimos para ele.
Agradeço muito a Cecília e a Lorena, que me ajudaram no momento mais difícil que passei. Perder a minha mãe, a minha melhor amiga, minha força, foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.
Ela esteve do meu lado quando o pai do Arthur me desprezou e depois fugiu no mundo.
Um i****a nojento.
Suspiro fundo sentindo a minha cabeça doer, fecho os meus olhos e escuto a campainha tocar fazendo eu bufar e me levantar e ir até a porta.
— Quem é ?
— Sou eu, o morte, abre aí preciso de uma ajuda — franzo a sobrancelha e reviro os olhos de leve e então destranco a porta vendo ele entrar mancando com a perna sangrando fazendo eu arregalar os olhos
— Você pode me dar uma ajudinha ? — ele sorri de lado
Era só o que me faltava, cuidar de um marmanjo já feito.
[...]
— Por que você não foi no postinho ? — falo enquanto enfaixava a perna dele depois de colocar o curativo
— A sua casa estava mais perto — ele sorri me olhando e eu desvio o olhar revirando os olhos de leve rindo
Eu era um pouco lerda mas nem tanto assim, sabia que ele dava em cima de mim, eu que me fazia de sonsa, morte era cachorro demais era muito do mundo, não tinha como a gente dar certo.
E eu também quero dar todo o meu tempo para o meu filho, já não posso pensar apenas em mim, eu tinha ele agora.
— Pronto, passa a pomada e troca o curativo pelo menos duas vezes no dia — falo me levantando e pegando as coisas para jogar no lixo
— Obrigada aí, tu leva jeito para essas coisas — ele fala e eu suspiro enquanto lavava as minhas mãos na pia do banheiro, antes da minha mãe falecer eu tinha começado a fazer o curso de enfermagem, mas aí as coisas começaram a apertar e eu tive que parar
— MAMÃE ? — escuto a voz do Arthur e eu seco as minhas mãos e saindo do banheiro vendo ele correndo pra sala — TIOOOO — ele se joga no colo do morte que ri pegando ele mas dá alguns passos para trás com o impulso
— Cuidado Arthur, o morte está machucado — Arthur se mexe no colo do morte que coloca ele no chão rindo
— O que aconteceu tio ? Você se machucou como ? — morte me olha sem saber como responder e logo desvia os olhos para o Arthur
— O tio caiu, se acredita ?
Meu pequeno olha para o morte sentando e aperta os olhos e coloca o dedo no queixo como se ele estivesse pensando fazendo eu sorrir de leve.
— Então foi só por isso que você veio falar com a minha mamãe ? — morte ri de leve olhando pra ele
— Arthur, vamos comer né ? Você acabou de acordar, e não comeu ainda vamos — vou até ele pegando na sua mão e puxo de leve pela mão e fui até a cozinha escutando o morte rir atrás de mim e me seguir
Começo a esquentar a comida conversando com o Arthur, vendo o morte encostado no batente da cozinha.
— Não vai embora não? — coloco o prato de comida na frente do Arthur e o morte ergue as mãos em rendição
— Tá vendo né Arthur, a sua mãe me expulsando, tudo bem eu sei que ninguém gosta de mim mesmo
— Para de drama — reviro os olhos vendo o Arthur rir e o morte vir até mim mantendo uma distância do meu corpo e do dele
— Eu já estou indo Heloísa, obrigado mais uma vez pelo curativo gatinha — ele fala a última parte baixo no meu ouvido fazendo eu me arrepiar e estremecer de leve vendo ele dar as costas e sair da cozinha, não demora para eu escutar o portão da frente bater fazendo eu soltar o ar que nem sabia que estava prendendo
Eu sempre ficava assim na presença do morte, inquieta, nervosa, com vergonha de tudo. Eu não podia negar, o morte é um homem lindo, e também não vou negar que ele me chamava atenção.
Mas sei lá, pensar em um relacionamento ainda era assustador para mim.