Cecília Gonçalves
— Nós quase nos beijamos, quase, mas a Jaqueline interrompeu a gente — suspiro me lembrando do baile
E falando na Jaqueline, não vi ela esses dias, provavelmente deve estar com alguns do vários namorados da zona sul
— Jaqueline, não gosto dessa garota Cecília, já te falei pra ficar o mais longe possível dela — minha mãe fala e eu concordo
— Eu sei mãe, mas ela é prima da Heloísa, então não tem como eu não ficar perto dela — falo e minha mãe suspira
— Tá bom, vamos subir, é perigoso ficar aqui em baixo, depois eu arrumo essa bagunça
Nós subimos pra casa e eu suspiro me jogando na cama enquanto segurava o meu celular pensando no Zeus e no convite dele.
Será que eu ia mesmo ? Eu nem conhecia ninguém, e eu quase nunca sai do vidigal, nunca fui em nenhum outro morro. Mas em lembrar do nosso quase beijo me fazia querer aceitar.
Procuro o contato da Heloísa e aperto para ligar pra ela, depois de alguns toques ela atende.
Ligação on
Heloísa: Menina que invasão é essa, m*l começou e eu já estou com dor de cabeça — ela fala assim que atende e eu dou uma risada leve e escuto o Arthur choramingar do outro lado da linha e a Heloísa dizer "calma meu amor já já irá passar"
— Nem me fale, tô aqui torcendo pra nem um inocente ser morto — suspiro fundo e eu escuto seu suspiro também
Heloísa: Esse povo é s*******o, logo em horário de pico — ela estala a língua resmungando — Mas tu ligou para outra coisa, o que foi ? Aconteceu alguma coisa?
— Éér...Mais ou menos
Heloísa: O que ? Me conta tudo
— Você lembra do baile quando eu fui buscar a bebida ? Então.... — contei tudo, desde o quase beijo até agora pouco escutando ela rir animada em algumas partes fazendo eu rir junto, eu ainda não tinha contado detalhadamente para ela — Então, você vai comigo né ? — pergunto e ela ri
Heloísa: Tá brincando ? É claro que sim, vocês tem mó química, mas química que o cabelo das meninas do morro — dou uma risada alta e ela rir do outro lado da linha — Mas agora falando sério, eu não tinha te chamado no baile aquela hora, a Jaqueline deve ter inventado tudo isso para interromper vocês — ela fala e eu reviro os olhos
— Que raiva — falo baixo colocando a mão na testa escutando ainda os barulhos dos tiros do lado de fora
Heloísa: Imagino pô, que ela tem inveja de você, disso todo mundo já sabe, mas não tem justificativa pra ela interromper vocês
— Inveja do que ?
Heloísa: Sério isso Cecília ? Já pensou em parar para reparar em você ? Além de ser uma p**a gostosa, você tem um coração enorme e faz de tudo para ajudar todas as pessoas, geral gosta de você nesse morro, diferente da Jaqueline né — reviro os olhos enquanto colocava no viva voz e pego uma lixa na caixa, para lixar a minha unha que tinha lascado
— E por falar nisso, onde ela está ? Não vi ela esses dias — levanto a sobrancelha quando de novo eu paro para pensar nisso
Heloísa: Bom diz ela que está em angra, com aquele cara que ela conheceu na balada, lembra que ela tinha falado ? — tento me lembrar e logo me vem a memória, o cara era casado, e tem três filhos, um tremendo cara de p*u esse cara né, deixar a mulher e filhos em casa pra ficar saindo com outra
Uma tremenda p*****a.
— Isso ainda vai dar treta, escuta o que eu estou falando — falo lixando a minha unha e assopro
Heloísa: Deixa dar, oxi eu já cansei de avisar e aconselhar ela, mas é a mesma coisa de dar conselho para uma galinha, por que entra em um ouvido e sai no outro, então deixa se f***r sozinha, já tenho meu filho para criar, e ela já está bem grandinha então tem que aprender a se virar sozinha — e isso era verdade
A Jaqueline sempre arrumava b.o por ficar se envolvendo com homens casados, ou por ser assumida como fiel de alguém e ficar com outra pessoa, apesar de não ter muito contato com a Jaqueline assim como eu tenho com a Heloísa, eu tentava aconselhar, mas ela jogava muita oportunidade fora.
Já dispensou vários trabalhos para fora do país por que um cara de São Paulo sempre banca ela quando vem para o Rio, só que o cara acabou descobrindo que ela ficava com outros homens aqui e meteu o pé na b***a dela e ela acabou voltando com o r**o entre as pernas.
E como disse a gente tentava aconselhar ela, mas não adianta nada se a pessoa não quer mudar.
Heloísa: Vou tentar fazer o Arthur dormir tá bom ? Depois eu ligo para saber direitinho o dia e horário que nós vai e tal — ela falava enquanto eu lixava as minhas unhas e eu assentia com a cabeça mesmo ela não vendo
— Tá bom, vou perguntar e depois eu te falo — digo e nos despedimos rápido e eu logo desligo
Ligação off
Suspiro ainda escutando os barulhos dos tiros lá fora, e eu levo a minha unha até a boca para roer, mas logo abaixo ela sentindo o meu coração acelerar.
— Tá tudo bem, e vai ficar tudo bem, todo mundo vai ficar bem — falava pra mim mesmo, mas o medo ainda estava ali, do meu lado, eu tinha medo pelo MT, pelo morte, pelo Zeus, até pelo tio dele que eu nem conhecia, eu tinha medo pelas pessoas do morro, tinha medo de algum inocente que nem fazia parte do crime acabar em um saco preto, morto, sem vida, e deixando uma família para trás, seus amigos, e até mesmo os seus sonhos
Eu amava as pessoas daqui, amava os moradores por que todos sempre se ajudavam, independente do comando do José, se algum dia eu sair daqui eu vou ficar saudades, mas vou ficar muito aliviada por saber que eu não ia mais passar por isso, por esse medo, essa angústia que sentia sempre que tinha invasão aqui.