" O improvável é acreditar na possibilidade do impossível."
Ivan Czar
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Onze horas e nada.
— Robert, tem algo de errado acontecendo. — Comentei olhando o relógio pela décima vez na noite.
— Ela viria? — Escutei sua mastigação, irritante. — A intenção era de partir, suas roupas não estavam no closet e vi que carregava uma mala até entrar em um táxi.
Estava ficando sem a razão pela qual me tinha controlado. Natasha estava ultrapassando a zona de alto risco que tanto afastei muitas pessoas, ela queria fogo e eu daria com muito prazer.
— Isso não me importa mais. — Respondi de forma sábia, porque ficar remoendo os fatos não colabora para pensamentos calmos.
— E se ela estiver com outro? Já pensou nessa hipótese? — Droga!
Robert poderia estar com toda a razão, mas ela também não está fora desse raciocínio lógico, eu agi feito um canalha em dias de cortejos e sei o quanto estou errado, principalmente por querer lealdade sendo desleal a ela.
— Ela sabe com quem está lidando. — Não preciso relembrar o quanto posso ser perigoso. Segurei a xícara de café com uma força desnecessária, talvez não seja tão r**m tirar as próprias conclusões.
— Mas também não custa nada. — Resmunga me deixando só com os pensamentos, remoendo e talvez quase desesperado, deixei a xícara na mesinha ao lado da poltrona e decidi fazer o que era certo.
— Procure por informações de Tom. — Deixei a ordem sabendo que Robert odiava ser tratado dessa maneira. Seus resmungos ficaram frequentes enquanto me levantava para ir ao quarto pegar uma roupa e me arrumar.
Peguei a bolsa que usei sempre nas minhas missões, ela estava localizada no fundo do closet do quarto onde estou dormindo agora, abri o zíper revelando minhas coisas que agora deixo como lembranças, as blusas surradas que usava para os treinos, as faixas para os punhos e tinha até uma pequena coleção de peças íntimas femininas ao qual costumava guardar após minhas relações.
É um costume muito sutil para um homem, talvez sutileza não seria a palavra correta, puxei a peça branca de meu bolso e coloquei ela com as outras, tornei a movimentar o zíper deixando a bolsa no mesmo local de antes.
Suspirei sentindo o corpo reclamar, as coisas já estavam se tornando desgastantes, a saudade de minha mãe a esse ponto é tão doloroso quanto foi a sua partida. O relógio estava fazendo um barulho irritante e um tanto conhecido, como algo que minha mente havia isolado.
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Uma bomba granada caiu a quinhentos metros de distância, o impacto da explosão jogou meu corpo para trás com força me fazendo bater com a cabeça em algo. Já era a quinta vez que algo do tipo acontecia nas missões.
Meus ouvidos já não funcionavam normalmente, barulhos altos me pareciam abafados enquanto sentia ser puxado para longe do confronto.
— Fique vivo! — A voz de Dereck parecia distante, por mais esse momento, acreditei estar partindo.
Acreditei que a morte seria apenas uma passagem para o nada, o inevitável e até o que não conhecemos. Mas para mim, a inexistência parecia ser o óbvio.
Quantas vezes pensei na morte, isolado de tudo, as vezes quando o comportamento era classificado como excelente, traziam algo novo, sendo drogas ou até mesmo mulheres, mas isto não era um agrado, para mim era como se brincassem com minha sanidade. Queriam que me tornasse um nada e agora essa será a realidade que enfrentarei.
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Ela ajeitou as roupas com apenas uma mão, a outra segurava um guarda-chuva. Seus passos sobre os saltos vermelhos eram apressados, maravilhosamente bela, trajando um casaco marrom e caminhava olhando para todos os lados como se sentisse que eu a observava sorrateiramente.
— É a esposa? — O taxista tentou puxar assunto, me ajeitei nervoso. Queria saber dos motivos de seus encontros e com quem Natasha estava saindo.
— Sim.
O silêncio parecia conspirador quando uma mãe passou correndo ao lado do táxi para poder pegar abrigo debaixo do sombreiro da cafeteria. Ela balançava a criança no colo e deixou a bolsa cair na poça de lama, esperei alguns segundos quando notei um homem bem vestido aparecer ao lado dela e apanhar a bolsa lhe entregando, falou algo que fez a moça paralisar segurando o bebê de uma forma protetora, ela retribuiu com um aceno de cabeça e fez de tudo para sair dali no meio da chuva.
— Você pode levar aquela moça para casa? — Apontei para a mulher que correu para o outro lado da rua e o Taxista confirmou, deu a volta com o carro e estacionou ao lado da mulher.
— Moça, posso te ajudar? — Ela me olhou desconfiada, se afastando com o bebê que não parava de chorar. Abri a porta do carro e saí.
— Eu pago a corrida para vocês chegarem em casa. — Peguei algumas notas do bolso da calça social passando para o motorista.
— Obrigado, moço. — Ela entrou com os olhos cheios de lágrimas. — De verdade.
— Se precisar, aqui está o meu número. — Ela segurou o papel que lhe ofereci e deixei que partisse. Me senti leve e pronto para lidar com outros problemas, notei que Natasha estava saindo do estabelecimento.
Esperei o momento certo para poder pegar outro táxi.
— Para onde? — Uma moça estava no volante, mastigando sem parar e com um leve sorriso nos lábios, encostou o antebraço no banco do passageiro e olhou para mim. Analisei o endereço que Robert havia me ajeitado antes de sair da mansão, entreguei o papel para ela.
— Quero o caminho mais curto, por favor. — Meu russo não era tão r**m assim, o carro começou a andar e pensei em muitas possibilidades, uma delas é reivindicar o corpo de Natasha.
Ela precisa me dar uma boa explicação.
Com os pensamentos fervilhando, desci em um tipo de hotel simples do outro lado da cidade, pedi informações sobre ela na recepção e disse que era um namorado para que pudesse ter acesso às chaves, mas infelizmente eles não deram.
Então resolvi tentar o modo evasivo. Parei no décimo nono andar, porta trezentos e quinze, puxei o canivete do bolso e forcei a fechadura, com duas tentativas falhas e frustrado, notei um grampo caído aos meus pés imaginando ter sido grande sorte, peguei o objeto moldando para que conseguisse abrir os mecanismos dentro da fechadura, com um click entrei no apartamento e comecei a investigar.