Paola.
Claro que a Amanda não ia deixar passar. Conhecendo a minha amiga, sei que vai querer saber detalhes. Nem bem estaciono o carro na frente da minha casa, ao final do dia, e a vejo. Ela já saltou do carro dela e está me aguardando de braços cruzados e sobrancelhas levantadas, na porta da minha casa, como quem diz: desembucha.
— Dá para a madame sossegar? Eu vou contar tudo. — falo. Ela concorda com a cabeça.
Começo contando desde a praia até a academia. Ela ouve tudo com curiosidade, abre e fecha a boca várias vezes para me interromper, mas não dou chance.
— Satisfeita? — pergunto ao terminar o resumo completo.
— Sim e não. — ela fala, eu rio.
— Mesmo me contando tudo, ainda quero te dar dois tapas, um de cada lado deste seu rosto lindo e cínico. E mais, como pode esconder de mim informações sobre esse homem gostoso? Há! Senhorita Paola Zabat! Eu estou revendo a minha indignação. Quando penso no amigo do tal Luigi gostoso, tenho que aumentar mais um chute em sua costela. — ela fala e nós duas rimos.
Conto também sobre o meu encontro com o Eduardo, meu ex querendo um "remember". Ela fica irritada com a cara de p*u dele e diz.
— O que esse i****a pode estar querendo? Que cara de madeira! Não consigo acreditar que, depois de tudo que ele te fez, ainda tem a audácia de convidá-la para ir ao luau. Falando nisso, o amiguinho do seu gato malhado me chamou para ir com ele. — conta, piscando os olhinhos e fazendo cara de fofa.
— Pois é. Eu tive que mentir ao Eduardo, dizendo que não vou porque tenho outros planos. Mas não comentei que é com um par de olhos azuis. — Sorrimos... e juntas fizemos a dancinha da vitória, onde tocamos os nossos quadris duas vezes, deslizamos o corpo flexionando os joelhos e balançamos os braços acima da cabeça. É assim que chamamos nossa performance.
Finalizo contando que, mesmo com o dia agitado, ainda tenho de aturar dona Laura, com sua chantagem emocional. Minha avó convida Amanda para jantar conosco, mas ela recusa por causa da sua dieta para o Carnaval. Despedimo-nos e ela segue para sua casa, mas antes minha amiga me deseja muita paciência com dona Laura.
Em casa, tomo um banho e ajudo minha avó com o jantar. Enquanto seu Francisco coloca a mesa, dona Tereza conta todas as novidades da igreja e das minhas tias e primas que moram em duas casas, no mesmo terreno. As duas são irmãs de minha avó. Tia Eliza é casada com meu tio Jair e possui um filho solteirão convicto, o Mário. E tia Luzia, que é viúva, mora com sua filha, Carmem, e a neta, Stefane, uma pedra em meu sapato.
Stefane tem a mesma idade que eu, porém nunca nos demos bem. Sabe quando o santo não bate? É dessa maneira, água e óleo. Em outro momento, eu vou lhes contar tudo o que ela já foi capaz de fazer para me provocar e tirar o meu sossego. O pior de tudo é que minha madrinha Carmem é uma ótima pessoa e não merece a filha que tem.
Depois que nós terminamos de jantar, eu lavo a louça e fico na sala vendo TV fazendo companhia à minha avó, enquanto espero que dona Laura chegue.
Assim que chega, como sei que também está cansada, eu vou para a cozinha esquentar a sua comida, enquanto ela vai para o quarto tomar banho.
Ela volta toda cheirosa, mas não muito animada. Eu dou início à conversa, pois também estou cansada e quero me deitar.
— Mãe, meu avô disse que a senhora fez um dramalhão, tudo porque não estamos nos encontrando. Porque você gosta de encher a cabeça dele com seus dramas?
— Paola, você fala como se eu exagerasse ao contar o que realmente sinto. Eu não fiz cena alguma. — ela fala e dá uma garfada na comida.
— E não fez mãe? — questiono.
— Filha, eu sinto a sua falta. É pecado uma mãe sentir falta da própria filha? — reclama, se fazendo de coitada.
— Mãe, mas isso é desnecessário. Não somos mais crianças e, se sente a minha falta, me procure quando chegar em casa, mesmo que seja tarde. Agora não fique se queixando ao meu avô. Você sabe como eles se preocupam com você. Então, não use a preocupação deles como parte de seu drama. — Tento explicar, cansada de como minha mãe é dramática. — E tem mais, sabe que não podemos nos dar ao luxo de diminuir a nossa carga horária.
— Mas você poderia resolver isso se... — Ela dá uma parada e, como sei aonde ela vai chegar, eu já me irrito. — Não me olhe com essa cara, sabe muito bem, que se tivesse se casado com o Eduardo, tudo seria diferente. — dona Laura afirma.
— Eu não acredito que, em uma conversa sobre seus dramas, você vai insistir novamente nesse assunto! — reclamo já furiosa.
— Você tem visto ele, filha? — ela me ignora fazendo a pergunta, eu bufo.
— Por incrível que pareça, eu o encontrei hoje, na escola. — respondo.
— Vocês conversaram? Combinaram alguma coisa? Ele te pediu mais uma chance? — Ela se anima, eu rio interiormente. Como minha mãe pode ser tão fútil?
— Ah, dona Laura! O que eu faço com você? Sim, nós conversamos, eu fui bem educada por vocês. Ele me convidou para acompanhá-lo ao luau. Mas é claro que eu recusei. E, para o seu governo, ainda que ele peça mais uma chance, eu jamais volto com ele. — advirto.
Ela faz uma careta e deixa o restante de comida no prato.
— Paola Zabat, quando é que você vai cair na real e ver que pode ter tudo o que quiser? Mas, mesmo assim, prefere perder o Eduardo por orgulho bobo. — ela fala, e eu desisto.
— O que a senhora chama de orgulho bobo, eu chamo de mulher traída e infeliz. Porque é exatamente isso que eu seria se voltasse com ele. E vamos encerrar essa conversa por aqui. Amanhã eu tenho que dar aula logo cedo. Boa noite, dona Laura!
Saio da cozinha evitando ouvir a sua resposta, e uma briga. A minha mãe acha que eu devo ser como ela, que só sabe pensar em dinheiro e mordomia. Na verdade, eu não tenho nada contra as mulheres que pensam assim, cada um leva a vida como bem entende. Mas isso não é para mim, só me caso por amor.
Chego ao meu quarto, pego meu celular para ver se recebi mensagem, vejo que o Luigi me mandou, abro e leio.
Ele pergunta se eu vou surfar amanhã. Eu respondo que não posso. Às quartas-feiras, dou aula pela manhã no bairro onde moro, que fica distante da praia. A resposta chega em seguida, com uma carinha triste, e pergunta se pelo menos na academia eu vou. Respondo que não. Omito o motivo. Preciso economizar gasolina e dinheiro, as coisas estão cada dia mais difíceis. Despedimo-nos com boa noite.
****
No dia seguinte, no café da manhã, meus avós me esperam já na mesa.
— Conversou com a sua mãe ontem? — meu avô pergunta.
— Sim, esperei ela chegar e, enquanto jantava, tivemos uma conversa. — Omito o detalhe ridículo de que dona Laura quer me empurrar para o meu "ex" safado e traidor, por uma vida confortável.
— Fico feliz que vocês tenham se entendido. — Meu avô inocente fala.
Coitado dele, quanta ilusão. Despeço-me e sigo para a minha aula. Como fica no bairro em que moro, subúrbio do Rio de janeiro, eu vou caminhando. Enquanto espero a minha primeira turma, mando uma mensagem para o Luigi. Eu adoro o nome dele.
Eu: Bom dia!
Luigi: Ganhei o dia! Bom dia, sereia.
Eu: Surfou hoje?
Luigi: Sim, senti a sua falta.
Eu: Que inveja.
Luigi: Decidiu se vai à academia hoje?
Eu: Acho que vou aproveitar para descansar...
Luigi: Vamos fazer assim! Manda-me a sua localização que, depois do trabalho, eu passo para te buscar?
Aproveito para provocá-lo.
Eu: Nossaaaa! Você trabalha "aquaplay"?
Luigi: KKKKK. Engraçadinha. Vou lhe dar uma lição, nessa b***a gostosa.
Eu: Tenho que ir agora, meus alunos chegaram. Beijos...
Ele me manda um áudio.
Luigi: Bacio in questa boca calda (beijo em sua boca gostosa)
Minha Nossa Senhora das calcinhas molhadas, como resistir a esse homem lindo, falando essas coisas em italiano?
Saio dos meus pensamentos e bato palmas para meus alunos prestarem atenção. Na verdade, as palmas são para eu mesma prestar atenção e me situar no aqui e agora.
****
Luigi.
Depois de deixá-la entrar em seu carro, sigo para o meu, estou muito e******o. Essa mulher mexe mesmo comigo.
Davi me provoca, mas eu não deixo por menos e retribuo com uma provocação sobre ele e a morena. A mulher é mesmo muito bonita. Ele não economiza elogios a ela. Meu amigo já estava de olho na amiga da sereia há algum tempo. Só não entendi porque ele ainda não tinha se aproximado dela.
Chego à casa de minha nona, subo para o meu quarto. Aline, como sempre, chega logo em seguida. Estou no chuveiro e ela invade o banheiro. Fica me observando enquanto me lavo. Mas, de agora em diante nossas fodas acabaram. Eu estou interessado em uma surfista, e, nos meus relacionamentos, não admito mentiras e traição. Por isso, não faço.
— Aline, eu sei que está gostando do que vê, mas volte para o quarto de minha nona. Não faremos mais nada, eu me comprometi com Antonella que respeitarei suas funcionárias. Como CEO da empresa, eu tenho que cumprir. Você é minha funcionária agora. E não fodo com funcionárias.
— Você não está levando isso a sério, não é mesmo, meu italiano gostoso? Isso serve para as outras, não para mim. — ela fala desabotoando a camisa.
— Aline! Agora serve para você também. Eu não vou tocar em uma funcionária. Espero que você entenda, ou terei que substituí-la. — digo sério, dando as costas a ela. É uma questão de responsabilidade.
— Você vai se arrepender. E sei que não vai demorar em me procurar. — Sai batendo a porta.
Eu não vou, e quando falei que não transo com funcionárias, estou falando sério. Antes ela era funcionária do Pedro, mas agora eu estou no comando. Foi bom, admito, mas acabou. E não quero começar com um processo nas costas.
Saio do banheiro, me visto e desço para jantar. Julieta está na mesa e me ignora todo o tempo. Nem parece que somos mãe e filho. Ela, em nenhum momento, disse que está feliz com a minha volta. Muito pelo contrário, seu comportamento mostra que não sou bem-vindo. Mas eu fiz uma promessa a Pedro e vou cumprir.
Subo depois de uma conversa descontraída com a nona. Mando uma mensagem à loira enfezada.
Ela demora um pouco para responder, diz que não vai poder surfar amanhã porque vai dar aula logo cedo. A minha sereia é uma mulher esforçada e guerreira. Vai à luta logo cedo.
****
De manhã, meu dia começa com ondas e com um Davi cheio de dúvidas. Ele está preocupado pelo fato de Amanda ser dançarina de um programa de televisão. Deixe-me explicar, não é machismo e nem preconceito, é insegurança mesmo. Eu tive que segurar para não rir de meu amigo quando ele disse:
— Cara, ela tem contato com todos aqueles atores e cantores. Não sei se consigo lidar com isso.
— Mas vocês se conheceram ontem. Como pode já ficar pensando nessas coisas? Cara, ela que vai dizer o que quer da vida. E não fique sofrendo por antecedência. Se ela estivesse interessada em algum desses galãs, como você acabou de dizer, estaria com ele, e não sozinha. — digo o que penso. A mulher é uma gata, pode escolher com quem vai estar.
— Acho que você tem razão, eu estou parecendo um marica com medo da concorrência.
— Exatamente, um marica cheio de dengo. — Enxugo-me e volto para o carro, preciso passar em casa, tomar um banho e ir para a empresa.
Meu celular vibra e meu coração também ao ver que é mensagem da sereia.
Acabei de falar que meu amigo está parecendo um marica, mas eu também estou bem parecido com um.
Ela me dá bom dia, e passa a ser bom mesmo, só pelas suas mensagens. Combinamos de nos falarmos mais tarde. Ela acha que eu sou um desocupado. Digo que a busco depois do trabalho. Uma folgada e abusada, essa baixinha.