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1065 Palavras
Luma Não peguei no sono a noite toda pensando nas coisas que aconteceram ontem. O Thiago não deveria ter me enganado desse jeito. Se ele não queria nada com nada, no mínimo deveria ter me dado papo reto. Olhei o relógio e já eram 7 horas da manhã, então resolvi quebrar minha cara de uma vez por todas. Tomei um banho rápido, tomei um café, coloquei uma roupa leve e fui até a escola. Queria trocar uma ideia com a diretora para ver se ele pelo menos estava indo para as aulas. Quando cheguei lá, para minha surpresa, ela falou que ele tinha 70% de faltas. Mano, e o crente queria se formar! Eu já estava pensando na faculdade dele, largando um dos meus sonhos por causa dele, enquanto ele estava traindo minha confiança. O pior de tudo nem era isso, tá ligado? Era o dinheiro que eu dava para ele lanchar com os amigos, o dinheiro dos trabalhos que eu dava para ele. Eu sempre me esforçava e dava uma mesada para ele não precisar trabalhar porque sei que dinheiro faz falta, principalmente quando a gente é adolescente. Ou melhor, adulto, né? Porque ele já é adulto, mas eu que enxergava ele como criança. Voltei para casa boladona e, quando cheguei na porta, um dos vapores do Dogão estava parado lá. Confesso que meu corpo ficou todo arrepiado porque estava com medo de eles fazerem alguma coisa com o Thiago. Me aproximei devagar, e ele me encarou com um sorriso de lado. Colombiano: E aí, mina, suave? O chefe mandou te entregar esse papel aqui. Ele falou que é um resumo da tua dívida, já com desconto. Fica tranquila, ninguém vai fazer nada contigo, não. Luma: Obrigada. Ele saiu, e eu entrei em casa com o coração acelerado. Quando abri o papel, vi que tinham reduzido a dívida pela metade e colocado em parcelas de R$ 500. Ia demorar muito tempo para pagar, mas pelo menos eu teria condições. Só que esse bagulho não ia ficar assim. Se tem uma coisa que aprendi com minha mãe é que quem não fala a verdade merece castigo. E o Thiago ia ser castigado da melhor forma. Ou, se não, ele ia meter o pé da minha casa, porque aqui não tem espaço para vagabundo. Fui até o banheiro, enchi um balde de água, subi as escadas com ele na mão, abri a porta do quarto do Thiago e joguei a água em cima dele. Ele tomou um susto e caiu da cama. Thiago: Tá maluca, Luma? Que p***a é essa?! Luma: A p***a tu engole! Se arruma que hoje você vai trabalhar comigo! Thiago: Eu, trabalhar? Luma: Você tem uma dívida para pagar. E se você acha que eu vou me matar para resolver suas picas, você está muito enganado. Eu já me ofereci para o dono do morro, e ele aceitou. Agora eu tenho que tratar daqui que nem uma p**a pra ele. Era isso que você queria? Parabéns, você tirou toda a dignidade que eu tenho. Mas você também vai trabalhar, sabe por quê? Porque eu não vou ficar bancando sua vida de playboy, não vou ficar colocando comida na mesa para você ficar me enganando e achando que a vida é um morango. Eu vou te ensinar que ele é um morango sim, mas socado no seu cu! Você tem 5 minutos para descer arrumado para começar a trabalhar. Se não descer, eu mesma vou na boca e falo para eles te meterem a porrada e te matarem, porque eu não vou ficar me matando para sustentar vagabundo que só faz merda. Thiago: Tá maluca! E a escola? – ele falou na maior cara de p*u. Respirei fundo olhando para ele. Peguei o balde, que era de ferro, e comecei a bater nele. Ele começou a gritar e eu continuei batendo. Thiago: Para! Tá maluca! Luma: Escuta bem, Thiago. Até aqui você me enganou. Mas hoje já fui na escola e sei que você tem 70% de faltas. Tá pensando que eu sou otária? Achou mesmo que eu não ia verificar? Depois dos caras da boca entrarem na minha casa, acho muito bom você estar arrumado em 4 minutos, porque já perdeu 1 nesse teu papo furado. Hoje você vai ver qual é o peso de carregar uma casa nas costas. E acho muito bom você se esforçar, porque, se eu perder algum emprego por tua causa, o bagulho vai ficar doidão pro teu lado e você vai meter o pé! Acabou sua vida de mordomia. A empregada morreu! – gritei, saindo do quarto dele. Comecei a arrumar as coisas no isopor. Hoje era dia de praia e, como estava quente, ia vender muito. Subi para o quarto, coloquei um biquíni, uma camiseta por cima e um short na altura do joelho. O bonito demorou, mas desceu. Mandei ele carregar o isopor, e eu fui com as duas bolsas térmicas. Thiago: Tem necessidade disso? Luma: Você ainda acha que pode ficar fazendo show depois da merda que arrumou? Pois pode tirar teu cavalinho da chuva. Já falei que a otária morreu. Vamos logo, porque daqui a pouco a praia vai lotar e quero voltar antes das 14h. Thiago: Vamos ficar esse tempo todo na rua? Luma: Depois ainda vamos trabalhar no pagode do morro, bebê. Tá pensando o quê da vida? Thiago: Eu ia pra curtir... Luma: Falou certo: ia! Porque agora vai trabalhar pra deixar de ser mentiroso. Thiago: Mas a mina que eu tô pegando vai tá lá. Ela acha que eu tenho condição, pô. Luma: Hahaha! É bom que ela tira o cavalinho dela da chuva e vê que você é fodido. Ou melhor: trabalha! Se ela quiser, bem. Se não quiser, amém. Saímos do morro, e todos os vapores ficaram olhando. Fomos direto para o trem e depois trocamos para o metrô. Luma: Você vai gritar: "Olha a água, refrigerante, Guaravita!" E eu quero meu dinheiro certinho. Sei exatamente quanto vai dar, então nem vem de graça. A tabela de preços está aí, e se vender mais barato, vou descontar do teu dinheiro. Atividade! E, se tiver arrastão, corre pro canto. Thiago: Eu tenho vergonha... Luma: Tem vergonha de trabalhar, mas não teve vergonha de me colocar na situação de ontem, né? Vai, pode ir. E, se não vender nada, não tem dinheiro – falei e saí andando, gritando.
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