Thiago
Mano, nunca pensei que eu ia ficar tão cansado andando na praia. Esse bagulho de ficar gritando e vendendo água é chatão. Várias minas gatas e eu, como trabalhando, não dava nem para dar uma ideia nelas, principalmente nas que têm dinheiro. Elas viram logo a cara quando batem de frente com um favelado trabalhador. Eu não quero nada com nada mesmo, não tá ligado? E nem tinha como eu dar o papo na minha irmã porque ela estava tão orgulhosa que não ia entender que o meu corre não é estudar. Eu sei que eu tô errado, fiquei pegando o dinheiro dela falando que ia fazer trabalho da escola, mas como eu ia arrastar umas novinhas para a base sem grana? Não dá, tá ligado? Tem que fazer uma graça, pagar um lanche.
Já eram mais ou menos 15 horas da tarde quando eu voltei para o ponto de encontro. Eu tinha vendido quase tudo porque eu não queria perder a minha cabeça, sem falar que água vem facinho na praia. A Luma se aproximou com a cara fechada.
Luma: Cadê meu dinheiro para eu conferir se está tudo certo? Sobrou alguma coisa?
Thiago: Não, eu vendi tudo.
Luma: Muito bem, vamos para casa que mais tarde tem pagode e nós vamos trabalhar.
Thiago: Eu não quero trabalhar no pagode, eu já disse que eu vou com uma mina.
Luma: Suave, não precisa trabalhar, mas eu também não vou colocar comida dentro de casa. Quer viver vidinha de rico, vive, mas dá teu jeito para se sustentar. Eu já falei que é otária, morreu, mas se você não quer acreditar, suave. Quando tiver passando fome, você chama a novinha que você vai no pagode para te ajudar.
Thiago: Vai ficar nessa até quando?
Luma: Até quando eu tiver vontade. Você tem noção da merda que você me fez se envolver?
Thiago: Vai ficar jogando na minha cara?
Luma: Se você gritar de novo, ao invés de jogar palavras na tua cara, eu vou jogar a mão. Quer ver?
Fiquei quieto porque eu respeito muito a minha irmã, mas o bagulho não é assim, não tá ligado? Ela nunca vai me vencer na ameaça. Eu posso até trabalhar no pagode hoje, posso até perder esse esquema do asfalto, mas eu vou dar um jeito de sair da casa dela.
Ela saiu andando, me deixando para trás, e foi na direção do ponto de ônibus. Ela se sentou no banco, encostando a cabeça no ferro, sem falar nada. Ela é igualzinha à minha coroa.
Thiago: Desculpa, cara.
Luma: O melhor pedido de desculpa é a mudança de comportamento, mas pelo visto você não está arrependido e isso me assusta. Sabe por quê? Porque o dogão não vai ter piedade de você de novo. Quando você vacilar, ele vai meter uma bala no meio da sua cara. E aí eu vou ficar sozinha no mundo e vou ter que te enterrar, que nem nós enterramos a mamãe e o papai. Não era isso que eu queria para você. Eu queria que você tivesse uma vida diferente, mas pelo visto você prefere se colocar em risco à toa.
Thiago: Eu gosto disso, cara.
Luma: Gosta disso, mas é o****o ao ponto de perder uma carga. Não adianta gostar da atividade se você não tem mentalidade para estar lá. Até para ser traficante tem que ser esperto, Thiago, e você não tem essa esperteza. Se não, a gente não tava nessa situação. Você gosta de fama, das novinhas do teu lado, mas quando você rodar ou quando você ficar fodido, nenhuma delas vai ficar com você. Elas vão procurar o próximo porque elas gostam de dinheiro. Se é isso que você quer para sua vida, suave, vai lá. Não sou eu que vou te impedir, mas não corre para o meu colo quando der merda, porque eu não vou ficar esperando você voltar. Eu não vou te dar uma segunda chance. Até aqui eu cuidei de você, eu fiz tudo que eu pude, mas se essa é a vida que você quer, não conte comigo, porque eu sou trabalhadora. Eu posso bater no peito e falar que eu faço meu dinheiro de maneira justa. Agora, se você quer a vida toda errada, f**a-se ela, mas não me liga quando der merda, porque eu não pulo mais na bala por você. E outra coisa, eu vou atrás do dogão e vou falar que você vai pagar sua dívida. Eu tô fora.
Thiago: Tá maluca? Ele vai me matar.
Luma: Você vai morrer de qualquer jeito. A vida desses traficantezinhos de merda é assim: ou vocês acabam mortos ou vocês acabam presos. Eu só vou adiantar o processo. Eu que não vou ficar me matando para pagar sua dívida para você voltar para o mesmo lugar. Vê se eu tenho cara de palhaça, vê se eu trabalho em circo. Você vai ter que se virar, vai ter que pagar esse cara. Eu tô fora. Assim que eu chegar em casa e tomar um banho, eu vou direto na boca trocar uma ideia com ele.
Thiago: Você está arrumando um jeito de me colocar medo, né? Mas você não vai conseguir. Eu sei o que eu quero para a minha vida.
Luma: Eu não coloco medo em ninguém, eu só estou te dando papo reto. Se você quiser, abraça. Suave. Se não quiser, eu vou ver se o sinaf está pago para eu não ter que gastar muito dinheiro para poder te enterrar, porque eu tô ficando sem paciência.
Thiago: Você vai ter coragem de ir na direção dele para falar para ele me matar?
Luma: Eu vou na direção dele para falar que eu não vou me responsabilizar pelas suas dívidas. Até porque eu não perdi carga nenhuma. Eu estou sendo justa. Se você não consegue ser justo, é um problema seu. Mas você quer me envolver numa p**a para você continuar nessa p***a? Tô fora. Vê se eu sou alguma maluca, eu hein. Eu acho que você que precisa de tratamento psiquiátrico.
Eu fiquei parado pensando durante alguns minutos.
Thiago: Eu vou trabalhar com você no pagode.
Luma: Deixa eu pegar meu ônibus. Sabe por quê? Você quer ficar de papinho gostoso para cima de mim e a minha paciência com você já está no limite.
Entramos no ônibus e voltamos para o morro. Todos ficaram me olhando, provavelmente porque eu nunca gostei de trabalho e agora eu estava tendo que ralar.