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"This morning I woke up in a fortress of distortion
I'm at war with my emotions, I'm at war with their enforcement
Tryna fight for what's right and got sidetracked
[...]
I'm coming home now
Right where I belong"
"Esta manhã eu acordei em uma fortaleza de distorção
Eu estou em guerra com minhas emoções, estou em guerra com as imposições
Tentando lutar pelo que é certo e foi desviado
[...]
Estou indo para casa agora
Bem onde eu pertenço"
- Home, Vince Staples
— Dipper! Vai logo — Mabel gritou da sala para o irmão que ainda estava no andar de cima — Vamos nos atrasar!
— Meu Deus, Mabel — ele revirou os olhos e gritou de volta para a irmã enquanto remexia seu armário, procurando por algo — O ônibus só sai as sete, ainda são seis horas.
— Eu sei, mas eu não quero arriscar perder a hora — disse emburrada. Às vezes, a calma excessiva do irmão a irritava.
Jogou-se no sofá de braços cruzados e cara fechada, esperando a princesa do seu irmão terminar de se arrumar. Como ele podia ser tão devagar? Ele era quem fazia o papel da mulher na casa, enquanto Mabel já estava pronta há horas, Dipper ainda procurava uma roupa para vestir.
Mas dessa vez, o atraso não era tanto culpa sua. Sua mala já estava pronta desde a noite anterior, e já tinha separado tudo o que ia levar na viagem, mas a coisa mais importante de todas tinha sumido.
— Gremlins de m***a! — ele praguejou baixinho enquanto tirava todos os agasalhos do armário, desesperado para achar o boné de Wendy.
A ruiva o tinha entregado há quatro anos, quando eles foram embora da pequena cidade do Oregon, e ele não podia simplesmente chegar lá e falar que tinha perdido sua peça mais preciosa. Talvez não fosse tão importante para ela, mas era para ele.
2013 tinha sido um ano insano, o ano que eles visitaram a cidadezinha onde seus pais nasceram pela primeira vez. O lugar onde descobriram incontáveis coisas, como um tio avô perdido, três diários misteriosos, seres mitológicos e perigosos, e, o mais importante de todas essas coisas: Bill Cipher. O "Dorito-humano-iluminati", como Mabel gostava de chama-lo.
E depois de descobrirem a verdade sobre o mundo – principalmente depois de derrotarem Bill no Weirdmageddon –, esses serezinhos que estavam espalhados pelo mundo, debaixo do nariz dos humanos mas sem nunca serem notados, passaram a se divertir fazendo visitas periódicas aos irmãos Pines.
Em sua maioria, eram bichinhos inofensivos, como gremlins ou pixies, que gostavam de pregar peças já que os irmãos sabiam sobre sua existência, mas tinham outros seres um pouco mais ameaçadores que vinham buscando vingança pela morte de Bill Cipher, o maior de todos os demônios.
Mas o sumiço do boné, com toda a certeza, foi coisa de gremlins. Eles adoravam esconder coisas ou embaralhar fios. Quem vocês acham que são os responsáveis pelo emaranhado dos fones de ouvido?
Depois de jogar todas as suas roupas no chão, finalmente conseguiu achar o boné, escondido no fundo falso do armário, no mesmo lugar que escondia suas armas – afinal, não podiam ficar desarmados quando ainda tinha gente procurando vingança pelo que aconteceu há 4 anos, e seus pais não podiam saber que tinham armas reais de combate pela casa.
Tirou o assessório de lá e segurou com os dentes enquanto colocava a mala de mão nas costas e pegava as outras duas de viagem. Correu de m*l jeito com elas, descendo pela a escada e passando por Mabel – sentada de birra no sofá como sempre – colocando-as no porta-malas do carro que já estava aberto.
— Anda Mabel, vamos nos atrasar — ele gritou do carro enquanto ela aparecia emburrada. Adorava provocar a irmã.
Ela resmungou, xingando-o e batendo a porta do carro ao seu lado, mas bastou empurrá-la com um encontrar de ombros e lançar um sorriso que ela já estava de bom humor.
Estavam ansiosos para aquilo. Era difícil acreditar que já fazia quatro anos que eles não iam para lá. Ao mesmo tempo que parecia ter sido há alguns meses, as memorias eram tão distantes, afinal, eles estavam tão diferentes e crescidos. Já não eram mais as mesmas pessoas.
Os tivôs faziam várias visitas durante o ano, mas não era a mesma coisa do que estar em Gravity Falls. Não era a mesma coisa do que se encontrar em diversas aventuras perigosas e extasiantes. Lutar com monstros na cidade grande não era nem de longe tão empolgante quanto fazer isso na cidade mais bizarra do país.
Fora, é claro, a ansiedade de Dipper para ver Wendy. Ainda trocavam algumas mensagens, mas com o tempo, aquilo foi se tornando cada vez mais raro. Mas agora, tinha três meses inteiros do verão para fazer valer a pena. Dessa vez, ele não deixaria a timidez tomar conta. Já era um homem de quase 17 anos, com certeza daria conta disso.
∆
Eles finalmente chegaram no terminal de San Francisco. Despediram-se dos pais e subiram no ônibus enquanto as malas eram despachadas.
Dipper levava o boné de Wendy na mão, já que era verão e aquilo esquentava demais, assim como Mabel, que segurava seu suéter preferido: o de estrela cadente.
Os gêmeos tomaram seus lugares, ambos com sorrisos nos rostos, que só aumentaram quando o ônibus começou a andar.
Um tempo depois de darem início à viagem, Mabel notou que o irmão segurava um papel amassado em suas mãos, junto com o boné. Era o papel em que seus amigos tinham escrito suas despedidas no dia em que foram embora. As assinaturas de todos estavam lá. Pacifica, Gideon, Robbie. Wendy.
Ele encarava o nome dela, pensando sobre o dia que descobriu o segredo ali. Ninguém sabia o que estava escrito, mas ele sabia. Ficou pensando se Wendy também era tímida. Era a única explicação para escrever com tinta visível apenas na luz n***a "P.S. Eu também gosto de você" ao invés de falar a verdade para ele.
E enquanto ele encarava o papel, Mabel colocava os fones de ouvido, dando play em sua playlist, começando por uma de suas músicas preferidas: Brave, da banda Satellite Station, enquanto encarava a paisagem do seu lado da janela.
Já pela metade da viagem, Mabel percebeu que seus pensamentos tinham ido longe demais. Normalmente era interrompida – pelo irmão ou por si mesma –, talvez por estar sempre tão ocupada com a escola e não ter tempo de deixar-se ir tão longe, mas dessa vez foi mais além do que gostaria.
Quando percebeu, seus olhos não encaravam mais a estrada, e sim o desenho de estrela cadente de seu moletom. Ele agora já estava surrado, velho e um pouco desbotado. No final das mangas já surgia um r***o na costura, o que ela agora usava como buracos para seus dedões, para o casaco não sair do lugar. Não que fosse necessário, afinal, não cresceu nem um pouco desde aquele ano.
Talvez por ter zombado tanto do irmão por ser um centímetro mais alta que ele, e agora, ele já a ultrapassara em uns vinte centímetros.
Ela passou a mão sobre o desenho, pensativa. Como aquilo era possível? Como que aquele desenho exato estava na roda de invocação de Bill Cipher há milênios? Como ele sabia que ela era a Estrela Cadente? Como ele sabia há milhares de anos que Mabel teria um casaco com aquela imagem, ou que Dipper compraria o boné com o pinheiro? Nada daquilo fazia o menor sentido. A não ser que fosse coisa do destino.
Mabel sabia que Dipper não acreditava nessas coisas, nem sinais nem que estivessem predestinados a algo, mas aquela roda de invocação era a prova daquilo. Ele dizia que o destino era apenas algo que as pessoas usavam como desculpa, como quando alguém não consegue o que quer e diz "bem, é o destino, não há nada que eu possa fazer sobre isso".
E talvez ele estivesse certo, mas não é isso que humanos fazem? Procuram respostas onde não há razão apenas para se sentirem um pouco menos insignificantes nesse mundo maluco?
Se o destino realmente fosse apenas uma desculpa ou não, Mabel não queria saber. Afinal, aquela era a resposta para seus pensamentos. Aquela era o único motivo que achava de justificar o porquê que mesmo anos depois de derrotarem Bill, ele ainda assombrava seus pensamentos.
"Shooting Star" ela se lembrou de sua voz e voltou a olhar pela janela. "Minha Shooting Star não vai mesmo querer uma ajudinha?"
Aquela voz causava calafrios em sua coluna. Principalmente quando sentia que, no fundo do seu peito, ela ainda tinha a expectativa de ouvi-la mais uma vez. Era uma voz demoníaca que a enchia de medo e a fazia suar frio cada vez que se lembrava, mas por que ela esperava ainda escutá-lo chamar de Shooting Star mais uma vez?
Destino, talvez? A desculpa dos tolos?
Quem sabe, fosse só porque ela fazia parte da roda de invocação. Quer dizer, as pessoas ali têm uma forte ligação entre si, talvez também tivessem uma forte ligação com Bill. Talvez ela não fosse a única a se sentir assim, mas não podia simplesmente falar para o irmão que queria ouvir a voz do ser que quase matou todos eles.
E aquilo a enchia de raiva. Como alguém tão pura quanto ela podia querer ver o ser mais sombrio de todos mais uma vez? Como mesmo depois de tudo o que ele fez, depois dele quase ter dominado o mundo inteiro e feito de escravos aqueles que não se juntariam a ele, como depois de tudo isso Mabel ainda sentia que ele tinha um pingo de humanidade em seu peito?
Mabel segurou o choro ao lembrar-se de uma vez que ele mesmo havia dito para ela que ela podia ver a beleza onde os outros não viam. Que ela trazia esperança para aqueles que encontravam seu caminho, e por isso tinha o coração mais puro de todos.
Mas não era de tristeza que queria chorar, era de raiva. Raiva por se sentir daquele jeito, por ter acreditado nele e por ainda ter esperanças de que mesmo nos últimos segundos de vida do demônio, ele ainda podia ter salvação.
Abraçou o suéter e virou mais o rosto para que Dipper não visse sua primeira lágrima escorrer enquanto ela mordia o lábio inferior, tentando engolir o choro.
Não importava o que ela fizesse, quantas vezes repetisse para si mesma que ele era um demônio mentiroso e manipulador, ela continuava vendo as pequenas coisas que ele fazia que indicavam que ele tinha esperanças.
Como durante o Weirdmaggedon, por exemplo. Ele queria escravizar os humanos e tomar a terra, e durante esse processo, sequestrou a garota e a trancou em um mundo, isolando-a do resto. Mas o que teria sido dela se ele não o tivesse feito?
Ele tinha feito algo errado trancando ela lá? Com certeza, mas uma vez que ele queria m***r metade da população do mundo e escravizar o resto, transformando a Terra em um verdadeiro inferno, ele poupou o sofrimento da garota ao trancá-la na esfera de estrela cadente. Impediu que vivesse em meio àquele caos, apagou sua memória e transformou em realidade todos os seus desejos de uma vida perfeita.
Para uma garota de 12 anos, aquilo era bem tentador.
Hoje em dia, Mabel era forte, mas naquela idade, era apenas uma criança medrosa. E viver feliz em uma mentira era bem mais confortável do que sacrificar sua felicidade e seu bem-estar para salvar o resto do mundo.
Agora sabe o quão egoísta e fraca foi, e que o que ele tinha feito não anulava as outras coisas ruins que ele fez, mas de qualquer modo, ele a salvara.
Do seu jeito errado, é claro, mas tinha. Ela era fraca demais para conseguir sobreviver lá fora, mesmo com Dipper ao seu lado. Se Bill não tivesse feito isso, seus monstros a teriam matado.
— Mabel? — Dipper chamou sua atenção quando reparou em suas lágrimas — Está tudo bem?
— Sim, eu só estou muito feliz — forçou um sorriso, limpando o rosto — São lágrimas de felicidade. Por estar voltando para Gravity Falls — mas Dipper não caiu nessa. Estreitou o olhar e a pressionou para falar, e seu sorriso cedeu — É só que... Sei lá, eu estou um pouco receosa com tudo isso. Acha que talvez... — desviou o olhar dele — Que Bill Cipher possa voltar?
Aos poucos, ela voltou a olhar para ele. Dipper parecia surpreso pela pergunta, mas no final, ele apenas soltou uma risadinha.
— Mab, Bill está morto. Tudo o que sobrou daquele dorito-humano-illuminati foi uma estátua f**a — ele fez uma careta de desgosto, arrancando uma risada aliviada da irmã — E eu estou aqui com você, está bem? Mesmo que ele ressuscite, sei lá eu como, até porque isso não vai acontecer, eu não vou deixar que ele toque em um fio do seu cabelo.
Ele a abraçou e ela apoiou a cabeça em seu ombro, mais tranquila. Ele sempre soube como acalmá-la, e ela agradecia profundamente por isso. O único jeito de parar de pensar nele, era se ele nunca mais aparecesse em sua frente. Ter a certeza que ele estava morto era a melhor notícia que ela poderia receber.
E como o irmão que sempre soube o que dizer, Dipper preferiu manter segredo sobre o que ele e Ford descobriram da última vez que se encontraram.
∆
Depois de quatro horas de viagem, eles finalmente chegaram ao seu destino.
Quando estavam saindo do ônibus e esperando suas malas chegarem, Mabel notou que ele trocava mensagens com alguém. Espiou sobre o ombro dele e viu que era Wendy.
— Já falou para ela que chegamos? — ele se assustou com a proximidade dela e a empurrou para o lado, rindo um pouco envergonhado.
— Ela perguntou primeiro.
— É, eu acho que esse ano vai — ela ponderou, e ele apenas ignorou seu comentário malicioso.
Pegaram as bagagens e seguiram rumo à Cabana do mistério, passando pela caixa d'água que continuava do mesmo jeito de sempre: de um lado com o nome da cidade e do outro, a pichação de bomba-muffin-gigante feita por Robbie.
Tinham acabado de entrar no caminho que cortava a floresta de Gravity Falls que levava direto para a Cabana quando ouviram passos e galhos se quebrando.
— Mabel — Dipper alertou.
— Eu ouvi.
Os dois iraram uma faca que ficava escondida na bainha dentro de suas blusas, sempre preparados para uma emboscada.
Desde quando voltaram para sua cidade natal e quase foram mortos por monstros que procuravam por vingança, os gêmeos iniciaram uma serie de treinamentos rigorosos que incluíam luta corporal, com armas, estratégias, e muito mais. Tudo isso escondido dos pais, é claro.
Mabel ainda podia ser a garota fofa e delicada de sempre, mas tinha seu lado insano que adorava se meter em encrenca e aventuras.
— Achei que tinham esquecido o caminho — debochou uma voz que eles conheciam bem.
— Wendy! — Mabel correu na direção da mulher quando ela pulou de cima da arvore que estava pendurada, aterrissando com graciosidade no chão de terra.
Ela abraçou a ruiva com força.
— Existe uma coisa chamada trânsito — ele disse, indo em sua direção — Mas você não deve saber o que é, garota do interior. Só existe na cidade grande.
Ela riu sarcasticamente e se soltou da morena, olhando-a de cima a baixo com um sorriso.
— Mabel, você está tão bonita! — a mais nova exibiu um sorriso enorme e exagerado, mostrando os dentes sem aparelho — Mas não cresceu nadinha.
— É, acho que foi carma por ter tirado tanto sarro do Dipper com aquilo de "gêmea alfa". Viu o tamanho dele? — ela sorriu com segundas intenções, querendo expor a beleza do irmão afim de dar um empurrãozinho em seu romance.
— É verdade, o garoto da cidade está bem mais alto que eu agora — o olhou minuciosamente e o puxou para um abraço — Parece que estou devendo dez dólares para Tambry.
— Apostaram na minha altura?
— Coisa de menina — ela deu de ombros — Vamos? Os senhores Pines já chegaram.
Continuaram seu caminho para a cabana enquanto conversavam sobre coisas aleatórias. Quando chegaram lá, encontraram Soos com uma criança no colo ao lado de sua mulher, Melody.
— Soos! Quanto tempo! — Mabel cumprimentou, indo até eles — Essa é a Clary?
— Sim, é ela. Da oi para a sua amiga, filha.
Dipper e Mabel ainda tinham dificuldade em ver o Soos que conheciam como pai. Ele e Melody estavam casados há dois anos e tiveram uma filha que agora tinha quatro meses.
Soos devia ser o que mais tinha evoluído entre todos eles. Agora nem era mais conhecido assim, e sim como senhor Ramirez ou só Samuel, seu verdadeiro nome. Ele já tinha uma barba de respeito e se vestia como um homem sério, mas ainda era o bobão que todo mundo amava, só que agora era um homem que sabia separar a vida profissional desse seu lado.
Conversaram um pouco ali, e Clary começou a chorar. Melody a pegou no colo e a levou para a sala, provavelmente para amamentar.
— O sótão já está pronto para vocês arrumarem suas coisas — ele disse depois de um tempo — E os senhores Pines estão ajeitando os quartos deles, caso queiram conversar.
— Valeu, Soos — eles falaram juntos e subiram os dois lances de escadas.
Deixaram as malas no sótão e desceram para o segundo andar e foram para o quarto principal, cumprimentar o tivô Stan.
— Mabel! — ele abraçou a sobrinha neta quando ela pulou em seu colo — Está tão bonita! E olha só para você, garoto. Parece que as aulas de jiu-jitsu estão funcionando, hein?
Stan parecia ótimo na mesma medida que parecia exausto. Sua barba estava um pouco mais comprida do que na última visita. Uma barra um pouco falha pelas cicatrizes colecionadas nas aventuras que os dois passaram nos últimos anos, viajando pelos mares e combatendo monstros com o Stan'o'Wars II.
Logo depois, foram para o andar inferior, abrindo a porta não mais secreta do quarto de Ford. Assim como Stan, estava exausto, porém ótimo.
Depois de uns minutos colocando a conversa em dia, Mabel sentiu que estava impedindo alguma conversa mais especifica entre os dois, então decidiu ir ajudar Melody a cuidar de Clary, afinal, a vida deles deveria estar uma loucura com a nova bebê, e ela sempre foi boa com crianças.
Pouco antes de fechar a porta do quarto, ouviu o assunto ser iniciado por Ford. Sua curiosidade até tinha falado para ela ficar e ouvir, mas seu senso mandou ela deixar para lá. Aquilo era assunto deles. Mas não pôde evitar escutar as primeiras palavras da conversa.
— Dipper, precisamos terminar aquele assunto. Acho que eu descobri como... — e foi tudo o que ela ouviu antes de sair dali.