Nikolay
Mikhail morava em uma casa pequena em um bairro simples. Era cheio de imigrantes, em sua maioria do Leste Europeu e seus descendentes, e gente da classe trabalhadora na metade leste do sul da Filadélfia, e Mikhail se misturava perfeitamente. Eu tinha algumas lembranças boas do meu tempo naquela casa — e alguns pesadelos.
Alina apertou os olhos dela.
— É aqui?
— O que você esperava?
— Eu não sei. Grandeza, Eu imaginei. Por ele ser o cabeça de uma das principais família da Máfia.
— Cormac mora em uma mansão?
Ela deu de ombros.
— Não, mas eles são italianos.
Eu aceno interrompendo a conversa.
— Os Italianos gostam de se exibir.
Eu empurro. A porta se abre e saio para a rua.
— Vamos.
Ela me seguiu pelo quarteirão. Passei pela porta da frente, já que ela estava trancada eletronicamente e vigiada por duas câmeras de segurança diferentes. Não me importava se a família soubesse que eu tinha feito uma visita a Mikhail, mas não queria que ele fosse alertado antes de eu entrar.
A parte de trás do quarteirão tinha um beco estreito e cheio de vidros que passava entre os quintais. Nós nos esprememos pelo caminho, andando com cuidado.
— Não pise com muita força — sussurrei em seu ouvido, segurando seu braço e mantendo-a perto de mim. — Você não quer quebrar nenhum vidro ou enfiar uma agulha no pé.
Seus olhos estavam perplexos.
— Agulhas? Sério? — Eu apenas sorri e a puxei junto.
A casa de Mikhail ficava no meio do quarteirão. Pulei a cerca primeiro e depois a ajudei a passar. O quintal era exatamente como eu me lembrava: todos os canteiros estavam mortos, pulverizados com herbicida todo ano.
Eu andei para o lado esquerdo e peguei uma pedra enfiada na terra. Eu cavei com meus dedos e encontrei a chave enterrada. Eu a segurei e ela brilhou no luar.
Alina sorriu nervosamente, abraçando-se enquanto eu destrancava a porta dos fundos e a abria.
O alarme tocou. Corri para o teclado e digitei o código. Ele desligou — mas Mikhail seria acordado agora. Eu fechei a porta e gesticulei para Alina a seguir.
O lugar de Mikhail era escassamente mobiliado. Provavelmente herdei isso dele. Havia muito pouco nas paredes, apenas algumas fotos e pinturas feitas por artesãos e artistas russos locais. As escadas rangiam quando subíamos e a luz brotava por baixo da porta do quarto de Mikhail. Olhei para baixo o corredor, de volta ao quarto onde eu costumava ficar.
Me recusei a me aproximar. Eu tenho muitas memórias ruins dessa época.
Eu levantei uma mão e Alina esperou alguns metros atrás na escada. Eu agarrei a arma na minha cintura enquanto eu abria lentamente a porta de Mikhail.
Ele estava sentado na cama com as mãos cruzadas sobre o peito. Seu peito pálido estava coberto de pelos finos pretos e prateados e a luminária de cabeceira lançava sombras pelo quarto. Seu rosto parecia abatido, cansado e mais velho.
Dei um passo até o final da cama. Ele não se moveu, apenas me encarou com aquele olhar impassível.
— Eu sabia que só poderia ser você — ele disse finalmente, quebrando o silêncio.
— Putin está morto.
Ele suspirou com um grande pesar.
— Eu sinto muito, mas eu tive que fazer isso.
Enquanto eu falava eu sentia raiva. — Você o mandou para lá.
— Isso é apenas negócios, garoto. Venha e se sente sobre a cama. Nós podemos discutir isto.
Mas lá estava o tom de medo em sua voz.
Ele não pensou que eu poderia matá-lo.
Eu sorri, cabeça inclinada.
— Não, acho que vou ficar aqui. Não vou tomar muito tempo da sua atenção.
— O que você quer, Nikolay?
Virei a cabeça ligeiramente, mas não tirei os olhos dele.
— Alina, entre aqui, por favor.
Eu ouvi Alina entrar no quarto. Os olhos de Mikhail parecia um pouco surpreso, mas ele rapidamente recuperou o controle de sua expressão.
— Ela é mais bonita do que eu pensava que seria. Eu suponho que foi por ela, que você veio aqui.
— Prazer em conhecê-lo também — disse Alina suavemente atrás de mim.
— Acho que você consegue entender o que eu vim fazer aqui.
— Eu alcanço com minha mão livre o braço de Alina, puxando ela para avançar. Ela fica relutantemente ao olhar para Mikhail.
— Essa garota é inocente. Acho que você já sabe disso, mas eu queria que você olhasse pra ela e entendesse. Ela não faz parte desse mundo e não pretendo deixar você matá-la.
Mikhail franziu a testa um pouco.
— Então para que veio?
— O irmão dela foi sequestrado pelos Leones. Agora mesmo, eles o têm em algum porão. Eu planejo ajudá-la a tirá-lo das garras deles.
Mikhail respirou profundamente e eu espero ele demonstrar sua raiva, mas em vez disso, ele balançou a cabeça.
— Eu já sabia.
Dei um passo para trás e senti Alina ficar tensa através da minha mão.
— Você sabia sobre o meu irmão? — ela perguntou, sua voz soou com raiva e desespero.
— Por que você acha que eu queria você morta? Claro que sabíamos. Eu queria ter certeza de que você não poderia espionar para os Leones e dar àquela cobra a vantagem de que ele precisa para perturbar o equilíbrio da máfia.
— Eu não entendo — Eu disse, dedos afundando no braço de Alina.
— As coisas estão boas agora, Nikolay. Os Starkovs estão ficando mais gordos a cada dia, enquanto nós destruímos os Leones. Os Petrovs estão felizes em ficar em seu cantinho e cruzar uns com os outros. Mas se os Leones começarem a tirar força dos Petrovs, ou se eles desencadearem outra guerra pela cidade, as coisas podem ficar muito ruins. Eu queria ter certeza de que a garota não perturbaria o delicado equilíbrio que trabalhamos tanto para criar.
Soltei uma risada aguda. Então era esse o motivo. Mikhail não matava sem uma estratégia maior — eu sabia que era uma possibilidade, mas ouvir isso da boca dele ainda mandava um pouco de surpresa e raiva para dentro dos meus intestinos. Eu estava meio tentado a sacar a arma e acabar com ele aqui e agora, e só não fiz isso porque ele esperava isso de mim, e eu não daria a ele a satisfação de estar certo.
— Você ia me matar e deixar meu irmão morrer, tudo por causa dos seus joguinhos — disse Alina, engasgada com uma raiva mortal.
— Não é nada pessoal. Mas suponho que você tenha sorte de ter enviado Nikolay. Não tenho certeza se há outro homem nesta cidade que teria salvado você.
Solto o braço de Alina.
— Eu quero que você me ajude a salvar o irmão de Alina.
— E o que vou receber em troca?
— Eu resolverei seu problema. Se salvarmos o irmão dela dos Leones, eles não terão mais influência. A cidade retornará ao seu equilíbrio e você não terá mais que se preocupar com seu precioso poder.
Mikhail acaricia a barba no seu queixo.
— Tentador. Mas você matou o Putin.
— Não se esqueça do Maxim — digo.
Caímos em silêncio. Mikhail me observou cuidadosamente enquanto Alina tremia com raiva m*l contida. Se não terminássemos isso logo, ela faria algo e******o, e eu não queria arriscar isso.
— Se eu concordar com isso, você estará acabado na Máfia. — A voz de Mikhail era suave como seda e afiada como as facas que ele costumava enfiar em meu corpo como parte do meu treinamento.
— Você entende o que isso significa, Nikolay? Você deixa a família. Você deixa a maldita cidade. Depois que você consertar isso, vocês dois vão embora.
Eu respirei fundo e olhei para Alina. Seus olhos estavam arregalados e ela olhou para mim.
Uma conversa silenciosa pairava no ar.
Eu não podia decidir isso por ela. Ela tinha família aqui, seu mundo inteiro estava nessas ruas.
E isto era a mesma coisa para mim. Todos que eu conhecia fazia parte dessa máfia. Eles eram minha vida.
E agora, talvez eu tenha que desistir disso e encontrar algum outro significado em um mundo brutal.
Alina assentiu, muito levemente.
Olhei de volta para Mikhail.
— Vocês têm um acordo. Nós resolveremos esse problema com Aiden, e vocês vão recuar até que isso acabe.
Mikhail assentiu devagar.
— Isso é um acordo então.
Eu agarro a mão de Alina e me retiro com ela do quarto. Eu me viro de volta para o meu mentor, um homem que era praticamente meu pai, e caminho até a porta. Eu não podia ficar ali nem mais um momento, não nesta casa onde eu sangrei, onde eu dei tanto de mim e me tornei um homem quebrado.
Pedaços de mim estavam espalhados entre as tábuas do assoalho.
— Nikolay — Mikhail me chama assim que alcancei a escadaria. — Você era como um filho para mim. Eu te amava.
Fiz uma pausa, apenas por um momento.
Então fui embora o mais rápido que pude.
Alina se manteve ao meu lado. Eu fiquei parado na frente da porta.
Eu bati meu punhos em direção ao volante do carro e Alina me observou com olhos silenciosos e cheios de pena.
Eu odeio o seu olhar. E odeio eu mesmo por ter deixando minha raiva escorregar na direção dela.
— Nikolay — ela disse suavemente tocando meu braço.
Eu não liguei para ela. Mas ela me tocou novamente. Suavemente, e veio se aproximando. Ela se aproximou mais.
— Nikolay — ela disse novamente. Eu não poderia encontrar o seu olhar.
A Bratva Starkov era meu mundo inteiro. Fui arrancado da minha vida antiga e criado para acreditar em Mikhail como um salvador. Ele me quebrou e depois me construiu novamente, ele me deu todas as minhas habilidades, me fez o que sou hoje.
Sem a Bratva, Eu não era nada.
Eu era menos que nada. Eu era um monstro, um assassino sem causa.
— Nikolay. A voz de Alina estava mais perto, bem perto do meu ouvido. Sua respiração era quente no meu pescoço. Ela me puxou para perto dela e envolveu seus braços ao meu redor, me abraçando forte.
Eu não sabia como reagir.
Não conseguia lembrar da última vez que alguém me abraçou. Esse tipo de coisa não acontecia comigo. Lidava com minhas emoções da única maneira que sabia: bebendo, transando, brigando e matando.
Eu não sou abraçado. Eu não sou confortado.
Mas Alina estava quente contra meu corpo, seus s***s pressionados contra meu ombro, e seu queixo próximo do meu pescoço. Eu tentei me afastar um pouco e sou envolvido em seus braços de volta, envolvo ela e a puxo para mais perto, segurando-a na caminhonete enquanto a raiva e a angústia rolavam por mim em igual medida.
Minha vida na Bratva. Minha vida estava arruinada. Só que ainda havia um vislumbre de esperança.
Não para o Starkovs — não, eu sabia para lá eu não podia voltar. Eu soube disso no momento em que matei Maxim na rua.
Mas Alina era essa esperança.
Talvez se eu pudesse cuidar dela do jeito que nunca fui capaz de cuidar de outra pessoa antes, talvez eu pudesse voltar de qualquer cova que eu estivesse cavando para mim.
Ela foi o razão para tudo isso, e eu não poderia perder a visão disso.
— Vamos — eu disse suavemente e gentilmente me afastei dela. — Vamos para casa e tentar dormir. Tenho a sensação de que estaremos ocupados em breve.
Ela afundou novamente no assento quando deixei aquela casa para trás.