Anabela resolveu se juntar a Olívia na cozinha. Ela pôde conhecer as outras funcionárias, e se sentou para ajudar a cortar alguns legumes.
— A senhora não precisa fazer isso — Margareth, uma das funcionárias falou.
— Não se preocupe, eu gosto, e me faz lembrar da Amélia — Anabela falou sorrindo, se lembrando da sua única amiga.
— Amélia? — Olívia perguntou.
— Sim — Anabela falou com um sorriso no rosto. — Ela é funcionária dos meus tios, e ficamos muito próximas.
— Como era na casa dos seus tios? — Olívia perguntou enquanto fazia uma lista de compras para a casa.
— Como eu posso dizer? Daquela casa eu só sinto falta da Amélia.
— Seu tio e a família dele não eram legais com você? — a mulher parou de escrever para olhar nos olhos de Anabela.
— Nenhum pouco — a garota falou com o certo rancor na voz. — Meu tio só foi legal enquanto queria se tornar meu tutor. E não pense que ele queria se tornar meu tutor porque eu não tinha mais ninguém. Na verdade, era só porque a herança do meu pai e do meu avô ficaram para mim.
— Vocês.tinham um relacionamento difícil?
— Digamos que ele queria se livrar de mim — Anabela falou tentando ser forte, mas com os olhos marejados. — Ele me internou em um hospital psiquiátrico após um ano que os meus pais morreram em um acidente de carro, onde eu fui a única sobrevivente, quando nós estávamos voltando do enterro do meu avô.
— Que monstro — Margareth falou revoltada.
— Eu sinto muito, Anabela — Olívia disse com pesar.
— Eu estava deprimida, porque era tudo muito recente, e foi um trauma muito grande. Mas eu não precisava ser internada, eu não tinha problemas psicológicos, eu só precisava dar tempo ao tempo e de afeto. Tanto que dois anos depois, o diretor do hospital foi substituído, e eu pedi uma nova avaliação onde foi constatado que eu estava sã mentalmente.
— Ele deve ter forjado o laudo — Margareth falou visivelmente revoltada.
— Margareth... — Olívia a repreendeu.
— Desculpa, Sra. Olivia — Margareth falou ainda indignada. — É que tem coisas que me revoltam.
— Eu não tenho como provar, mas eu sei que foi exatamente isso que aconteceu. O diretor do hospital disse que não tinha como falar do primeiro laudo, porque precisaria ter me avaliado na época. Mas pelas perguntas que ele me fez, eu tenho certeza que até ele desconfiou.
— Você é tão nova e já passou por tanta coisa — Olívia disse se aproximando de Anabela, e passando a mão nos cabelos dela.
— Eu ainda tenho pesadelos com os meus pais, e são bem reais. Mas a Psicose, o transtorno que tinha no meu laudo, é quando você fica fora da realidade estando acordado. Se o primeiro laudo tivesse correto, eu teria que fazer tratamento e tomar medicações para o resto da vida. Eu creio que se não tivesse tido a mudança de direção do hospital, eu estaria internada até hoje.
— Também acho — Margareth falou, e em seguida olhou para Olívia, se dando conta que não deveria ter falado, e se retirou para colher alguns legumes para o almoço. — Desculpa, Sra. Olívia.
— A quanto tempo você trabalha aqui, Olívia? — Anabela perguntou mudando de assunto, pois falar do seu passado a deixava triste.
— Aqui há um ano, desde que o Sr. Ryan se mudou. Porém, para a família Mitchell eu trabalho há quinze anos.
— Onde ele morava?
— Em Londres. Ele se mudou para Berkshire depois do acidente.
— Como foi o acidente? — Anabela perguntou se servindo de um pouco de água.
— Ele foi comemorar o aniversário de 29 anos com a namorada e alguns amigos em um iate, e acabou desequilibrando e caindo, batendo a cabeça na lateral da embarcação, antes de cair no mar. Por sorte, o Iate estava parado, se não ele poderia ter morrido.
— Nossa.
— Ele passou alguns meses em coma, e quando acordou não estava enxergando mais.
— É irreversível?
— Ele fez vários tratamentos, com várias especialistas diferentes, aqui e nos Estados Unidos. Como não teve êxito, ele desistiu de tentar.
— Deve ser muito difícil para ele.
— Sim, ele era muito alegre, e sempre aproveitou ao máximo a vida.
Depois de ficar mais um tempo na cozinha, Anabela decidiu dar uma volta pela área externa da mansão. Desde que tinha chegado, ela ainda não tinha passeado por fora da casa, e ficou encantada com tudo que viu.
Anabela amou o lago, e ficou por um tempo embaixo de uma árvore o admirando.
***
A noite, por volta das 23 horas, Ryan estava se preparando para dormir, quando escutou o que parecia ser um choro.
Ele abriu a porta do seu quarto, e percebeu que o barulho vinha do quarto de Anabela. Ryan foi em direção ao quarto dela, bateu na porta duas vezes, e como o barulho persistia e ninguém respondia, ele resolveu abrir a porta.
Ryan pode constatar pelo barulho na cama, que Anabela estava se debatendo, e chorava de soluçar chamando pelo pai e pela mãe.
Ele se aproximou da cama e se sentou ao lado dela.
— Anabela... Anabela, acorda — ele chamou e nesse momento ela puxou o ar com toda a força e acordou.
Ao ver Ryan em sua frente, Anabela ainda apavorada com a sensação daquele pesadelo, abraçou ele com força, chorando.
Ryan notou que todo o corpo dela tremia, e a abraçou forte para que ela se acalmasse.
— Calma, eu estou aqui. Foi só um pesadelo.
— Dói muito — Anabela falou em prantos. — Porque eles tinham que me deixar sozinha.
Ele não tinha o que dizer, então só permaneceu abraçado com ela, acariciando seus cabelos e enxugando suas lágrimas.
— Você está mais calma — ele perguntou quando ela saiu do abraço depois de alguns minutos.
— Sim, Obrigada.
— Eu vou pro meu quarto, você vai ficar bem?
— Você pode ficar? — Anabela perguntou fechando os olhos com força, envergonhada.
— Você quer que eu durma aqui?
— É que esses pesadelos são recorrentes, e geralmente eu ia dormir com a Amélia depois que eu tinha eles.
— Amélia?
— A funcionária da casa do meu tio.
Ryan não esperava que Anabela fosse pedir algo desse tipo. Ele ficou pensativo, e chegou a coçar a cabeça, mas acabou concordando.
Eles se deitaram na cama de frente para o teto, e Anabela precisava de algo que iria lhe ajudar a dormir.
— Posso pegar na sua mão? — ela perguntou envergonhada e com receio do que ele iria pensar — Se não puder tudo bem, eu entendo.
— Tudo bem — ele falou levando sua mão até a dela.
De mãos dadas, não demorou muito para que os dois estivessem dormindo.