CAPÍTULO 10

2107 Palavras
1ª PESSOA (HARRY) — Mais um drink, por favor. — Eu pedi para a mocinha loira que passava de cinco em cinco minutos pela minha mesa, o bloco de anotações e uma caneta esferográfica nas mãos, a ponta hora ou outra sendo mordida conforme ela olhava nos meus olhos com a típica carinha de quem está a fim de uma trepada rápida no banheiro. Era bonitinha, sim. Mas eu ainda precisava relaxar e aquietar meu amiguinho de baixo. Havia acabado de chegar, afinal. Califórnia, como sempre, continuava a mesma; o ciclo vicioso de praias, universidades e indústrias, turismo e trabalho. As praias eram a melhor parte, então, passar a véspera e ano novo em Coronado Beach não seria uma tarefa tão dolorosa assim, ainda mais se eu me mantivesse plantado num pub paradisíaco, longe de preocupações — a não ser por aquela que me esperava dali a alguns minutos. O pub era em grande parte meu, com uma vista incrível para a praia, num local quente e com o toque sensual que qualquer clube precisa ter para render muita grana. Os americanos nunca gostaram muito de mim, e eu não os culparia a julgar pela quantidade de gente que matei no território deles, nas mais cruéis proporções. Mas isso não me impediria de encontrar falhas policiais aqui e ali, pagar uns ou outros e ter minha guarda e sigilo garantidos. O pub, apesar de ser meu, estava no nome de Niall. Com isso, tudo o que eu fazia ali era agir como um completo riquinho e turista britânico à procura de muita bebida e sexo. Por falar em sexo, eu estava enlouquecendo nesse tópico. Durante quase uma semana, na seca, pensando nele. Não era algo que se podia chamar de normal, e eu de fato não estava nos meus dias mais lúcidos. b*******a no banho, pensando em Louis Tomlinson, fazia parte da lista de coisas que eu nunca havia planejado fazer, mas fiz. Afinal, para que usar as mãos quando eu podia ter alguém fazendo todo o trabalho para mim, no minuto ou segundo que eu quisesse? Portanto, de uma hora para outra, me decidi: A última noite do ano estava marcada para o fim dos meus dias dependentes de Louis Tomlinson. Mesmo que eu ainda pensasse em suas curvas, na sua boquinha macia e apetitosa, além daquela b***a fora do comum, e mesmo que eu ainda sentisse uma vontade quilométrica de senti-lo em mim, de tê-lo em todos os sentidos, eu precisava viver a minha vida da maneira como sempre vivi. Enquanto Louis negasse as minhas vontades, eu não poderia ficar subindo pelas paredes por causa dele. — Em frente ao banheiro em cinco minutos. — Ordenei para a mesma garçonete loira que havia tempo estava dando mole para mim, assim que ela trouxe minha bebida. A julgar pela forma com que ela mordeu os lábios em direção à minha calça jeans, seria um grande favor e uma realização de sonhos para a garota. A fodinha acabou como algo que os americanos chamariam de incredible. Dois orgasmos para a loira e apenas um para mim, ainda que extremamente intenso. Mesmo assim? Nem metade do t***o que o simples amasso com o meu diabinho francês havia causado no Natal. Quando dispensei a garota, logo agradeci mentalmente por ela entender, de imediato, que do banheiro para fora nós não seríamos absolutamente nada. Ela apenas seguiu para o bar, enquanto eu seguia para o andar superior como se nada muito significante houvesse acontecido. De fato, mulheres costumam ser mais espertas que os homens. O andar superior era indiscutivelmente mais moderno em comparação ao inferior. Mais reservado também. Havia poucas pessoas e as luzes pareciam mais intensas, ou era a bebida que causava a sensação alucinatória em mim. Com metade do andar reservado para a pista, a outra metade era descoberta e repleta de mesas e cadeiras, com uma visão adorável do céu estrelado e as ondas do mar indo e vindo pelo horizonte. Por um momento, eu fechei meus olhos enquanto sentia a brisa desarrumar meus cachos e, ao mesmo tempo, o calor fazendo com que eu sentisse incômodo no terno que usava, mesmo que o mesmo estivesse amassado e, a camisa por baixo, com os botões desabotoados por conta do ocorrido com a garçonete. Olhei o relógio para ver que horas o mesmo marcava, e me surpreendi com o fato de ele estar atrasado. Ele nunca se atrasava. Sentei-me em uma das cadeiras e observei com água na boca um moreno robusto do outro lado do corredor, me olhando sugestivamente. Ele lembrava Louis, com olhos azuis e ar superior. Eu, já nervoso e atento ao horário, escolhi não flertar; desviei o olhar como quem não quer nada. Chequei o celular, esperando que por algum milagre dos céus Louis resolvesse retornar minhas chamadas. Ou Niall. Ou Liam. Ou Zayn. Como em todo ano-novo, eu me sentia sozinho. — Harry Edward Styles. Olhei de soslaio para o dono da voz rouca e cansada, a qual não me era nem um pouco estranha. Finalmente, ele estava ali. O homem que mudou toda a minha história, assim como o rumo de todos os acontecimentos e a pessoa que eu poderia ter sido, a vida que eu poderia ter levado; ele estava bem ali, com seus cabelos mais brancos que da última vez em que o vi, o olhar cansado — mas experiente —, com seu típico charuto na boca cheia de feridas. Mesmo com a escuridão da noite, eu ainda podia ver a famosa cicatriz que percorria desde o seu nariz até o extremo do lábio inferior, tal que até hoje me dá arrepios e faz meu rosto se contorcer em horror. — Senhor James Conway. — Imediatamente, me coloquei de pé para cumprimentá-lo. A única pessoa que eu fazia questão de respeitar, independentemente da situação ou do tempo que se passasse desde os meus dias mais difíceis, onde ele apareceu feito um presente dos céus, a minha única salvação. Era James o responsável por tudo o que eu havia me tornado. Por mais que naquele momento eu fosse considerado um monstro, eu não era mais um verme das ruas. A minha ferida continuava viva e latente no peito, em segredo, mas a minha dignidade estava intacta. E, tente me entender, se ser um monstro é dar-me uma chance de vencer os meus demônios, eu seria um monstro. — O dinheiro? — O velho perguntou, sentando-se casualmente na cadeira oposta à minha, olhando ao redor do pub com a feição indiferente de quem já viu lugares tão melhores para ter-se uma conversa de negócios. James, ao contrário de mim, era e agia como um gângster clássico, sangue frio. Se eu era mau, ele era mil vezes mais. Em resposta, estalei os dedos para o garçom parado no canto direito da pista, fazendo com que o mesmo viesse em nossa direção carregando uma grande maleta de couro, com o máximo de discrição possível. Ele entregou a maleta em minhas mãos, e eu arrastei-a até os dedos cheios de calos de James, que olhou ao redor antes de abrir uma fresta da maleta e checar o dinheiro ali dentro. Estava tudo de acordo, assim como eu havia providenciado, e então, Conway sorriu em minha direção; o simples gesto que significava todo o meu mérito. — Como estão as coisas na Inglaterra? — Estamos bem. Eu tenho ficado naquela casa vitoriana em Sheffield, com os outros. A cozinha química está em perfeitas mãos, aliás. Eu acompanho de perto as coisas por lá, pois então, posso te garantir isso. — Minha voz saía quase que robótica, e o suor em minha testa estava começando a dar indícios do quão impotente eu ficava diante de James Conway. Foi aí que me lembrei de outra coisa que deveria lhe contar. — Temos um novo homem conosco. Na verdade, a acepção dele está em andamento. O nome do sujeito é Louis Tomlinson, um francês inteligentíssimo; me salvou de perder uma boa grana com uma joia falsa. Acho que posso confiar nesse homem, senhor. — É mesmo? — Ele arqueou as sobrancelhas em surpresa. O terror automaticamente percorreu toda a minha espinha. — Você sabe que é importante escutar o que Niall tem a dizer, antes de qualquer decisão. Ainda assim... Eu confio em você, garoto. Aquela foi a mesma frase que ele me disse de todo o coração há alguns anos. Eu lembro-me perfeitamente, até hoje: A primeira vez em que peguei em uma arma, algo que parecia tão pesado em minhas mãos, o peso da vida que a partir daquele momento eu tiraria. Meus olhos estavam vermelhos, eu era tão ingênuo e tinha tanto medo... Naquele dia, James balançou minha cabeça até que o meu foco se voltasse apenas a ele, e então sussurrou aquelas palavras. Foi o suficiente para eu perceber a responsabilidade que ele estava colocando somente em mim; o suficiente para eu apertar o gatilho, com apenas dezesseis anos. Desde aquele tempo, imagino que James já sabia sobre mim. Ele apostou todas as suas fichas para me ver libertar a fera escondida em todo aquele mar de mágoas que parecia não ter fim. E então, tudo o que eu fiz — e tenho feito — é mostrar a James que confiar em mim foi a melhor coisa que ele já fez em toda a sua vida. — Odeio ter que admitir que não vim até aqui para apenas pegar o dinheiro, meu jovem Harry. — Ele se remexeu na cadeira e fumou seu charuto, antes de apoiar suas mãos juntas no meio da mesa que nos separava. Seu olhar estava distante. Muito distante. — Há algo que eu preciso te contar já faz um tempo. Infelizmente, não há mais como eu adiar a notícia. — Não é nada muito alarmante, certo? — Perguntei com urgência. Fazia tempo desde a última vez em que conversamos sério, a ponto de ser pessoalmente. Por mais que eu já esperasse algo assim, considerando-se que ele me ligou para voar de Sheffield até a Califórnia, a pedido de um imprevisto que teria de ser resolvido em menos de 24 horas. — Para falar a verdade... — Conway tirou um paninho do bolso do terno e cobriu a boca com o mesmo, antes de o charuto cair no chão e ele começar a tossir violentamente. Por um momento, eu pensei que o velho estivesse tendo um troço, e me insinuei a levantar para acudi-lo. — Na verdade, se é que você precisa saber disso, é algo que eu já esperava que fosse acontecer antes do tempo. — Ele logo se recompôs. — E o que é, senhor? Ele tossiu mais uma vez, colocando a mão no peito de maneira sutil enquanto voltava seus olhos diretamente aos meus. Era a primeira vez que eu conseguia enxergá-los com tanta clareza; olhos de um azul vivo, impressionantemente vivos, mas cheios de algo que eu simplesmente não conseguia decifrar. — Eu estou morrendo. Minha boca secou. Por um momento, meu coração se deu o tempo de parar bruscamente para absorver o que eu havia acabado de ouvir. Se existia uma pessoa que merecia o meu abalamento, os meus sentimentos — algo que já estava ferrado o suficiente para ganhar o peso de ainda mais sofrimento —, esse alguém era James. Talvez caçar garotinhos com graves problemas psicológicos e transformá-los em criminosos cruéis não fosse algo que pessoas alheias a toda a história achariam legal. Mas foi a minha deixa para salvar qualquer resquício ainda vivo de mim. — C-como assim? — Ora essa, Edward, eu apenas estou morrendo. — Ele revirou os olhos, seco como de costume. — Estou com câncer no pulmão, e não quero me tratar. Já está na hora de eu ir, afinal. Você me conhece, Harry, as coisas sempre soaram naturais para mim. Portanto, a minha morte não será adiada. Pelo contrário, ela será memorável. O fim de uma era, e o começo de outra para você. — James! — Eu estava tão nervoso que ousei chamá-lo pelo primeiro nome. Existia alguma regra sobre isso, mas, naquele momento, eu só conseguia fechar meus olhos e remexer meus cabelos, atordoado, esperando que aquilo não passasse de um miserável pesadelo. — Quem vai cuidar das coisas agora? Quem vai... Manter tudo o que você construiu, senhor? Você precisa se tratar, precisa se dar mais um tempo, porque eu não — — Harry! — Ele bateu com o punho na mesa, causando um estrondo que fizera todos à nossa volta olharem assustados. Em poucos segundos, estava com a mesma expressão indiferente de sempre, dessa vez, porém, com algo a mais. Algo como... Emoção? — Quantas vezes eu terei que repetir? Eu confio em você, garoto. De repente, minha ficha caiu. Seria apenas eu e um império que ninguém antes fazia ideia ser liderado por alguém mil vezes mais experiente e, pior que isso, de uma crueldade incomparável. Eu seria a base e o cume da pirâmide a partir daquele momento. Estava tudo em minhas mãos.
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