CAPÍTULO 15

2063 Palavras
O casarão estava num estado deplorável quando Harry e Louis adentraram o mesmo. A cozinha química tinha os carregamentos roubados e as bacias de cocaína espalhavam-se pelo chão junto aos produtos químicos abertos por todos os cantos, complementando o estado sombrio que pairava ali. Os homens estavam em menor quantidade que o normal, e, em sua maioria, mortos e espalhados miseravelmente sobre o chão sujo. A escadaria estava com os apoios quebrados, e os quadros dos andares superiores quebrados ao meio ou até pichados.  O escritório do gângster e a sala informatizada de Niall eram os únicos espaços intactos, além dos fundos da casa, com os caminhões de carga, que por sorte tinham acesso dificultado. Mas nem mesmo assim para Harry se acalmar. Tudo que se passava por sua cabeça consistia no prejuízo enorme que aquilo lhe traria, e, mais que isso, na vida de Liam Payne. O homem estava desacordado em uma das barras da escadaria, tendo os braços presos num dos apoios enquanto o corpo pendia para trás, amordaçado e pálido como um algodão. Quando os dois viram a figura aterrorizante de seu corpo ali, Harry não demorou muito em surtar e começar a suar, com seus olhos dilatando-se conforme as imagens a sua frente refletiam o peso da sua raiva.  Havia uma carta presa entre a corda e o braço de Liam. "Eu não estou brincando. Irei acabar com tudo que é seu. — Casey Emmett." — Harry leu, abrindo com pressa o envelope amassado e de pontas ensanguentadas. Ele m*l conseguia respirar. Seu coração estava tão acelerado que as letras pareciam se espalhar de um lado para outro, desordenadas. — A pulsação dele está boa. — Louis disse depois de colocar os dedos indicador e médio sobre a artéria do pescoço de Liam, desamarrando a corda de seus braços e deitando-o no chão para enxergar melhor seus cortes nas pernas, inclusive muito profundos. — Harry, eu posso tomar conta dele, mas acho melhor levá-lo a... — Parou.  A imagem de Harry agachado e com os nós dos dedos apertados, seus fios de cabelo entre eles, era assustadora até mesmo para Louis. Harry parecia indefeso pela primeira vez em um longo tempo. O de olhos azuis se aproximou e pegou com as mãos trêmulas o pedaço de papel amassado ao lado do gângster, como se qualquer movimento brusco fosse capaz de acionar o botão para a explosão definitiva do Styles. Louis leu e releu curioso, enquanto o homem ao seu lado só queria deitar e morrer. Por mais que estivesse com mil teorias invadindo sua mente de minuto a minuto, William sentiu uma pontada de desgosto por não estar consolando Harry, tão indecifrável ao que seus cabelos lhe cobriam o rosto. Pior ainda, seus bíceps pareciam comprimidos por algo muito forte, extremamente tensionados. Mesmo assim, quando o policial tentou se mover para mais perto do maior, tudo que ele recebeu em troca foi um empurrão capaz de fazê-lo cair de bruços no chão. Olhando em volta, Harry havia sumido. Horas depois, os meninos chegaram com as malas enganchadas nos ombros, de olhos arregalados pelo cenário que se constituía no casarão. Zayn logo largou a mala para trás e correu em direção a Liam, que por sorte já havia acordado e estava apoiado contra a parede, olhando para o nada, mas sentindo dores inexplicáveis. Louis apenas observava tudo ao seu redor com um cigarro entre os lábios, carregando um soro fisiológico que achara na cozinha química e usara em alguns dos machucados de Liam.  Niall, por outro lado, estava preocupado com seu sistema superior ao FBI, sumindo de vista enquanto subia para o segundo andar às pressas e com o corpo trêmulo de medo.  Harry, desaparecido. — Eu estava na garagem, checando os carregamentos. Os caminhoneiros tinham sumido, mas eu jamais suspeitaria. Estava um silêncio total, e, do nada, muitos homens. Eram muitos, mesmo. Eu até tentei me esconder! Subi para o segundo andar e me meti atrás dos armários, mas me acharam cerca de vinte minutos depois, quando eu tentei sair para pegar alguma arma, a mais próxima que tivesse. Tentaram me esfaquear e daí eu desmaiei. — Liam contava de forma lenta e vaga para Zayn, que só conseguia assentir e apertar sua mão com urgência. Seu maxilar travava em puro ódio. — E o Harry? — Ele teve um surto. — O de olhos azuis fizera questão de responder por Liam. Deu outra tragada em seu cigarro e voltou o olhar para o horizonte, indiferente, não parecendo tão entusiasmado com a situação. Por dentro, contava os minutos para que a história chegasse aos ouvidos de Stan. — Merda. Ele costuma sofrer mais que o necessário. — Zayn respondeu negando com a cabeça, desacreditado, depois puxando Liam para mais perto de si e avaliando seus ferimentos com os olhos cansados e cedendo ao choro. Naquele momento, Louis não só sentiu como viu: a máfia de Harry Styles estava vulnerável e reclusa a qualquer deslize, de modo que qualquer carta tirada de um monte sem proteção seria o suficiente para a sua queda. E nem mesmo era ele quem havia provocado tal proeza.  Isso se manteve até cerca de uma semana, quando o inverno ia se diluindo num clima mais ameno, e o Império do Styles, regredindo ao nível do desespero total. Harry aparecia poucas vezes, e, quando aparecia, era porque um pingo da sua dignidade ainda gritava mais alto que o resto da perdição. William passava dias e dias no casarão, observando as coisas voltarem a ser — lentamente — o que eram, passando e-mails para Stan e recebendo ordens para que permanecesse quieto e se passando por Louis, mas já ciente de que algo estava errado com o seu Louis. Porque, sim, ele estava preocupado com Harry e seu sumiço. Era tão deprimente e humilhante, mas era a inevitável verdade. Assim, sinais de revitalização voltaram a aparecer. Foi na segunda-feira que completava uma semana desde a morte de James: todos foram chamados no escritório de Harry. Confusos, se olhavam com feições curiosas enquanto o gângster não chegava. Niall era o único que aparentava estar menos perturbado com aquela repentina reunião, uma vez que tomava notas com a cabeça baixa, mordia a ponta da caneta e desviava certo olhar repugnante para Louis. Como num ciclo vicioso. Quando a porta foi aberta de abrupto, todas as cabeças se voltaram para a figura alta e m*l-humorada que andava em passos largos até a cadeira ao centro de sua grande mesa emadeirada, pela primeira vez não vestindo aquele usual jeans azul rasgado nos joelhos, mas sim uma calça preta e um casaco de pele n***o, além de óculos escuros, apesar de estar extremamente nublado lá fora. Sombrio, não havia como saber para onde seus olhos verdes e inexpressíveis miravam, já que a lente do óculos era opaca o suficiente para tal. Depois de se acomodar na cadeira, soltou um suspiro pesado e colocou as mãos juntas sobre a mesa, mordendo o lábio e levando o piercing ali conforme isso, antes de simplesmente dizer:  — Eu tenho um plano. A seguir, foi Niall quem passou a tomar posição de orador. Ele se levantou da cadeira e olhou para o Styles, esperando a confirmação para que começasse a falar. A confirmação veio e ele pigarreou antes de se sentar novamente. — Casey Emmett é filho de Richard Emmett, um velho tão poderoso quanto James. Em Los Angeles, eu tive tempo para procurar mais sobre ele e olhar documentos, James escrevia alguns, e acabei descobrindo coisas interessantes. É claro que eles tinham uma espécie de... Rixa? — Harry confirmou, ansioso para que tudo fosse dito de uma vez. — A máfia dos Emmett é mais atuante na América Latina, e, depois que começamos a nos envolver por lá, deve ter sido como uma invasão de espaço para eles, o que já era uma briga antiga entre Richard e James, cessada até que voltássemos lá. Bom, antes que me perguntem, James não me avisou sobre isso. — Niall limpou a lente do seu óculos de grau, recuperando o fôlego para voltar a falar. — Eu suponho que eles estejam nos desafiando, mas não que estejam necessitados de produtos a ponto de nos roubarem, entendem? Caso contrário, teriam roubado o sistema também. Estão testando a gente, esperando que Harry reaja e que haja guerra, como nos velhos tempos. — E haverá. — Styles complementou. Os demais escutavam tudo com atenção, ansiando por descobrir aonde eles queriam chegar. Louis definitivamente fazia parte dos demais; ele estava tão animado com a história que sua vontade era de gritar para que Niall continuasse, ao mesmo tempo remoendo-se por não ter levado um gravador. — Foi difícil, mas eu consegui rastreá-lo. Com a ajuda de Harry, é claro. Nós trabalhamos a semana inteira nisso, até que chegássemos a uma ilha próxima do Havaí, privada. Com um bom plano, nós conseguiremos entrar lá. — Ilha privada? No Havaí? — Zayn zombou, alternando o olhar debochado entre Harry e Niall, que já esperavam tal reação vinda do moreno. O Malik sempre contestava, pois nunca enxergava as coisas por um único plano. — Isso é loucura e, confiem em mim, muito arriscado. Entrar nos Estados Unidos por si só já é sempre um tiro no olho. Sem falar que nós já perdemos muita coisa, pelo amor de Deus! Liam quase morreu e vocês ainda querem mais! — Não seja covarde. Se essa história não acabar em morte para eles, acabará em morte para nós. — Declarou a voz rouca e preguiçosa de Harry. O gângster m*l virava o rosto para dirigir a palavra ao outro. Parecia um robô, como se não quisesse olhar para ninguém. — Prossiga, Niall. Por favor. — O fato é que não podemos mais ficar aqui. É perigoso e, como Harry mesmo o disse, eles virão atrás de nós e aí sim estaremos nos arriscando. O plano, portanto, é que não esvaziemos a casa, para parecer que nunca a deixamos. Basta pegar as coisas necessárias e que comprometeriam a gangue, como suas armas, Zayn. — O loiro abriu o pequeno caderno em que antes fazia notas e abriu-o exatamente na página que lhe convinha. — James tinha uma mansão com acesso particular a duas praias do sul de uma Ilha havaiana chamada Maui, muito próxima da capital, onde os Emmett estão. Agora que James morreu, a mansão é de Harry, ou melhor, é nossa. É para lá que nós vamos, com exceção do Louis... — Eu mudei de ideia quanto a isso. — Harry interrompeu, tirando os óculos e revelando um brilho monstruoso por trás de sua íris ainda mais esverdeada que o normal. Ele olhava para Louis como uma criança olhava para seu brinquedinho favorito, tamborilando a ponta dos dedos pela mesa enquanto seu anterior ar de indiferença se dissipava em puro divertimento. — Quero o Tomlinson indo no lugar do Liam. Ele ainda está ferido e será um ótimo intermediador de informações entre nós e os fornecedores daqui.  Niall engoliu em seco, deixando a caneta em suas mãos fazer eco pelo choque repentino dela contra o chão. Ele claramente não havia gostado nem um pouco da ideia. — Louis precisa ser treinado, Harry. Está há pouco tempo aqui. — Zayn me disse que ele é muito bom no tiro. Não é, Louis? O policial estava estático na cadeira em frente ao gângster. Seria uma oportunidade e tanto, e ele conseguiria tanto conteúdo para a missão... Mas Harry certamente estava tramando algo a mais. William era inteligente o suficiente para enxergar segundas intenções ante as entrelinhas de uma vingança, mas não pensou duas vezes antes de assentir e recompor-se numa pose de total confiança. Harry sorriu satisfeito e voltou o olhar para Niall. — Eu posso pagar uma estadia a você e Zayn em alguma pousada da capital, não muito longe da mansão. Quanto ao Liam, ele ficará num hotel em Londres, se recuperando. Zayn rapidamente assentiu, largando-se na cadeira e dando o assunto como resolvido. Para ele, que não fazia questão de entrar naquele plano i*****l, ficar numa mansão com Harry ou sem Harry não faria diferença. Liam, ainda sentindo dores, não poderia estar mais satisfeito com a ideia: ele concordou e fez questão de apertar a mão do Styles num gesto de combinado feito. — Brilhante plano, ladies. Mas onde eu vou ficar? — O Tomlinson se pronunciou, dividindo sua dúvida com Niall, que estava tão curioso quanto ele, remexendo-se na cadeira e mostrando-se contrariado à mudança de planos tão repentina do Styles. Enquanto isso, Harry soltava uma risada debochada e, ao mesmo tempo, um tanto maliciosa, como se a resposta já lhe fosse óbvia o suficiente. Ele mordeu o lábio inferior e piscou para o Tomlinson com seu sorriso mais sugestivo: — Você fica comigo, Louis.
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