CAPÍTULO 14

5313 Palavras
A cerimônia de cremação de James Conway aconteceu logo no final da tarde daquele mesmo dia — aquele em que seu corpo fora achado em sua mansão luxuosa pelos seus quatro garotos. É claro que ter o cadáver reduzido a pó não fora uma decisão tomada por pouca condição econômica ou algo do tipo. Até porque, James certamente teria dinheiro suficiente para um sepultamento memorável, em um dos vários cemitérios assustadoramente elegantes de Los Angeles. Contudo, logo quando Harry e os outros foram atrás de documentações a respeito disso, descobriram um registro em cartório sobre sua vontade em ser transformado em cinzas. O velho pensava em tudo, e, para completar, ainda havia deixado uma carta dizendo-lhes que o fogo teria uma função purificadora sobre si: eliminaria seus pecados e libertaria sua alma. — Ele vai queimar no inferno, de qualquer forma. — Zayn concluiu, mesmo depois de ter lido a carta cerca de três vezes e chorado durante todas elas. E então, o caixão em mármore, fechado, estava diante de Harry, Zayn, Liam e Niall. Estavam apenas os quatro plantados no salão em que o corpo se encontrava, todos eles com o olhar vazio para bem além de todo aquele ambiente morto — literalmente. James não possuía filhos, apesar de ter se casado diversas vezes. Em todas as vezes, nenhuma das mulheres fora capaz de amá-lo, fato que deixava seu velório praticamente vazio. Enquanto Liam e Niall ainda deixavam lágrimas grossas escaparem de seus olhos já vermelhos, Zayn com o olhar vazio e Harry de braços cruzados, ainda absorvendo tudo o que havia acontecido em tão pouco tempo, um elevador se abria no chão e descia com o corpo até o andar de baixo, onde ficavam as geladeiras que acolheriam o cadáver durante vinte e quatro horas, até que o corpo fosse cremado de fato, e as cinzas fossem entregues aos gangsteres, que as jogariam no Rio Los Angeles. As vinte e quatro horas de refrigeração do corpo foram o tempo necessário para que Harry dividisse todos os bens de James entre os principais nomes da gangue. Captando informações importantes sobre os distribuidores dos quais ele cuidava, tentou realizar a movimentação de dinheiro da maneira mais sigilosa possível. Desse modo, toda a herança de Conway havia sido passada de maneira estratégica, mas em maior parcela para Harry, que era o herdeiro legítimo. Mesmo que Zayn, Liam e Niall recebessem menos, isso significava também menos problemas para eles. Ao final de tudo, o dinheiro de Harry era o dinheiro de toda a gangue. Perto das cinzas serem entregues aos garotos, Harry se trancou num dos quartos da mansão do recém-falecido. Ponderou por um tempo, e sentiu a necessidade de não ter que passar por mais episódios daquela novela infernal. Afinal, odiava despedidas de tal modo que elas pareciam traumas. Talvez realmente fizessem parte de algum trauma maior. Assim, o gângster providenciou um voo particular de volta a Sheffield. Chegaria ao final do dia, avisou aos outros com a voz num fio, o olhar perdido. Quieto a todo momento, não era difícil de perceber que era Harry quem estava sofrendo mais com tudo aquilo. — Nós não deveríamos deixá-lo ir. — Liam resmungava para os outros conforme via o amigo sair da mansão com uma pilha de caixotes cheios de documentos, já a caminho do seu avião particular. — Está estampado no rosto dele que irá se entupir de bebida. E podem ter certeza: no dia seguinte, vai acabar de ressaca e com duas putas de cada lado da cama. Zayn e Niall apenas deram de ombros; ao contrário de Liam, despreocupados com o que Harry deixava ou não deixava de fazer para esquecer-se da dor. Ele já era bem grandinho. *** 1ª Pessoa P.O.V. (Louis Tomlinson) Desliguei a televisão quando o último episódio da minha maratona de Supernatural havia chegado ao fim. O café em minhas mãos já estava frio pelo tempo em que passei vidrado na série, enrolado nas cobertas apesar do clima estar suave e um tanto agradável. As pálpebras pesando lutavam para que eu me rendesse ao sono, mas eu ainda precisava criar coragem para me levantar. Guardar a caneca e finalmente dormir. Passei o dia todo trancado no meu quarto de hotel, e, sinceramente, fazia tempo desde a última vez em que eu tivera essa proeza, em não fazer absolutamente nada. Liam havia me ligado no dia anterior, pouco depois do meu episódio nervoso no banheiro, e, com a voz num tom totalmente desconfiante e frio, me avisou que eu não precisaria aparecer no casarão pelo resto do dia, até que Harry me ordenasse o contrário. Por um lado, sim, era ótimo não aparecer no casarão. Eu não estava nem um pouco a fim de ver Harry Styles, muito menos de ser tocado por aquelas mãos. Por outro lado, era péssimo para a minha missão não vê-lo novamente. A razão pela qual eles haviam sumido tão repentinamente era instigante aos meus ouvidos — e ao FBI. Portanto, no final das contas, acabei fazendo tudo o que tinha de fazer antes de chegar a minha tão desejada cama. Prestes a me envolver com o edredom macio, completamente nu e sentindo o contato direto do colchão com a minha pele, enviei uma mensagem singela de "boa noite" para minha mãe. Foi quando o interfone tocou. Enfiei o rosto no travesseiro, bufando. Seria possível? Estavam mesmo me interrompendo àquela hora da noite? Olhei o relógio de pulso, marcando pouco mais de onze horas, e corri para atender o maldito interfone. — Pois não? — Desculpe o incômodo, Sr. Tomlinson. Mas é que me parece realmente necessário. Tem um homem aqui, acredito que esteja bêbado e... — Mark, o porteiro, falava com alguém de voz alterada e que não me era estranha. — Eu tentei conversar, pedi para ele fazer o check-in caso quisesse se instalar aqui, mas tudo o que ele diz é que quer ver o senhor. Eu perguntei-o até pelo nome, mas ele não diz nada além de que quer ver o senhor e... — Espera. — Massageei as têmporas, já cansado e desacreditando no que estava havendo ali. — Como é, exatamente, esse homem? — É alto, jovem, o cabelo na altura dos ombros, com uma bandana. Hum... Está usando uma camisa branca e um jeans azul. Jeans azul. Claro. Quem mais poderia ser? A minha vontade era de jogar pesos de academia janela afora (a probabilidade de um deles cair sobre a cabeça de Harry era considerável). Pelo contrário, apenas suspirei pesadamente, voltando a entrar na linha com o pobre Mark, tão embaraçoso quanto eu com toda aquela situação. — Eu não conheço esse i*****l. — Tem certeza, Sr. Tomlinson? Ele está tão convicto de que conhece o senhor, eu... não sei. Se vocês realmente se conhecem, eu peço que venha buscá-lo, porque o moço está causando desordem no saguão. Está tarde e ele pode acordar os hospedados. Cruzei os braços, sem saber o que fazer. Eu não podia simplesmente trazê-lo para dentro do meu quarto de hotel, e, aliás, estávamos falando de Harry Styles, um pervertido e bêbado. Não era óbvio que ele seria um perigo para a minha sanidade? Ao final de tudo, a curiosidade me venceu. Revirei os olhos para o que eu estava prestes a fazer e vesti na pressa um hobby masculino que o próprio hotel já oferecia, apertando-me bem para que nenhuma parte do corpo escapasse. Com agilidade, escondi qualquer rastro de William Pistone no cofre. — Já estou indo. Em poucos minutos eu já estava saindo do elevador e indo em direção ao saguão, onde se podia ouvir com clareza o dono da maldita voz rouca resmungando frases emboladas, as quais oscilavam entre murmurinhos e outro tom muito mais alto, que fazia a minha cabeça doer. Ele estava debruçado contra o balcão enquanto Mark tentava manter distância, e, quando me viu, gritou um "Loueeh" tão alto que eu quase fui capaz de expulsá-lo dali de uma vez por todas. Harry saiu correndo em minha direção. Se não fosse por mim, teria dado de cara com o chão.  Olhando para Mark, murmurei um discreto pedido de desculpas e ele assentiu, me oferecendo ajuda para levar o bêbado até o quarto de hotel. Eu apenas neguei, voltando a atenção ao corpo enorme enganchado em meu pescoço, para assim conseguir observá-lo melhor: seus cachos estavam emaranhados, a bandana desajeitada sobre os mesmos, exalando um hálito que gritava álcool!, além de suas pupilas estarem assustadoramente dilatadas. No meio de toda aquela confusão de tatuagens, eu até mesmo consegui enxergar um chupão roxo e enorme, visivelmente recente no pescoço de Harry. Senti meu estômago embrulhar.  — Por que diabos você veio até aqui? Como conseguiu vir até aqui? — Perguntei. E foi em vão. Harry só sabia repetir meu nome e vez ou outra dar risada. Então, simplesmente resolvi ignorá-lo enquanto fazia um dos maiores esforços da minha vida em carregar todo aquele peso até o elevador. Segurando-o pelo quadril e andando em passos curtos, finalmente consegui sentá-lo no chão, apertando o botão do sétimo andar antes que ele partisse para cima de mim. Mas Harry não o fez. Largado feito uma criança birrenta, ele parou de repetir meu nome de forma i****a e passou a me olhar de cima a baixo, parte por parte, finalmente sexy, e não mais um completo nojento. Foi tentador vê-lo morder os lábios enquanto me olhava com um sorriso singelo, mas desejoso. Em resposta, meu baixo ventre se repuxou numa sensação que eu odiava, principalmente quando vinda por causa dele, então eu apenas fechei meus olhos com força e esperei que a porta se abrisse logo em meu andar. O cheiro de sexo e bebida que vinha do Styles estava começando a me irritar. Finalmente, 7º Andar. As portas se abriram e foi difícil tirá-lo dali. Quando consegui fazer com que seus braços voltassem a envolver meu pescoço, fazendo-o se levantar, Harry voou com as mãos em direção ao meu traseiro coberto apenas pelo tecido frágil do hobby. Eu nem mesmo sei de onde ele tirou tanta força para apertar a região de maneira que me fizesse arfar de dor. Mas Harry o fez com maestria, fazendo-me tirar os pés do chão e enlaçar as pernas em seu quadril para que não perdesse o equilíbrio. O ato foi tão impulsivo que de um segundo a outro eu já estava com uma ereção entre as pernas. Seus braços me envolviam com tanta vontade e profissionalismo que eu ficava confuso entre gemer de prazer ou de dor. — Droga! H-Harry, a porta... Eu prec-ciso abrir a porta!  Seus lábios fartos partiram em direção ao meu pescoço. Tentei me esquivar, sabendo que aquele era meu ponto fraco e que dali em diante eu não poderia mais resistir, o que obviamente não deu certo. Tudo que eu conseguia fazer se resumia a arfar com o contato da sua carne quente e úmida contra minha pele morna e arrepiada pela combustão do t***o que ele causava em mim. Harry se confirmava como um legítimo mestre s****l enquanto chupava e soltava a mesma região com a facilidade de quem o faz há séculos.  — A porta... — Ciente do barulho que estávamos causando no andar, eu o interrompi, puxando seus cachos para trás e assim fazendo com que sua boca se afastasse de mim. — Qual o número? — Setenta e... — Ele abriu um pouco do meu hobby, vagando as mãos entre o abdome e minhas coxas nuas, até que chegasse a uma das bandas da minha b***a, apertando-a insistentemente e num ritmo que fazia meus lábios se repuxarem para que não escapassem e deixassem minha boca emitir um gemido. Seus anéis gélidos faziam um atrito tão bom contra minha pele, que era como se eu estivesse nas nuvens. — ... Setenta e um? — Ué, eu te fiz esquecer o número? — Ele deu risada. Logo em seguida, cambaleamos um pouco até chegarmos à porta de número setenta e um. Ele automaticamente me prensou contra a madeira e moveu uma de suas mãos até minha coxa esquerda, se aproximando do meu rosto numa lentidão que me dava tempo suficiente para voltar a manter controle sobre a situação. Assim, quando seus dentes capturaram meu lábio inferior e puxaram-no lento, eu já havia conseguido tirar uma de minhas mãos do seu cabelo, disfarçadamente. Puxei a maçaneta e a porta abriu-se abruptamente. Sua boca se distanciou da minha no mesmo momento, e ambos tombamos para trás, só não caindo por eu ter me apoiado no batente, segurando ele comigo. Eu podia notar sua cara de descontentamento com a interferência do que estávamos fazendo. Para variar, lancei-lhe um sorrido vencedor, saindo do seu aperto e finalmente tocando meus pés no chão. Sem querer, quase que de repente, ficamos nos encarando. Poderia ter simplesmente fechado a porta e carregado ele até o banheiro, ao menos isso, até que ele desmaiasse de tão bêbado e, no dia seguinte, me contasse que diabos aconteceu. Contudo, seus olhos verdes eram simplesmente intensos, e minha presente excitação não me permitia pular para as partes mais básicas do que eu deveria fazer. Dizem que às vezes seu corpo é movido a impulsos de um desejo reprimido, ardente. Talvez, pensei, fosse esse o impulso gerado pela atração inexplicável que eu sentia pelo inimigo, porque, num piscar de olhos, eu estava o beijando. Um ato que eu mesmo iniciei, por livre e espontânea vontade, mas que logo terminei ao notar que Harry estava assustado. Pela primeira vez, eu havia tomado a inciativa de beijá-lo com urgência — e, preciso dizer, com uma boa dose de raiva, brutalidade. — Por que parou? — Porque, por um momento, eu estava facilitando as coisas pra você. Não é justo, certo? Você quer emoção, certo? Agora vem comigo. Harry não saiu do lugar quando eu o puxei, e, pelo meio-sorriso estampado em seus lábios levemente machucados, ele estava se divertindo com minha bipolaridade s****l.  —  Você é bom nisso, hum? Fica uma delícia assim, Loueh, finalmente participando do meu jogo. Só falta começar a misturar o francês no meio das falas, e, ok, eu posso ter um orgasmo múltiplo. — Não... Não diz isso. — Puxei com as duas mãos trêmulas o cabelo para trás. Outro repuxão nas minhas partes baixas.  Mesmo com Harry insistente em apertar minha b***a ou enfiar as mãos por debaixo do meu hobby, eu consegui levá-lo para o banheiro, mordendo os lábios como se dessa forma eu pudesse resistir à tentação de empurrá-lo na cama e cavalgá-lo pelo resto da noite. Com uma mão apertando o hobby contra mim, eu empurrei seu corpo até que o mesmo estivesse sentado e largado na banheira. Conforme isso, minhas mãos se apoiavam contra seu peito suado, na camisa branca e quase transparente por conta do suor, revelando as silhuetas de cada tatuagem feita ali. Olhando para ele, eu conseguia perceber a perspicácia do seu autoconsciente ainda bêbado em atentar-se no quão eu estava intrigado apenas por ter minhas mãos no seu corpo. Meus olhos se fecharam com força. Respirei fundo. Numa tentativa em afastar minhas mãos dali, as suas me prenderam pelo pulso, impedindo-me. — O que voc... — Harry riu malicioso, e foi assim que eu entendi o que ele queria. — Não! Não vou tirar sua roupa, esqueça. Esse jogo você perdeu, H. Suas mãos continuaram prendendo as minhas num aperto firme, passando a movê-las lentamente, até que as mesmas estivessem pouco abaixo da sua pélvis, onde estava a parte inferior da camisa. Sem pensar, eu apertei meus dedos contra o local, olhando feio para Harry antes de começar a puxar o tecido fino para cima, derrotado. — Nunca é tarde para o jogo virar, hum? — Ele disse. Nervoso, meu olhar foi desviado para a parede de ladrilhos a minha frente, e, confie em mim, eu queria poder dizer que era por eu estar com nojo de estar me humilhando a ponto de tirar sua roupa, mas não passava de uma tentativa falha em não ficar ainda mais e******o. Entretanto, minha tentativa em vão não durou por muito tempo. Logo os dedos de Harry chegaram até meu maxilar, puxando-o até que o contato visual fosse quase obrigatório, exatamente na direção do seu abdome marcado, tatuado e lindo. Meus olhos, sem querer, se perderam ali, em cada tatuagem. Navios, rosas, sereias, onomatopeias... Constelações muito bem detalhadas.  Eu queria desvendá-lo. Por isso, tracei com a ponta dos dedos aquela que mais se destacava: a borboleta que ficava abaixo do peito, com asas pendendo sobre o abdome. Lentamente, senti o aperto no meu punho se diluir tão somente em dedos que traçavam figuras imaginárias nas costas da minha mão, a mesma que o tocava. Mordi os lábios e olhei para ele. Estava tão arrepiado quanto eu. — Você me deixa... Louco.  Seus olhos não estavam mais tão dilatados, afinal. Enquanto o olhava, eu conseguia visualizar pequenos filetes de verde se espalhando pela sua íris, com meu reflexo paralisado ali como se Harry estivesse se dando o tempo de enxergar muito mais que apenas o meu corpo, e sim a minha alma. Foi naquele momento que eu percebi o quão louco nós dois estávamos, porque, de repente, nossos papéis tinham se invertido; Harry parecia sóbrio demais, e eu, completamente bêbado. Bêbado de algo que palpitava dentro do meu peito, numa sensação agonizante, que eu não compreendia.  Eu não tinha controle algum sobre mim. Precisava expulsar aquela sensação urgentemente. — Não, eu não te deixo louco. O que te deixa louco é o álcool, e é por isso que você está me dizendo isso. — Na verdade... — Bom, eu não quero saber! Só toma um banho e... Me avisa quando terminar. — Lhe entreguei o chuveirinho já acionado na água gelada, saindo e fechando a porta com força, antes que visse coisa de mais. Vesti uma calça de moletom, a maior que eu tinha, numa poltrona ao lado da cama. Em seguida, sentei-me no colchão, sempre com os olhos atentos na porta fechada do banheiro. Eu sabia que não poderia simplesmente expulsá-lo dali. Por mais perigoso que fosse para mim, eu ainda queria saber como ele havia parado ali, a razão do seu sumiço e dos outros, tão de repente. Estava tarde, de qualquer forma. Eu o faria dormir no chão se fosse preciso, mas, quando Harry acordasse no dia seguinte, ele teria que me explicar tudo de um jeito ou de outro. O tempo, contudo, passava rápido. Ainda era possível ouvir o barulho da água caindo, e, olhando no relógio, já passava de uma da manhã. Meus olhos estavam pesados, e a posição em que eu me encontrava na cama também dificultava minha tentativa em permanecer acordado até que Harry me chamasse do banheiro, conforme o combinado. Foi então que o chiado da água cessou, mas nada da sua voz rouca e lenta chamando pelo meu nome. — Harry? Andei até a porta, bufando quando Harry não me respondeu, mais uma vez. Então, bati na porta cerca de três vezes, não ousando em abri-la, afinal ele estaria nu. Talvez fosse esse mesmo o seu plano. — Eu não vou cair nessa, Styles. Seja mais criativo, por favor? Houve um barulho de algo caindo no chão, e então, um gemido. Dei risada. É claro que ele estava querendo brincar comigo. — Tá bom, então. Fique aí o tempo que precisar. Eu vou dormir. — Você não pode dormir. — E por que não? O silêncio se fez presente e, com a cabeça apoiada na porta, de alguma forma eu senti que ele também estava apoiado ali, ainda que do outro lado. Quando a voz rouca soou novamente, dessa vez muito mais próxima dos meus ouvidos, eu apenas confirmei minhas suspeitas. — Porque eu claramente preciso de ajuda. Eu to bêbadoooo! — Tá brincando? Eu deixei uma calça em cima da poltrona. Você só precisa se vestir e depois achar um lugar pra dormir. — Lugar pra dormir? — Oui. Por quê? Você achava que ia dormir na minha cama? — Sorri. E tinha quase certeza que Harry sorria também. — Hum. — Ele soltou uma risada abafada. Completamente bêbado. — Não exatamente dormir. Podemos fazer outras coisas na sua cama.  — Acho mais plausível eu dormir. Sinto muito, H. Não houve uma resposta, nem mesmo uma ação pelo ponto final que eu havia colocado no seu tom pervertido e bêbado de dizer aleatoriedades. Eu nutria a esperança de que ele abriria a porta e me repetiria todas aquelas palavras frente a frente. Todavia, a porta demorou a ser aberta.  Eu desisti de esperá-lo e deitei-me na cama, não podendo mais resistir ao peso do sono que me possuiu logo em seguida. *** 1ª Pessoa P.O.V. (Harry Styles) Acordei com a familiar sensação da minha cabeça sendo apertada por um daqueles círculos de ferro usados em torturas medievais. Pressionando minhas têmporas, nem mesmo me atrevi a abrir os olhos, já que, quando tentei essa proeza, uma luz natural vinda de algum lugar desconhecido feriu meus olhos como se o fogo do inferno tivesse conseguido chegar até além das minhas pálpebras.  No fundo do meu subconsciente perturbado, algo me dizia que eu estava ferrado. E então, quando tateei ao redor do colchão em busca de um cobertor para me cobrir, eu tive ainda mais certeza. Havia um corpo ao meu lado, e eu estava agarrado a esse corpo. Ele era quente e musculoso. Mesmo que eu ainda não tivesse os olhos abertos, percebi que era um homem. O cheiro era uma mistura deliciosa entre o doce e o cítrico, inebriante e... Bem... Não me era nada estranho. Senti seus pés se moverem sobre minhas pernas, na altura das panturrilhas, mais ou menos, o que significava que ele não era muito grande em relação a mim. Era quase como o... — ... Louis? Abri os olhos instantaneamente, ignorando a luz que os feria enquanto meu peito se enchia de satisfação por vê-lo ali, sonolento e enganchado ao meu corpo, entregue de uma maneira que nunca esteve antes. Seus cílios grandes batiam contra as maçãs coradas do seu rosto sereno, e o lençol o cobria com delicadeza até o final da sua espinha, na curvatura do traseiro, enquanto os cabelos bagunçavam-se conforme ele remexia a cabeça sobre o travesseiro. Deus do céu... Era a aparência perfeita de quem havia acabado de f***r. Será que nós... ? — Por que diabos você veio parar aqui!? Allez, sortez d'ici. (*Vamos, saia já daqui). Pulei da cama imediatamente. O tom da sua voz completamente alta retumbou dentro do meu cérebro como uma buzina sendo acionada rente ao meu ouvido, de tal modo que puxei os cabelos da nuca com força e olhei para Louis abismado, sentindo a brisa que vinha da janela bater livremente contra cada pedacinho do meu corpo. Maravilha! Eu estava nu. Louis cobriu os olhos com as mãos e estava quase abrindo a boca, prestes a soltar mais um berro, o qual provavelmente faria minha cabeça explodir em vários pedacinhos. Porém, fui mais rápido e me joguei novamente na cama, caindo sobre ele e tampando sua boca habilmente. Assustado, Louis se dedicou a lamber minha palma e morder meus dedos da forma mais dolorosa possível, com os olhos arregalados para algo abaixo dos nossos rostos. Seguindo seu olhar, ficou clara a razão pela qual ele estava se contorcendo tanto por baixo de mim, lutando contra meu aperto. Dei risada, ruborizando e virando-me novamente para seu rosto de feição assustada e sonolenta. O que ele via era nada mais, nada menos que meu sexo um tanto animado com aquela recepção matinal inesperada. De certa forma, não era minha culpa se estávamos na mesma cama. — Que merda, Harry. Eu te disse pra achar outro lugar pra dormir. — Louis me empurrou para o lado, jogando o lençol na direção do meu pênis.  — Disse? — Se eu estou dizendo agora. — Ele revirou os olhos, levantando-se num pulo e jogando sua franja para trás conforme isso, tão fodidamente sensual, e ainda com aquele toque sonolento e preguiçoso de se espreguiçar logo depois, como um felino — o que ele praticamente já era. Observando melhor, Louis estava com roupas — pelo menos com uma calça moletom azul que combinava perfeitamente com seus olhos resplandecentes pela luz do dia. A pele lisa e quase dourada do seu abdome estava longe de ter marcas. Só havia uma roxa e profunda em seu pescoço, o que me levava à conclusão de que não havíamos transado.  Agradeci mentalmente por isso. Aquele momento precisava ser lembrado por mim.  — Sete da manhã, Harry! Você compreende o quão bravo eu estou? — Louis me apontou o visor do celular, marcando as sete horas exatas. Seus olhos azuis se fixaram numa calça moletom em cima da poltrona, ao lado da cama, e então ele me olhou ainda mais feio, jogando a calça no meu colo. — Eu pedi pra você vestir a calça antes de dormir, também. Puxei meu cabelo para trás, frustrado. Além de não me lembrar de praticamente nada, já eram sete horas: eu deveria estar a caminho do casarão, cuidando do lugar onde eu guardaria o dinheiro de James, além de vistoriar a cozinha química e ligar para os meninos, ciente de onde eles estavam àquela hora do dia. Era muita coisa e, dessa vez, estava tudo em minhas mãos. Mais uma vez, eu havia agido como um adolescente inconsequente. Louis mantinha o olhar preso em mim, mas o ignorei totalmente ao que me levantei pelado mesmo, pegando a camisa branca e a calça jeans azul que reconheci serem minhas, do chão. Me vesti com pressa e dei uma checada a minha volta. Era um sofisticado quarto de hotel, não aquele onde Louis morava durante o natal. — Eu não sei como cheguei até aqui, Louis, e pode ter certeza que isso me deixa tão puto quanto você parece estar agora. De qualquer forma, eu preciso ir. — Virei-me para ele. — Aliás, você deveria ir comigo. Ele arqueou as sobrancelhas e bufou. Pegou duas garrafas de água de dentro de um frigobar e jogou uma delas em minha direção. Eu peguei-a com uma das mãos e dei um gole generoso, esperando que ele dissesse algo. Mas ele apenas continuava circulando pelo quarto vestindo apenas aquela maldita calça moletom, completamente justa na b***a. Em determinado momento, parou em frente a um cabide e escolhendo uma regata e calça skinny pretas. Eu me sentia duro só de vê-lo andar daquela forma. — Será que existe alguma possibilidade de você me contar sobre o que te fez vir até aqui ontem à noite? Por exemplo, como você descobriu onde eu estou, já que me mudei? Depois nós podemos ir, sim. Franzi o cenho, já ciente de que o assunto da morte de James não era da sua conta. — Você ainda não percebeu que eu não me lembro de nada? — Mentira. — Disse, sustentando um meio-sorriso manipulador. Encarei-o, observando a posição em que ele estava, apoiado sobre o peso de apenas uma perna, com os braços cruzados. Louis Tomlinson era um baixinho de muita presença, com a feição de quem realmente conseguia o que queria, na hora que queria. Era algo que tínhamos em comum, e temo que isso tenha me atraído para ele, pois às vezes nos sentíamos na mesma posição. Não havia hierarquia alguma entre nós.  Apesar disso, Louis era inofensivo. Quando eu olhava em seus olhos, tudo o que eu via era uma curiosidade excessiva, tão somente por causa da personalidade dele, muito parecida com a minha. Mas apenas isso. Suspirei pesadamente e caminhei até ele, pegando em ambas as suas mãos da maneira mais delicada, o que soou desajeitado, pois eu nunca agia assim.  — Uma hora ou outra você descobriria, Louis... — O quê? — Ele incentivou. — Eu te contei uma vez sobre um tal de James Conway. — Louis assentiu. — Eu disse que ele estava com câncer, e, convenhamos, James não duraria muito tempo. Então, eis que no seu primeiro dia no escritório, logo depois do almoço, eu soube da notícia sobre a morte do velho, que não aconteceu por causa de câncer nenhum. James foi simplesmente assassinado por outra gangue, a sangue frio. Entenda como... Uma guerra entre impérios. Eles nos roubaram muito dinheiro. Parei por alguns segundos, sentindo que a mão sob a minha tremia e se apertava cada vez mais. Seus olhos estavam inexpressíveis, ainda assim atentos, como se tentassem capturar algo a mais em meu olhar, ansiando por descobrir aonde eu queria chegar. — Eu não sei te explicar exatamente... Estava me sentindo cansado e... pressionado. Nós partimos para Los Angeles no mesmo dia, para eu resolver algumas coisas por lá. De repente, eu estava prestes a explodir. Parte de mim me alertava que algo estava me tirando o fôlego perto dos meninos, de toda a história com James. Só me lembro de ter voltado pra casa, ligado para o Niall...? — Tentei me esforçar um pouco mais. — Acho que perguntei seu endereço. Provavelmente havia passado no antigo hotel, e você não estava lá. — Mas por que você me procurou? Quer dizer... O que eu tinha com isso? Boa pergunta, Louis. Eu não sabia: era o que eu deveria ter respondido. Larguei suas mãos bruscamente, fechando os olhos com força e enfrentando aquele inferno que era tentar entender o que se passava por dentro de mim. Virado de costas, sem o peso do seu olhar, eu conseguia entender que aquilo tudo era medo. Medo de me sentir sozinho, coisa que me assombrava havia muito tempo. — Eu só precisava de alguém pra conversar. — Conversar não era bem o que você queria comigo. — Droga, Louis! Eu estava bêbado, você queria o quê? — Por alguns segundos, me desesperei. Louis se afastou automaticamente, me olhando como se houvesse acabado de descobrir minha parte mais perigosa aflorando entre nós. — Sinto muito pelo James, Harry. E virou as costas, entrando no banheiro e batendo a porta atrás de si logo em seguida. Era compreensível, afinal. Ninguém deveria ter que lidar com minha cabeça fodida, cheia de traumas e questões ainda em aberto. Aquela dor era só minha.  De qualquer forma, falar sobre mim e sobre meus sentimentos a alguém jamais resultaria em algo bom. Louis e eu nos dávamos bem apenas fisicamente. *** Depois que terminamos de nos aprontar, saímos em direção ao saguão do hotel, onde acabei oferecendo uma boa quantia em dinheiro ao homem por detrás do balcão, o qual Louis cumprimentou como Mark. Pela forma como ele me olhava, eu realmente havia causado baderna no dia anterior, e, pelo fato de eu ter passado uma noite em quarto alheio, pagar o hotel era o mínimo a ser feito, ainda que eu não estivesse acostumado a dever dinheiro. Estava cansado o bastante para arranjar mais problemas. Louis e eu trocamos poucas palavras durante todo esse percurso. Eu estava afetado demais, e talvez por isso ele parecia querer dar o devido espaço a mim. Diante disso, ainda tivemos que entrar juntos em seu carro apertado, já que meu Malibu Chevy havia sumido, ou melhor, eu não fazia ideia de onde ele pudesse estar. Louis foi quem dirigiu, sempre mantendo as pequenas mãos no volante, cantarolando baixinho e mordendo os lábios impacientemente quando o farol demorava tempo demais para abrir. Em frente ao casarão, me subiu a sensação de que algo ali estava errado.  Louis tirou o cinto de segurança e acionou o botão para que as portas do carro se abrissem, esperando que eu fizesse alguma coisa. Porém, tudo que eu senti foi meu sangue subir para os olhos, minhas mãos se fechando fortemente, em punho, e meu maxilar travando-se com um sentimento de raiva que se apoderava gradativamente de mim. — O que hou.... — A casa está aberta! Está vendo, Louis? Está aberta!  — Interrompendo-o, eu parecia estar à beira de um colapso nervoso. Abri a porta com tamanha força capaz de arrancá-la para fora. Eu praticamente torcia o cabelo entre minhas mãos, grunhindo e jogando minha bandana para longe. — Está, mas... Os outros caras estão aí, certo? Eles podem ter deixado a porta aberta, Styles! Respira, por favor. Olhei para ele, incrédulo. Dei passos maiores e apressados até que estivesse parado e no meio do gramado da casa, com os olhos vidrados nas várias marcas de sapato enlameadas pela grama. Tirei a arma do bolso e me posicionei para entrar, sendo seguido por Louis, que segurava duas calibres 12. — Eles devem estar a caminho daqui cerca de uma hora. Todos viriam mais tarde, menos o... Por um instante, algo r**m retumbou em minha cabeça, alarmando-me e lembrando-me de Liam. Ele sempre vinha às madrugadas, ajudava a chefiar a casa e tomava conta da cozinha química, também atento às cargas de caminhões que saíam e entravam pelos fundos do casarão. Liam não só deveria estar, como estava de volta. — Está dizendo que a casa foi invadida. — Louis concluiu, dessa vez me fazendo cobertura. — E que todos viriam mais tarde, menos o Liam.
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