— As únicas pessoas que me amavam naquela casa.
Fazia dois anos que eu trabalhava como babá das gêmeas Montana, as filhas do homem mais temido do país.
Do homem cujo nome era suficiente para fazer criminosos tremerem, homens poderosos abaixarem a cabeça e famílias inteiras desaparecerem do mapa.
Dante Montana.
Eu conhecia seu nome, conhecia sua reputação e já tinha ouvido inúmeras histórias a respeito dele.
Mas, em dois anos trabalhando naquela mansão, eu nunca o tinha visto pessoalmente.
Nem uma única vez.
Dante era um homem ausente, sempre envolvido com negócios que ninguém naquela casa tinha coragem de questionar. E, embora fosse o pai das meninas, quem havia me contratado para cuidar exclusivamente delas fora a matriarca da família, dona Lorena Montana.
Liz e Lua tinham apenas quatro aninhos.
Eram lindas, delicadas, com os mesmos olhos claros do pai e os cabelos que pareciam ter sido desenhados à mão. Entretanto, havia algo nelas que me partia o coração.
As duas se recusavam a falar com qualquer pessoa.
Não conversavam com os empregados, não respondiam às perguntas dos médicos e sequer permitiam que os próprios familiares se aproximassem.
Quando alguém tentava tocá-las, elas se encolhiam, tremiam e começavam a chorar desesperadamente.
Ninguém sabia explicar o motivo.
Ou, pelo menos, ninguém tinha me contado.
Quando cheguei àquela casa, Liz e Lua m*l suportavam ficar no mesmo ambiente que outra pessoa. No começo, eu também não conseguia me aproximar delas. Ficava sentada no chão, a uma distância segura, brincando com bonecas e conversando sozinha, sem exigir que me respondessem.
Eu não queria assustá-las.
Queria apenas que soubessem que, comigo, estavam seguras.
E, aos poucos, elas começaram a confiar em mim.
Primeiro, Liz passou a deixar uma boneca perto de onde eu estava sentada.
Depois, Lua começou a puxar a barra da minha roupa para me mostrar os desenhos.
Até que, certa tarde, descobri que as duas haviam criado uma espécie de código próprio para se comunicar.
Eram gestos, olhares e movimentos discretos com as mãos.
Elas tinham criado aquela linguagem para conseguirem conversar sem que ninguém entendesse o que diziam.
Naquele dia, meu coração apertou.
Duas crianças de quatro anos não deveriam precisar criar uma linguagem secreta para se sentirem protegidas.
Então, comecei a ensiná-las a linguagem de sinais.
Aprendíamos uma palavra por dia. Eu mostrava os gestos, elas imitavam e, quando acertavam, eu as enchia de beijos e elogios.
A primeira palavra que Liz aprendeu foi mamãe, mas ela nunca a utilizou.
A primeira palavra que Lua aprendeu foi água.
E a primeira palavra que as duas fizeram questão de aprender foi:
Amor.
Elas apontavam para mim, faziam o sinal e sorriam.
Eu chorava escondida para que não percebessem.
Com o passar dos meses, os sinais começaram a dar lugar a pequenos sussurros.
— Tia... — Liz me chamou pela primeira vez, com a voz tão baixinha que pensei ter imaginado.
Virei o rosto imediatamente.
— Oi, meu amor?
Ela arregalou os olhinhos, assustada com a própria voz.
Lua, sentada ao lado dela, segurou sua mãozinha e fez um sinal que eu havia ensinado: Está tudo bem.
Liz respirou fundo.
— Tia...
Naquele dia, chorei abraçada às duas.
Desde então, elas começaram a falar comigo. Ainda gaguejavam, pronunciavam algumas palavras de maneira errada e, quando ficavam nervosas, voltavam a usar os sinais.
Mas estavam conseguindo.
E eu faria qualquer coisa para que continuassem avançando.
As meninas passaram a dormir agarradas a mim. Não aceitavam que nenhuma das empregadas as colocasse na cama e gritavam quando alguém tentava tirá-las dos meus braços.
Se eu saía do quarto, elas iam atrás.
Se eu sentava no sofá, subiam no meu colo.
Se eu precisava tomar banho, eu as acomodava na cama, colocava seus desenhos favoritos na televisão e explicava que voltaria em poucos minutos.
Mesmo assim, antes de entrar no banheiro, precisava conferir duas vezes se a porta do quarto estava trancada.
Não porque tivesse medo de alguém roubar alguma coisa.
Mas porque havia uma pessoa naquela mansão de quem eu desconfiava cada vez mais.
Olivia.
A mulher que se comportava como se fosse a dona da casa.
A mulher que fazia questão de sentar na cabeceira da mesa de jantar, usava as joias da família Montana e tratava os empregados como se fossem inferiores a ela.
E a mulher que parecia me odiar simplesmente porque duas crianças haviam encontrado segurança nos meus braços.
Desde o primeiro dia, Olivia fez de tudo para transformar minha vida em um inferno.
Primeiro, tentou me convencer a pedir demissão.
Depois, começou a espalhar que eu não tinha qualificação suficiente para cuidar das herdeiras Montana.
Quando percebeu que eu não iria embora, passou a me acusar de manipular as meninas para conquistar espaço dentro da família.
Certa vez, chegou a esconder uma pulseira de diamantes no meu armário e, diante dos empregados, exigiu que minhas coisas fossem revistadas.
Eu ainda me lembrava do sorriso que ela deu quando abriu a gaveta e encontrou a joia.
— Ora, ora... Parece que encontramos uma ladra.
Fiquei olhando para aquela mulher, incrédula.
— Eu nunca toquei nessa pulseira.
— Claro que não. Ela apareceu sozinha dentro do seu armário, não foi?
Antes que eu pudesse responder, Marta, a governanta, entrou no quarto.
— A senhorita está cometendo uma injustiça.
Olivia virou o rosto lentamente.
— Como é que é?
— Eu vi a senhora entrando neste quarto mais cedo. E a pulseira estava em suas mãos.
O silêncio foi imediato.
Maria, a cozinheira, também confirmou que Olivia havia passado pelo corredor carregando alguma coisa.
A acusação morreu ali.
Mas o ódio dela por mim só aumentou.
Marta e Maria eram as únicas pessoas daquela casa, além das meninas, em quem eu confiava de verdade.
Elas me ajudavam como podiam, embora soubessem que enfrentar Olivia poderia custar seus empregos.
E havia outra coisa que me preocupava.
O medo das meninas.
Sempre que Olivia entrava no quarto, Liz ficava pálida.
Lua apertava minhas mãos com tanta força que seus dedinhos ficavam brancos.
Se Olivia tentava se aproximar, as duas começavam a chorar.
— Venham aqui com a titia, minhas princesinhas — ela dizia, abrindo os braços com um sorriso que nunca alcançava seus olhos.
Liz se escondia atrás de mim.
Lua agarrava minha perna.
— Eu só quero dar um beijinho em vocês — Olivia insistia.
Certa vez, ela tentou puxar Liz pelo braço.
A menina soltou um grito tão desesperado que senti meu próprio coração parar.
Peguei Liz no colo imediatamente e me coloquei entre as duas.
— Não toque nela.
Olivia me encarou como se eu tivesse cometido um crime.
— Você enlouqueceu? Está falando comigo desse jeito?
— Estou falando com a senhora porque a Liz está assustada. Ela não quer ser tocada. Respeite isso.
— Você é apenas uma babá!
— E a senhora é uma adulta. Deveria saber respeitar uma criança.
O rosto dela ficou vermelho de raiva.
Por um instante, achei que fosse me bater.
Mas Olivia apenas se aproximou e falou baixinho, para que as meninas não escutassem:
— Você não sabe com quem está mexendo. Vou fazer você sair desta casa nem que seja a última coisa que eu faça.
Sustentei seu olhar.
— Pode tentar.
Ela saiu batendo a porta.
E eu fiquei ali, com Liz e Lua agarradas ao meu pescoço, tentando acalmá-las enquanto sentia uma certeza terrível crescer dentro de mim.
Aquelas meninas não tinham medo de Olivia sem motivo.
E eu descobriria por quê.
Nem que precisasse enfrentar toda aquela família.
### O jantar dos Montana
Naquela noite, desci para o jantar com as meninas.
Liz segurava minha mão direita, enquanto Lua segurava a esquerda. As duas estavam de pijaminhas delicados, porque eu havia prometido que, depois de comerem, poderíamos assistir a um filme antes de dormir.
Quando entramos na sala de jantar, Olivia já estava sentada na cabeceira da mesa.
Como sempre, usava um vestido elegante, brincos de diamantes e uma expressão de superioridade.
Ela ergueu os olhos quando nos viu.
— Finalmente. Pensei que você tivesse esquecido que trabalha nesta casa.
Ignorei o comentário e puxei as cadeirinhas das meninas.
— Vamos sentar, meus amores.
Liz subiu na cadeira, mas não soltou minha mão.
Lua fez o mesmo.
Olivia observou a cena com irritação.
— É impressionante como essas meninas se tornaram dependentes de você.
Continuei ajeitando os pratos.
— Elas estão aprendendo a confiar nas pessoas.
— Ou você está fazendo questão de que só confiem em você.
Virei o rosto.
— Se a senhora tem alguma reclamação sobre meu trabalho, pode conversar com dona Lorena.
O sorriso dela desapareceu.
— Cuidado com a sua língua, garota.
— Estou apenas respondendo à sua pergunta.
Antes que Olivia retrucasse, Marta entrou com a comida, seguida por Maria.
Aproveitei para colocar pequenas porções nos pratos das meninas.
Liz começou a comer sozinha, enquanto Lua me olhava de vez em quando, procurando minha aprovação.
— Muito bem, meu amor. Mais uma colheradinha.
Ela obedeceu.
Olivia soltou uma risada debochada.
— Que cena ridícula. Elas são herdeiras Montana, não bebês de colo.
Liz deixou a colher cair.
Lua parou de mastigar.
As duas olharam para Olivia e, no mesmo instante, começaram a tremer.
Meu sorriso desapareceu.
— Está tudo bem, meninas. Estou aqui.
Liz segurou meu braço e fez um sinal discreto com os dedos.
Não deixa ela.
Meu coração se apertou.
Acariciei seus cabelos e respondi na mesma linguagem.
Eu estou aqui. Ninguém vai machucar vocês.
Olivia acompanhou a troca de gestos, estreitando os olhos.
— O que você acabou de dizer a elas?
— Nada que diga respeito à senhora.
Ela bateu a mão na mesa.
— Nesta casa, eu faço as perguntas!
Lua soltou um soluço.
Foi o suficiente.
Levantei-me, peguei as duas no colo e me afastei da mesa.
— Elas terminaram de jantar.
— Eu não autorizei você a sair!
Parei diante da porta e olhei para ela por cima do ombro.
— Eu não preciso da sua autorização para proteger duas crianças assustadas.
Saí antes que ela respondesse.
Atrás de mim, ouvi Olivia derrubar alguma coisa sobre a mesa.
Não me importei.
Naquele momento, só conseguia pensar nas duas meninas escondendo o rosto no meu pescoço.
Quando chegamos ao quarto, tranquei a porta e me sentei na cama com elas.
— Olhem para mim, meus amores. Respirem devagar. Isso. Muito bem.
Lua encostou a testa na minha.
Liz segurou meu rosto com as duas mãozinhas.
E então, com a voz trêmula, pronunciou uma frase que fez meu sangue gelar.
— Tia... Olivia... r**m.
Fiquei imóvel.
— Por que, meu amor?
Liz olhou para a porta.
Depois, para a irmã.
Lua começou a chorar baixinho.
As duas trocaram alguns sinais rápidos, como faziam quando queriam conversar sem que ninguém entendesse.
Eu conhecia aquela linguagem.
Conhecia cada gesto, cada expressão e cada maneira que elas tinham de demonstrar medo.
Liz voltou a olhar para mim.
Seus lábios tremeram.
— Ela... machuca.
Meu coração pareceu parar.
Abracei as duas imediatamente, tomando cuidado para não assustá-las com minha reação.
— Quem machuca vocês, meu amor?
Liz escondeu o rosto no meu peito.
Lua, chorando, levantou a mãozinha e apontou para a porta.
Depois, fez um sinal que eu havia ensinado para a palavra medo.
Naquele instante, compreendi que havia algo muito errado naquela mansão.
E, pela primeira vez em dois anos, desejei desesperadamente conhecer o homem que era o pai daquelas meninas.
Dante Montana.
Porque, se as suspeitas que começavam a se formar na minha cabeça fossem verdadeiras, ele precisava saber o que estava acontecendo com as próprias filhas.
Mesmo que isso significasse colocar minha vida em risco.
Eu não permitiria que ninguém machucasse Liz e Lua.
Nem mesmo a mulher que se considerava a dona da casa.