dilema

1078 Words
Seis meses se passaram. Enfim chegou a tão esperada — por mim — semana de provas. Eu amava aquele período. Era minha chance de mostrar o quanto eu me dedicava, o quanto eu era capaz. Semana de provas era o meu palco, e eu sempre brilhava nele. — Hoje é dia de Química e Matemática — sussurrei animada, minhas matérias favoritas. A professora começou a organizar os lugares e, como sempre, me colocou na frente. Eu preferia assim. Ninguém poderia tentar colar de mim. Eu detestava esse tipo de coisa. Se eu me esforcei, me virei nos estudos, não era justo que alguém colhesse os frutos do que eu plantei sozinha. Amanda sempre sentava ao meu lado, mas dessa vez, Otávio ficou na carteira próxima à minha, e Amanda atrás dele. A prova começou. Eu mergulhei nas questões com facilidade, como quem desliza sobre águas calmas. Quando levantei os olhos, vi Otávio me observando e sorrindo. Sorri de volta, discreta, e continuei concentrada. — Quem terminar Matemática pode pegar a de Química — avisou a professora. Levantei a mão, segura. — Professora, terminei. Ela arregalou os olhos, surpresa. — Já? Não é possível. — Estava facinho — respondi com um sorriso confiante. Logo depois, Otávio também terminou. — Também acabei, professora. E concordo com a Kelly... facinho, facinho! Pegamos a prova de Química. Ela estava mais densa, cheia de cálculos, mas nada que eu não tirasse de letra. Foi então que meu celular vibrou. Uma mensagem da Amanda, com uma foto da prova e um pedido: “Amiga, me ajuda? Tô perdida nessa de matemática.” Olhei para ela e balancei a cabeça em negação. Eu não ia fazer isso. Otávio, atento, percebeu o gesto e discretamente fez sinal de "não" também. Parecia que ele estava me apoiando. Será que ele viu tudo? Terminei a prova, entreguei à professora e fui liberada. Saí e me sentei sozinha no pátio, curtindo a leveza de missão cumprida. Pouco depois, Otávio apareceu. — Vi quando você olhou o celular e depois disse não com a cabeça pra Amanda. Ela estava pedindo cola, né? — Sim. E ela sabe que eu não faço isso. — Você tá certíssima. Cola é injustiça. Sorrimos e continuamos conversando, até Amanda sair furiosa da sala. — Obrigada pela ajuda, tá, amiga? Eu podia ter gabaritado, mas com certeza tirei três! Otávio não se calou. — Ah, Amanda, para com isso! Você não estudou! Ela cruzou os braços e estreitou os olhos. — Tá acontecendo alguma coisa entre vocês dois? Tão juntos, por acaso? Me levantei, firme. — E se estivermos? Qual é o problema? Você sabe que eu não passo cola pra ninguém. Estudo na escola, trabalho e ainda me viro em casa. Você não estudou porque tava ocupada namorando. Agora não vem descontar em mim! Ela saiu emburrada. Otávio sorriu, satisfeito. — Você arrasou, Kelly! — Desculpa se dei a entender que... talvez a gente estivesse junto. Você deve ter namorada, eu não quis ser atrevida... — Tá de boa. Mas, sinceramente, gostei da ideia de ser seu namorado de mentira. Ia gostar bem mais se fosse de verdade... Sorri, meio sem graça, e mudamos de assunto. A semana de provas passou e, num sábado, um cliente da lanchonete onde eu trabalhava me chamou pra sair. Tanta insistência da Amanda em dizer que eu era careta me fez aceitar. Ele me buscou e fomos ao cinema. Parecia legal, mas havia algo nele que me incomodava. Durante o filme, tentou me beijar. Fiquei sem reação e acabei correspondendo. No caminho de volta, ele parou numa rua deserta, escura... e começou a me agarrar. Tentou tirar minha roupa. Entrei em pânico. Com um impulso de desespero, agarrei minha bolsa e corri o mais rápido que pude. Vi uma mata à frente e me joguei nela, escondendo-me atrás de uma árvore enorme. Meu corpo tremia, meu coração disparava. Ele gritava meu nome, tentando me convencer a sair: — Kelly? Cadê você? Me desculpa! Não queria te assustar! Fiquei ali por mais de uma hora, até ter certeza de que ele tinha ido embora. Saí da mata, tremendo, e liguei para minha mãe. Quando ela me encontrou, tudo o que consegui fazer foi chorar. — Filha, graças a Deus você conseguiu fugir! Não quero nem imaginar o que poderia ter acontecido... Alguns dias depois... — Em que posso ajudar, senhor? — Preciso falar com você. — Estou em expediente. Só quando meu turno acabar. Ele pediu um lanche e ficou aguardando. Para minha sorte, Otávio apareceu. Meu coração se encheu de alívio. — Boa noite, senhorita. Um milkshake de chocolate e uma porção de batatas. Vou aguardar você sair. Sorri e pedi pra prepararem o pedido dele. A lanchonete foi esvaziando. Só restávamos nós três. Otávio foi ao banheiro, e o outro não perdeu tempo. — Kelly, me desculpa por aquele dia. Você é linda demais... não consegui resistir. — Não se aproxime. Se você encostar em mim de novo, eu te denuncio! Ele riu e foi chegando mais perto. — Você sabe que eu não faria nada... Tudo poderia ser tão diferente. — Vai embora! — gritei. — Por favor! Ele segurou meu braço. Eu me debati, gritei: — Me solta! Tentou me agarrar, forçar minha calça... Foi quando Otávio saiu do banheiro e gritou, apontando uma arma: — Solta. A minha mulher. Agora. Ele me soltou e fugiu correndo. Corri para os braços de Otávio, em lágrimas. — Você está bem? — ele perguntou, tenso. — Ele sempre vinha aqui... Amanda dizia que eu tinha que sair com ele. Há uns vinte dias aceitei. Me levou ao cinema, tentou me beijar. Depois parou numa rua escura, começou a me agarrar. Consegui fugir, me escondi na mata... Estava sozinha, apavorada... — Por que não me ligou? — Otávio, somos só colegas. E ele parecia perigoso... — Ele pensa que é, mas não me conhece — disse, encarando o nada com os olhos em chamas. — Essa arma... é sua? Onde conseguiu? — É legalizada. Uso pra segurança. Meu pai é policial. Fiquei aliviada, ainda assustada. — Obrigada, Otávio... de verdade. Não sei o que teria sido de mim sem você. Ele me ajudou a fechar a loja. — Quer lanchar comigo? — perguntou, sorrindo. — Quero, sim. Entramos no carro. Ele me levou a um restaurante, e lá continuamos a conversa... Mas, dessa vez, meu coração já estava mais leve. E, sem perceber, também mais entregue a ele.
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