Já se passaram dois meses desde o dia em que Otávio me salvou daquele monstro que quase destruiu minha vida. Desde então, algo entre nós mudou. A conexão ficou intensa, verdadeira. Ele sempre esteve por perto, me cuidando em silêncio, com um carinho que me desconcertava. Amanda vivia dizendo que eu estava enrolando demais, que Otávio merecia uma chance. Mas eu desviava do assunto — era difícil lidar com sentimentos que eu mesma não sabia nomear.
Estávamos apresentando um trabalho na escola, quando meu celular vibrou. Olhei o visor e gelei: era o seu Pedro, o dono da mercearia onde minha mãe sempre fazia compras.
— Alô, seu Pedro?
— Kelly, querida, sua mãe passou m*l aqui na minha mercearia. Levei ela correndo pro hospital do centro.
Meu mundo parou.
— Ai, meu Deus… minha mãe, não!
Otávio imediatamente percebeu meu desespero.
— O que foi, amor?
— Minha mãe… ela tá no hospital! Precisamos ir agora!
Peguei minha bolsa às pressas e a professora, vendo meu estado, apenas disse com ternura:
— Vá tranquila, querida. Que ela fique bem.
Chegamos ao hospital e lá estava ele — seu Pedro, com o rosto cansado, mas preocupado.
— Como ela está? O que aconteceu?
— Ela desmaiou do nada lá na loja… fiquei assustado e trouxe ela pra cá.
Logo o médico apareceu.
— Doutor, pelo amor de Deus, como ela está?
— A sua mãe teve um ataque cardíaco. Precisamos fazer uma cirurgia de emergência pra colocar uma válvula… senão ela não resiste.
O chão sumiu. Tudo girava.
— Não… não pode ser… Quanto custa a cirurgia?
— Setenta mil reais.
Ele se afastou e eu desmoronei ali mesmo no banco do hospital, soluçando como uma criança. Otávio me abraçou apertado.
— Calma, amor… vai dar tudo certo, eu tô aqui com você.
Seu Pedro também se aproximou, os olhos marejados.
— Ah, minha filha… queria poder ajudar mais, mas não tenho condições.
— O senhor já fez tudo, seu Pedro. O senhor salvou a vida dela ao trazê-la até aqui. Obrigada. De verdade.
— Sua mãe é uma boa mulher… e ela vai sair dessa. Eu acredito. Agora preciso ir trabalhar, mas qualquer coisa, me liga.
— Obrigada, de coração.
Otávio segurou firme minha mão.
— Deixa eu te ajudar, Kelly?
— Eu não posso aceitar, não tenho como te pagar. Eu não sei o que fazer…
— Você não precisa me pagar nada. Eu só quero estar ao seu lado. Eu te amo, Kelly. Desde o primeiro momento em que te vi, eu soube que tinha encontrado a mulher da minha vida. Por isso te chamo de amor — porque você é. Meu amor. Minha vida.
Eu o abracei com força, deixando minhas lágrimas se misturarem com o calor do seu peito.
— Minha sogra vai sair dessa. Eu vou estar com você em cada segundo, eu prometo.
Horas depois, o médico me permitiu vê-la. Entrei no quarto com o coração na garganta.
— Mamãe… como você está?
— Estou bem, minha filha… — ela sorriu fraco.
— Esse é o Otávio.
— Muito prazer, senhora.
— Que rapaz bonito, minha filha…
— Mãe, o doutor disse que a senhora vai precisar operar…
— Sim, filha… mas não temos esse dinheiro.
— Eu vou dar um jeito! Eu juro! Eu não posso te perder, mãe… só tenho você no mundo.
— Se for minha hora, meu amor… sei que você vai ficar bem.
— Não fala isso, mãe! Por favor, não!
— Vende a casa, filha.
— Não! Eu vou conseguir. Nem pense nisso. Vou usar minhas economias da faculdade.
— Não, filha…
— Eu posso trabalhar o dobro, o triplo. Eu vou conseguir tudo de novo, relaxa.
Otávio saiu pra buscar água, e minha mãe, com o olhar terno e cheio de receio, me alertou:
— Filha… não fique sozinha em casa. Aquele homem da casa ao lado… se perceber que você tá sozinha, pode tentar fazer m*l.
— Pode deixar, mãe…
— Esse rapaz… é o que você gosta desde o começo do ano?
— É… mas não somos nada. Ele me chama de amor, te chama de sogra… mas eu nunca dei uma chance.
— Dá uma chance, minha filha. Ele parece ser uma boa pessoa. Pede pra ele ficar lá com você, não fica sozinha.
— Mãe… isso não é certo.
— Filha, você é linda… e se estiver preparada pra viver isso, viva. Eu vou ficar feliz por saber que ele te ama — eu vi isso nos olhos dele.
Otávio voltou e minha mãe o chamou:
— Meu filho… vem aqui. — Ela segurou a mão dele. — Estou te entregando meu bem mais precioso. Cuida da minha filha enquanto eu estiver aqui. O vizinho é perigoso… não quero que ela fique sozinha. Fica com ela, leva pra sua casa, protege minha menina, por favor.
— A senhora tem minha palavra. Eu nunca deixaria alguém fazer m*l a ela. Eu prometo.
Nos despedimos, e no carro, Otávio insistiu:
— Amor… me deixa ajudar vocês?
— Você não pode gastar o dinheiro da sua faculdade com minha mãe… não é certo.
— Eu tenho vinte mil guardado… minha mãe vive do aluguel de uma casinha, não posso mexer nisso. Mas posso tentar um empréstimo com meu patrão…
— Não! Ele pode querer algo em troca, Otávio. Isso me preocupa. Me deixa tentar…
— Kelly, deixa eu pagar, por favor?
Chegamos a uma casa simples. Ele desceu, abriu o portão branco e estacionou. O quintal era amplo. Entramos e ele foi direto ao quarto. Pegou algumas roupas, colocou numa mala.
— São pra eu usar na sua casa. Espero que não se importe…
Eu sorri. Ele ainda voltou com uma caixa… e quando abriu, meu coração quase parou. Estava cheia de dinheiro.
— Aqui tem o valor exato da cirurgia.
— Eu… eu não posso aceitar!
— Amor, por favor. Lembra o que disse à sua mãe? Que trabalharia o dobro e conseguiria de novo? Então. Agora eu digo o mesmo. Eu vou conseguir. Mas agora, a sua mãe precisa viver!
— Eu não te mereço, Otávio… ninguém nunca fez isso por mim… muitos iriam exigir algo em troca…
— Eu só quero te ver bem. Eu te amo. Se você sofre, eu sofro também.
Sem pensar, agarrei seu rosto com as duas mãos e o beijei com toda a minha alma. Foi o beijo mais intenso, mais verdadeiro, mais nosso.
— Nossa… esperei tanto por esse beijo… — ele disse ofegante.
— E agora…? Estamos juntos?
"Eu sorri com o coração acelerado, puxei ele para mais perto e o beijei novamente, com toda a emoção que transbordava em mim. Quando nos separamos, ele me olhou nos olhos, com um brilho apaixonado, e disse com a voz firme e carinhosa:
— Agora sim, é a certeza que estamos juntos.
Em seguida, me envolveu num abraço forte, protetor e cheio de amor, como se prometesse ali, em silêncio, nunca mais me deixar."