O hospital

1263 Words
Pegamos a mala dele e a caixa com o dinheiro, e saímos. Poucos minutos depois, já estávamos chegando à minha casa. Assim que desci do carro para abrir o portão, percebi o olhar do meu vizinho — aquele mesmo que sempre me observava com intenções nojentas — sair para frente da casa. Ele me encarou com aquela cara suja e safada de sempre. Otávio, ao ver a cena, não hesitou. Abriu a janela do carro e gritou com firmeza: — Amor, terminou de abrir o portão? Senti um calor gostoso no peito com aquele “amor” dito em voz alta, como uma proteção pública. — Sim, amor. Pode entrar. — respondi, erguendo o portão com esforço. Ele entrou com o carro e, antes que eu fizesse menção de fechar, saiu, o fechou com firmeza e ficou encarando o vizinho por longos segundos, com um olhar ameaçador. Quando entrou novamente, o clima no carro estava carregado de tensão e cuidado. — Esse é o homem que vive te assediando, não é? Foi por isso que sua mãe me pediu para não te deixar mais sozinha aqui? — perguntou com a voz densa de raiva contida. — Sim... é ele mesmo. — respondi, sentindo um arrepio passar por minha espinha. — Eu vi como ele te olhou. Sua mãe tem toda razão. Você não pode ficar aqui sozinha... se esse desgraçado tentar qualquer coisa com você, eu juro que mato ele! Eu sorri tentando aliviar a tensão e disse suavemente: — Relaxa... ele não vai tentar nada. Não agora. Subi para tomar um banho e me acalmar,depois foi a vez dele ... Enquanto eu preparava um lanchinho simples, ouvi o celular dele tocar — o visor marcava: “Mãe”. — Amor, sua mãe tá ligando! — gritei da cozinha. — Atende pra mim, amor! Fala que estou no banho e que ligo já. Atendi com o coração um pouco acelerado, meio tímida: — Alô? — Oi, quero falar com meu filho. Ele está aí? — Está sim, senhora, mas está no banho. Assim que ele sair, peço para ele ligar, tudo bem? Ela apenas respondeu um "tá bom" seco e desligou. Minutos depois, ele apareceu na sala só de short e camiseta. Era a primeira vez que eu o via assim, e confesso, meu olhar percorreu aquele corpo musculoso e forte com certo desejo contido. — Sua mãe pediu pra você ligar pra ela. — avisei, ainda tentando parecer natural. Ele foi fazer a ligação enquanto eu arrumava a mesa com o lanche: pão com atum, sanduíches de presunto e suco de laranja. Quando ele terminou, sentou-se comigo, e comemos lado a lado, como se fôssemos casados há anos. Depois do lanche, subimos para o quarto, ligamos a TV e escolhemos um filme de comédia. No meio das risadas, adormeci nos braços dele. Ele desligou a TV, me abraçou com carinho e dormimos juntos, entrelaçados como dois corações que finalmente se encontraram. Na manhã seguinte, acordei com um beijo doce e a bandeja do café da manhã nas mãos dele. — Bom dia, minha princesa. — disse com um sorriso de derreter qualquer dor. — Bom dia, meu bem. Obrigada por tudo. — retribuí com carinho. Nos arrumamos e seguimos para o hospital, levando o dinheiro. Ao chegar, fomos direto falar com o médico, que começou a organizar os preparativos da cirurgia. Entrei no quarto com o coração apertado: — Bom dia, mamãe. Como a senhora está? — Estou bem melhor, filha. E vocês? Dormiu com ela, Otávio? — perguntou com um sorriso malicioso. — Sim, sogra, dormimos juntinhos. Pode ficar tranquila! — ele respondeu com carinho. Depois que ele saiu do quarto, me aproximei de minha mãe e contei: — Mãe... quando chegamos ontem, o vizinho estava no portão, mas o Otávio não deixou barato. Deu logo um chega pra lá nele. — Tá vendo, filha? É por isso que eu disse pra você não ficar mais sozinha aqui. Mas... e a noite, como foi? — Tranquila, mãe. Dormimos abraçados só. Nada além disso. — respondi com um sorriso tímido. Ela me olhou com ternura. — Hoje é o grande dia da sua cirurgia, mãe. — Como assim, filha? — Otávio... ele me deu o dinheiro. Pagou tudo. E não pediu nada em troca. Ela se emocionou, os olhos se encheram de lágrimas. — Nossa... meu genro é um homem de ouro. Fico tão feliz por você estar com alguém assim. O médico entrou logo depois, avisando que estava tudo pronto para a cirurgia. Me despedi da minha mãe e saí da sala, sentando no corredor, com o coração apertado. Meu celular tocou: era meu patrão. — Alô? — Kelly, bom dia. Tudo bem? — Bom dia, seu Augusto. Me perdoe por não ter ido trabalhar ontem. Minha mãe está no hospital... vai ser operada agora. — Sinto muito. O que aconteceu com ela? — Insuficiência cardíaca. Ela vai precisar muito de mim nesses dias. — Eu entendo. Pode ficar tranquila. Só liguei porque achei estranho você faltar, já que é tão responsável. — Obrigada pela compreensão. Prometo voltar assim que puder. Desliguei aliviada e Otávio veio até mim, sentindo minha tensão. — O que houve, amor? Está preocupada? — Era meu patrão. Eu tinha esquecido de avisar sobre o trabalho ontem, mas já expliquei e ele entendeu. — Fica tranquila. Vai dar tudo certo. Confia. A cirurgia durou seis longas horas, e quando o médico finalmente saiu com um sorriso no rosto, senti o alívio tomar conta do meu corpo. — Foi um sucesso. — ele anunciou. Entramos para vê-la. Ela ainda dormia. Ficamos ali, em silêncio, segurando a mão dela até que, uma hora e meia depois, ela abriu os olhos. — Boa tarde, mamãe. Como você está se sentindo? — Parece que fui atropelada por um trator... mas estou bem. Sorrimos, aliviados. — Muito obrigada, meu genro... por ter pago minha cirurgia. Você é um rapaz maravilhoso. Otávio, com os olhos marejados, respondeu com sinceridade: — Sogra, eu que agradeço. Prometo cuidar da sua filha e de você com todo meu amor. De repente, meu celular tocou. Era Amanda. sai da sala para atender... — Oi, amiga. Como está sua mãe? — Acabou de sair da cirurgia. Está se recuperando. — Por que não me avisou? Eu teria ido te apoiar! — Otávio está comigo. Ele... ele fez tudo por mim, Amanda. — Vocês estão juntos?! — Sim. Ele é meu porto seguro. Pagou a cirurgia da minha mãe. Está dormindo comigo para eu não ficar sozinha. — Meu Deus, amiga! Que homem! Estou tão feliz por você! Que horas posso ir visitar sua mãe? — A visita é às 14h, mas você estará no trabalho. — De jeito nenhum. Vou ligar agora mesmo pro patrão. Eu vou aí, sim. Desliguei sorrindo. Voltei à sala e vi os dois conversando e rindo. — O que vocês estão cochichando aí, hein? — Assunto de sogra e genro, né, sogrinha? — disse Otávio, sorrindo para minha mãe. — É isso mesmo, minha filha. — respondeu ela com um brilho nos olhos. — Amanda vem te visitar daqui a pouco, mãe. — Que bom! Gosto muito dela. Mas agora, filha, vocês precisam almoçar. Já está tarde. — Não quero, mãe. Estou sem fome. Quero ficar aqui com você. Otávio então se aproximou, segurou minha mão com doçura e disse: — Meu amor... você precisa se alimentar. Vamos, depois voltamos. Você precisa estar forte pra cuidar dela. Ele me abraçou com carinho e, mais uma vez, eu soube: ele era meu lar.
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