Entre Luzes de Natal e Sombras do Ciúme

1461 Words
O fim do semestre havia chegado como um alívio depois de meses de tensão. Kelly e Otávio estavam exaustos, mas vitoriosos. Entregaram todos os trabalhos, fecharam as últimas provas, encerraram mais uma etapa da graduação juntos. Mas, apesar das conquistas, havia algo entre eles — um silêncio pesado, um clima carregado, uma sombra que insistia em rondar: o ciúme de Otávio. Rafael, o colega de turma, continuava com olhares invasivos e elogios disfarçados de gentileza. Kelly fazia de tudo para se afastar, mas o desconforto persistia. E o mais difícil era ver Otávio se afastando emocionalmente, se fechando, carregando em si um ciúme que doía mais nela do que nele. Com a faculdade em pausa, era hora de voltar para casa. Era Natal, tempo de calor humano, risadas e laços familiares. Chegaram na cidade natal com as malas cheias — de roupas e de sentimentos. A casa estava toda iluminada, cheirando a canela e comida caseira, com os sons da infância ecoando pelas paredes. Na noite da ceia, após os abraços e os reencontros, Kelly estava sentada na varanda com Helena (sua cunhada), Elisa (sua sogra) e Keyla, sua mãe. Estavam ali, tomando um chá, aquecidas por mantas, enquanto a brisa suave da noite dançava entre os pisca-piscas do quintal. Foi então que Kelly, com os olhos marejados, desabafou: — Eu não aguento mais esse clima entre mim e o Otávio… Eu não fiz nada. Eu só sou quem eu sou. Estudo, me esforço, apresento os trabalhos, falo bem. E mesmo assim… parece que tudo em mim incomoda ele. Parece que brilhar virou um problema no nosso relacionamento. Helena foi a primeira a responder, firme e carinhosa: — Kelly… o Otávio é meu irmão e eu amo ele, mas eu preciso ser justa com você. Ele sempre foi ciumento. Desde adolescente. Mas você não tá errada. Você nunca deu a******a pra esse Rafael. Muito pelo contrário. Você se esquiva, você evita, você ignora. A culpa não é sua porque um babaca insiste em te olhar. Elisa, a sogra, apertou a mão de Kelly com carinho: — Você é uma mulher brilhante, doce e decente. Você não tem que se diminuir pra caber em nenhum ciúme. O Otávio precisa amadurecer, filha. Ele precisa entender que amar alguém não é prender… é confiar. Kelly suspirou fundo e olhou para as três. — Eu juro, gente… diante de Deus, eu nem olho pra esse cara. Quando ele chega perto, eu abaixo o olhar. Quando elogia, eu corto com uma resposta neutra. Mas o Otávio chega, me segura pela cintura, fica me marcando como território. Eu fico me sentindo culpada por algo que eu nem fiz. Eu já conversei com ele, com calma, com amor, com paciência… mas ele fecha a cara, se cala, se afasta. Keyla, a mãe de Kelly, enxugou uma lágrima e segurou o rosto da filha com as duas mãos: — Minha filha… você não tem culpa de nada. Você é fiel, dedicada. Você é uma mulher de valor. E o Otávio tem que entender isso de uma vez. Ciúme em excesso destrói. E você tá sofrendo por amor… mas o amor também tem que te fazer bem. Ele precisa mudar essa postura. E se ele não mudar, ele vai acabar perdendo você. E aí… vai ser tarde. Kelly apenas assentiu, engolindo o choro. Mas enquanto as lágrimas se seguravam, do outro lado da casa, Otávio também tinha sua conversa. Ele estava na garagem com o pai, encostados no carro, o som dos grilos preenchendo o silêncio entre eles. — Pai… eu tô surtando por causa daquele cara — confessou Otávio, com os olhos avermelhados. — Eu vejo ele olhando pra Kelly e me dá vontade de partir pra cima dele. O pai cruzou os braços e respondeu firme: — Meu filho… ela não fez nada. Ela não deu a******a. E esse cara só tá olhando. Ela tá contigo. E se você continuar assim, quem vai destruir esse relacionamento é você — disse sem rodeios. — Eu sei… — Otávio respondeu baixo, com raiva de si mesmo. — Eu tô me segurando. Mas se ele falar mais uma palavra pra ela… eu juro, pai… eu perco o controle. — E aí você perde a razão. Você perde ela. Você perde tudo. Você quer isso? Otávio abaixou a cabeça, murmurando: — Não, pai. Eu não quero. Mas eu também não quero ver ninguém olhando pra ela como se ela fosse um troféu exposto… — Então mostra que ela é uma mulher amada. Não uma mulher vigiada. Protege, mas com amor. Cuida, mas com confiança. Porque ela te ama, meu filho. Isso dá pra ver nos olhos dela. Otávio não respondeu. Mas ali, naquela conversa com o pai, pela primeira vez em semanas, algo começou a se dissolver dentro dele. O orgulho, talvez. O medo. Ou só o ego ferido. Naquela mesma noite, ao voltarem para o quarto, Kelly e Otávio se deitaram em silêncio. Ele a puxou com carinho e encostou a cabeça no ombro dela. — Eu preciso melhorar, né? — ele sussurrou. Ela apenas respondeu com um beijo no topo da cabeça e um afago no peito. — Eu só quero que você confie no amor que eu tenho por você. E ali, entre luzes de Natal e sombras que começavam a se dissipar, eles deram o primeiro passo para recomeçar. A madrugada avançava, e o pisca-pisca da varanda refletia pela fresta da janela do quarto. Kelly e Otávio estavam deitados, ainda abraçados, com os corações mais calmos, mas ainda intensos. O toque entre eles não era de desejo imediato, mas de necessidade — de conexão, de cura. Otávio deslizou a mão pela cintura de Kelly com delicadeza, sentindo o calor da pele dela sob o pijama fino. Ele ergueu o rosto e encontrou os olhos dela. Havia ali um misto de ternura e dor. Culpa e desejo. Ela não disse nada, apenas deixou que os dedos dele percorressem sua pele como um pedido de desculpas não dito. — Eu te amo tanto… — ele sussurrou, com a voz embargada. — E às vezes esse amor me deixa com medo. Medo de te perder. Medo de não ser bom o suficiente. Kelly levou a mão ao rosto dele, acariciando sua barba por fazer. — O amor não pode ser prisão, Otávio. Ele tem que ser abrigo. Eu nunca quis outro olhar, outra mão, outro beijo. É você, sempre foi você. Só que eu preciso de espaço pra ser quem eu sou. Eu não posso me apagar pra te manter tranquilo. Ele assentiu com os olhos marejados e puxou-a para mais perto, colando os lábios nos dela com cuidado, como se estivesse pedindo permissão para amá-la de novo. O beijo foi lento, cheio de sentimento. As línguas se encontraram em uma dança íntima, familiar, mas com um sabor diferente — um recomeço. As mãos dele subiram pelas costas dela, empurrando o tecido do pijama até encontrarem sua pele nua. Kelly respondeu ao toque com um suspiro leve, envolvendo o pescoço dele com os braços e aprofundando o beijo. Ela sentiu o corpo dele estremecer ao seu, como se cada gesto fosse também um pedido de perdão. Ele deitou-a devagar, posicionando-se sobre ela com calma, com reverência. Seus olhos não se desviaram dela por nenhum instante. As mãos acariciavam, mapeavam, descobriam novamente cada curva como se fosse a primeira vez. Kelly gemeu baixo quando sentiu os lábios dele em seu pescoço, depois no colo, depois descendo com carinho e desejo até os s***s, que ele acariciou com uma mistura de adoração e fome contida. — Você é a mulher da minha vida… — ele murmurou contra a pele dela. Ela arqueou o corpo, levando as mãos até a cintura dele, puxando-o para si com delicadeza e entrega. — Então me ame… mas com liberdade. E ele a amou. Com os corpos unidos, os movimentos se tornaram cada vez mais intensos, ritmados, quentes. Os lençóis testemunharam suspiros, gemidos abafados e promessas mudas. Ele se entregou por inteiro, como se cada estocada fosse uma confissão, e ela recebeu cada toque com um perdão silencioso. Foram minutos de um amor profundo, cheio de emoção e pele, suor e sentimento. Quando chegaram ao ápice, foi como se uma nuvem escura tivesse finalmente se dissolvido entre eles. Deitados, ofegantes, entrelaçados sob a colcha desarrumada, Otávio segurou a mão de Kelly e a beijou com delicadeza. — Eu vou mudar. Por você. Por nós. Kelly sorriu, ainda com os olhos úmidos, e respondeu: — Não por mim. Por você também. Porque você merece ser um homem melhor… e eu mereço o melhor de você. Naquela noite, entre o calor dos corpos e a paz de um recomeço, eles se encontraram de novo. Mais maduros. Mais conscientes. Mais apaixonados.
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