a crise dos meninos

1287 Words
Depois da tarde de filme, já de noitinha, Carla e Marcos foram para a casa dos pais dele dormir. Na manhã seguinte, bem cedo, as meninas — ainda agitadas pela noite divertida — acordaram animadas. Já os meninos, totalmente virados e destruídos pela maratona de filmes e pipoca, dormiam pesadamente. Nem sentiram a falta delas. Kelly, Renata, Luísa e Isadora se arrumaram quietinhas, colocaram seus biquínis, ajeitaram os cabelos, pegaram suas bolsas e desceram para a praia. Era pertinho, dava para ir andando numa boa. Antes de saírem, deixaram um bilhete no quarto: "Estamos na praia." O sol ainda era tímido quando elas chegaram. A areia morna sob os pés, o mar calmo convidando. Elas largaram as coisas num cantinho e foram direto pro banho de mar — mergulhando, rindo, brincando, se jogando como se o mundo fosse só aquele momento. Mas quando os meninos acordaram e viram o papel... o caos começou. Otávio levantou num pulo, os olhos ainda semicerrados, e pegou o bilhete com a cara fechada. — "Na praia? Sério isso?" João acordou com o tom da voz dele e perguntou: — "Que foi, mano?" Otávio estendeu o papel. João leu e soltou um palavrão. — "Pô, mano... a Renata sabe que eu odeio esse tipo de coisa!" Leandro, meio grogue ainda, abriu os olhos e disse: — "Luísa também foi? É sério isso?" Caio se sentou devagar na cama, esfregando os olhos, mas já com o coração acelerado. — "A Isadora... ela sabe como eu fico com essas paradas. Nem avisar direito... que p***a é essa?" Os quatro ficaram em pé, no meio do quarto, se olhando. O clima tenso. — "Cara, eu não acredito que a Kelly fez isso comigo. Ela me conhece, pô. Depois que eu surtar, eu que vou ser o errado da história," disse Otávio, já com o maxilar travado. — "E a Renata então? Ela sabe que isso me deixa maluco. Namoral, isso me quebra," resmungou João, esfregando a nuca. Leandro bufou. — "Tá certo que eu e Luísa começamos a ficar aqui na viagem, mas pô... a gente anda junto há dois anos, faz faculdade junto... Elas sabem que a gente não curte esse tipo de coisa." Caio, mais calado, disse firme: — "E a Isadora... ela sabe o jeito que eu sou. Se eu sumo, ela surta. Mas quando é ela..." O silêncio foi cortado apenas pelos passos apressados deles se arrumando. Mesmo tentando manter a calma, dava pra ver no olhar de cada um que o sangue fervia. Pegaram os chinelos, colocaram camisetas e desceram direto pra praia. O caminho foi curto, mas parecia uma eternidade. Quando chegaram, os olhos deles vasculharam tudo. E lá estavam: as bolsas jogadas no canto, as sandálias na areia... e elas, no mar, molhadas, rindo, como se nada tivesse acontecido. A cena, por si só, já fez o coração deles disparar. Mas o golpe final veio logo depois. Um grupo de surfistas passou perto da areia. Um deles, bronzeado e tatuado, olhou descaradamente pro mar e soltou alto: — "Olha aquilo, irmão... que visão! Cada uma mais gostosa que a outra!" Outro emendou: — "Deve ser turista... Se for solteira, casa comigo agora!" Os quatro escutaram. E gelaram. Otávio fechou os punhos. A veia do pescoço saltando. João deu dois passos pra frente e depois parou, tentando respirar fundo. Leandro encarava as meninas com uma mistura de decepção e raiva. Caio virou o rosto pro lado, fechando os olhos por um segundo, tentando manter o controle. E foi nesse momento que elas viram. Os quatro. Parados. Ombros tensos. Expressões fechadas. Os olhos faiscando. Isadora foi a primeira a reagir: — "p**a merda... Esqueci que o Caio é meio surtadinho, né?" — "E o Leandro também," disse Luísa, mordendo o lábio. Renata suspirou: — "E o João? Nem se fala..." — "Tá certo que a gente só deu uma chance pra eles aqui, mas a gente conhece eles há dois anos, né?" completou Isadora. — "Eles sempre foram ciumentos e protetores. Já eram antes da gente se envolver..." Kelly cruzou os braços, olhando Otávio de longe. — "Porra... o Otávio é o pior de todos. A gente já mora junto, estamos há quase quatro anos e ele é mais ciumento que o Caio, o João e o Leandro juntos." Renata riu, sem humor. — "Mas vamos combinar uma coisa: se eles ficarem só assim, com essa cara de cu, a gente sorri e leva na brincadeira." Isadora assentiu. — "Agora, se surtarem de verdade, a gente volta pro mar e fica lá. Não vamos estragar o final da viagem por isso." — "Ainda avisamos, né? Podia ter sido pior," disse Renata. — "Pois é," concordou Luísa. — "Vamos manter a pose." Mas quando elas começaram a sair da água, caminhando na direção deles, tentando fingir naturalidade... outro grupo de surfistas passou. — "É hoje que eu me apaixono," disse um, olhando descaradamente. — "Essas minas são de outro mundo." Os meninos ouviram. E não foi só ouvir. Sentiram o ciúme subir como uma onda brava. Mas estavam em público. Só por isso não explodiram ali mesmo. Otávio apenas fechou a cara e enfiou as mãos nos bolsos, os olhos cravados em Kelly como se pudesse atravessar a alma dela. João olhou pra Renata e respirou fundo, as narinas dilatadas. Leandro mordeu a parte interna da bochecha pra não falar nada. E Caio... apenas cruzou os braços e desviou o olhar, tentando segurar a vontade de gritar. Elas sabiam. Estavam fodidas. E aquilo... ia dar muito pano pra manga. Isadora tentou descontrair: — "Gente, qual é... a gente só desceu um pouco. Nem saímos do bairro." — "Vocês saíram sem avisar p***a nenhuma!" — explodiu Otávio, com os olhos ardendo de raiva. — "Você me conhece, Kelly! Sabe como eu sou! E ainda faz isso? Me deixa acordar com um bilhete ridículo e desce pra praia de biquíni?" João deu um passo à frente, apontando pra Renata: — "E você, Renata?! Você sabe que eu odeio isso! Acha que deixar um papel no quarto dizendo ‘estamos na praia’ é o quê? Um aviso sério?!" Leandro estava com o maxilar travado, tentando manter o controle, mas sua voz saiu tensa: — "A gente tá junto direto, fazemos tudo juntos, e vocês simplesmente somem? E o pior... na praia. Sozinhas. De biquíni. Rindo, se exibindo..." — "E sendo cantadas por um bando de surfista na nossa frente!" — completou Caio, com os punhos cerrados. Renata ergueu o queixo com firmeza: — "Não tem motivo pra esse escândalo todo. A gente AVISOU. Vocês estavam dormindo, a gente deixou escrito. Não fizemos nada de errado." — "p***a! Avisou?!" — gritou Otávio, furioso. — "Aquilo foi um bilhete preguiçoso! Vocês acham que isso é normal?!" — "Se vocês continuarem gritando com a gente desse jeito, a gente vai voltar pro mar e fica lá até vocês esfriarem a cabeça." — disse Luísa, encarando Leandro sem piscar. — "Ah, é assim agora?!" — Caio rosnou, dando um passo mais à frente. Isadora deu um sorriso debochado: — "É assim mesmo." Sem mais uma palavra, as quatro se viraram de costas, rebolando com naturalidade, e voltaram pro mar como se nada tivesse acontecido. Os rapazes ficaram parados ali, engolindo o orgulho ferido, com o sangue fervendo. — "Isso não vai ficar assim..." — murmurou Otávio, cerrando os dentes. — "Não mesmo." — respondeu João, ainda de olhos fixos nelas dentro do mar. — "Elas acham que podem fazer o que quiserem..." — "Vamos ver até onde vai esse joguinho." — completou Leandro, sentando na areia, completamente puto, com o coração acelerado. Caio chutou um pouco da areia com força. — "Elas que se preparem. Isso só começou."
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