Depois da tarde de filme, já de noitinha, Carla e Marcos foram para a casa dos pais dele dormir. Na manhã seguinte, bem cedo, as meninas — ainda agitadas pela noite divertida — acordaram animadas. Já os meninos, totalmente virados e destruídos pela maratona de filmes e pipoca, dormiam pesadamente. Nem sentiram a falta delas.
Kelly, Renata, Luísa e Isadora se arrumaram quietinhas, colocaram seus biquínis, ajeitaram os cabelos, pegaram suas bolsas e desceram para a praia. Era pertinho, dava para ir andando numa boa. Antes de saírem, deixaram um bilhete no quarto: "Estamos na praia."
O sol ainda era tímido quando elas chegaram. A areia morna sob os pés, o mar calmo convidando. Elas largaram as coisas num cantinho e foram direto pro banho de mar — mergulhando, rindo, brincando, se jogando como se o mundo fosse só aquele momento.
Mas quando os meninos acordaram e viram o papel... o caos começou.
Otávio levantou num pulo, os olhos ainda semicerrados, e pegou o bilhete com a cara fechada.
— "Na praia? Sério isso?"
João acordou com o tom da voz dele e perguntou:
— "Que foi, mano?"
Otávio estendeu o papel. João leu e soltou um palavrão.
— "Pô, mano... a Renata sabe que eu odeio esse tipo de coisa!"
Leandro, meio grogue ainda, abriu os olhos e disse:
— "Luísa também foi? É sério isso?"
Caio se sentou devagar na cama, esfregando os olhos, mas já com o coração acelerado.
— "A Isadora... ela sabe como eu fico com essas paradas. Nem avisar direito... que p***a é essa?"
Os quatro ficaram em pé, no meio do quarto, se olhando. O clima tenso.
— "Cara, eu não acredito que a Kelly fez isso comigo. Ela me conhece, pô. Depois que eu surtar, eu que vou ser o errado da história," disse Otávio, já com o maxilar travado.
— "E a Renata então? Ela sabe que isso me deixa maluco. Namoral, isso me quebra," resmungou João, esfregando a nuca.
Leandro bufou.
— "Tá certo que eu e Luísa começamos a ficar aqui na viagem, mas pô... a gente anda junto há dois anos, faz faculdade junto... Elas sabem que a gente não curte esse tipo de coisa."
Caio, mais calado, disse firme:
— "E a Isadora... ela sabe o jeito que eu sou. Se eu sumo, ela surta. Mas quando é ela..."
O silêncio foi cortado apenas pelos passos apressados deles se arrumando. Mesmo tentando manter a calma, dava pra ver no olhar de cada um que o sangue fervia. Pegaram os chinelos, colocaram camisetas e desceram direto pra praia. O caminho foi curto, mas parecia uma eternidade.
Quando chegaram, os olhos deles vasculharam tudo. E lá estavam: as bolsas jogadas no canto, as sandálias na areia... e elas, no mar, molhadas, rindo, como se nada tivesse acontecido.
A cena, por si só, já fez o coração deles disparar. Mas o golpe final veio logo depois.
Um grupo de surfistas passou perto da areia. Um deles, bronzeado e tatuado, olhou descaradamente pro mar e soltou alto:
— "Olha aquilo, irmão... que visão! Cada uma mais gostosa que a outra!"
Outro emendou:
— "Deve ser turista... Se for solteira, casa comigo agora!"
Os quatro escutaram. E gelaram.
Otávio fechou os punhos. A veia do pescoço saltando.
João deu dois passos pra frente e depois parou, tentando respirar fundo.
Leandro encarava as meninas com uma mistura de decepção e raiva.
Caio virou o rosto pro lado, fechando os olhos por um segundo, tentando manter o controle.
E foi nesse momento que elas viram. Os quatro. Parados. Ombros tensos. Expressões fechadas. Os olhos faiscando.
Isadora foi a primeira a reagir:
— "p**a merda... Esqueci que o Caio é meio surtadinho, né?"
— "E o Leandro também," disse Luísa, mordendo o lábio.
Renata suspirou:
— "E o João? Nem se fala..."
— "Tá certo que a gente só deu uma chance pra eles aqui, mas a gente conhece eles há dois anos, né?" completou Isadora. — "Eles sempre foram ciumentos e protetores. Já eram antes da gente se envolver..."
Kelly cruzou os braços, olhando Otávio de longe.
— "Porra... o Otávio é o pior de todos. A gente já mora junto, estamos há quase quatro anos e ele é mais ciumento que o Caio, o João e o Leandro juntos."
Renata riu, sem humor.
— "Mas vamos combinar uma coisa: se eles ficarem só assim, com essa cara de cu, a gente sorri e leva na brincadeira."
Isadora assentiu.
— "Agora, se surtarem de verdade, a gente volta pro mar e fica lá. Não vamos estragar o final da viagem por isso."
— "Ainda avisamos, né? Podia ter sido pior," disse Renata.
— "Pois é," concordou Luísa. — "Vamos manter a pose."
Mas quando elas começaram a sair da água, caminhando na direção deles, tentando fingir naturalidade... outro grupo de surfistas passou.
— "É hoje que eu me apaixono," disse um, olhando descaradamente. — "Essas minas são de outro mundo."
Os meninos ouviram. E não foi só ouvir. Sentiram o ciúme subir como uma onda brava.
Mas estavam em público. Só por isso não explodiram ali mesmo.
Otávio apenas fechou a cara e enfiou as mãos nos bolsos, os olhos cravados em Kelly como se pudesse atravessar a alma dela.
João olhou pra Renata e respirou fundo, as narinas dilatadas.
Leandro mordeu a parte interna da bochecha pra não falar nada. E Caio... apenas cruzou os braços e desviou o olhar, tentando segurar a vontade de gritar.
Elas sabiam. Estavam fodidas. E aquilo... ia dar muito pano pra manga.
Isadora tentou descontrair:
— "Gente, qual é... a gente só desceu um pouco. Nem saímos do bairro."
— "Vocês saíram sem avisar p***a nenhuma!" — explodiu Otávio, com os olhos ardendo de raiva. — "Você me conhece, Kelly! Sabe como eu sou! E ainda faz isso? Me deixa acordar com um bilhete ridículo e desce pra praia de biquíni?"
João deu um passo à frente, apontando pra Renata:
— "E você, Renata?! Você sabe que eu odeio isso! Acha que deixar um papel no quarto dizendo ‘estamos na praia’ é o quê? Um aviso sério?!"
Leandro estava com o maxilar travado, tentando manter o controle, mas sua voz saiu tensa:
— "A gente tá junto direto, fazemos tudo juntos, e vocês simplesmente somem? E o pior... na praia. Sozinhas. De biquíni. Rindo, se exibindo..."
— "E sendo cantadas por um bando de surfista na nossa frente!" — completou Caio, com os punhos cerrados.
Renata ergueu o queixo com firmeza:
— "Não tem motivo pra esse escândalo todo. A gente AVISOU. Vocês estavam dormindo, a gente deixou escrito. Não fizemos nada de errado."
— "p***a! Avisou?!" — gritou Otávio, furioso. — "Aquilo foi um bilhete preguiçoso! Vocês acham que isso é normal?!"
— "Se vocês continuarem gritando com a gente desse jeito, a gente vai voltar pro mar e fica lá até vocês esfriarem a cabeça." — disse Luísa, encarando Leandro sem piscar.
— "Ah, é assim agora?!" — Caio rosnou, dando um passo mais à frente.
Isadora deu um sorriso debochado:
— "É assim mesmo."
Sem mais uma palavra, as quatro se viraram de costas, rebolando com naturalidade, e voltaram pro mar como se nada tivesse acontecido.
Os rapazes ficaram parados ali, engolindo o orgulho ferido, com o sangue fervendo.
— "Isso não vai ficar assim..." — murmurou Otávio, cerrando os dentes.
— "Não mesmo." — respondeu João, ainda de olhos fixos nelas dentro do mar. — "Elas acham que podem fazer o que quiserem..."
— "Vamos ver até onde vai esse joguinho." — completou Leandro, sentando na areia, completamente puto, com o coração acelerado.
Caio chutou um pouco da areia com força.
— "Elas que se preparem. Isso só começou."