Entre Culpas e Liberdade

599 Words
O sol da manhã atravessava a vidraça da cozinha com suavidade. Era quase onze horas quando Carla apareceu primeiro, de pijama e cabelo preso num coque desleixado. Colocou água para ferver e começou a separar xícaras para o café. Uma a uma, as outras foram surgindo: Kelly com os olhos inchados, Renata segurando o estômago, Luísa com uma garrafinha de água e Isadora mascando chiclete para disfarçar o gosto da ressaca. O silêncio foi quebrado por Carla, com uma xícara fumegante nas mãos: — E aí? Sobrevivemos? Kelly resmungou, sentando-se na cadeira com um gemido dramático: — Por pouco… acho que ainda tô bêbada. Ou traumatizada. Luísa soltou um riso fraco. — Eu queria rir, mas minha cabeça tá latejando. Só de lembrar que vomitei no corredor… — Eu vomitei no Otávio — Kelly confessou, arrancando uma gargalhada geral. — Eu caí dentro do box e chorei agarrada no Leandro — Luiza admitiu. — Eu briguei com o João, empurrei ele e depois dormi no colo dele — Renata completou. Isadora ergueu a mão como se fosse na escola. — Eu gritei com o Caio e mandei ele se f***r… depois chorei dizendo que o amava. Todas riram, mas o riso tinha gosto de libertação. Carla apoiou os braços na mesa. — Agora que a gente riu da tragédia… a real. Por que a gente fez isso? Kelly foi a primeira a falar, os olhos marejados. — Eu tava sufocada. Cada vez que o Otávio queria me “proteger”, eu me sentia mais enjaulada. Eu precisava provar pra mim mesma que ainda tinha controle sobre a minha vida… mesmo que de um jeito i****a. Renata assentiu. — Foi isso mesmo. Eu me senti viva, mesmo que tenha acordado um lixo. Era um grito de socorro. Uma vingança emocional. A gente ficou calada por tempo demais. Luísa completou: — E também tem a coisa de se provar. De mostrar que a gente não vai se dobrar só porque eles se acham nossos donos. Só que a gente se passou. Isadora se esticou na cadeira, olhando para as amigas com sinceridade: — Eu não me arrependo de ter falado tudo o que eu tava entalando. Só me arrependo de ter me destruído pra isso. Carla serviu mais café, com um sorriso compreensivo: — O bom é que agora ninguém pode dizer que não sabia o que a gente pensa. Vocês foram ouvidas. E, ao que parece… eles ouviram de verdade. Kelly suspirou. — Otávio chorou. Disse que ia tentar mudar. Que quer andar do meu lado, não me arrastar. — Leandro também — Luiza disse. — Ele me escutou, sem levantar a voz, sem me acusar. Foi estranho… no bom sentido. — João vai ter que ralar muito ainda — disse Renata. — Mas eu vi um medo nos olhos dele. De me perder de verdade. Talvez agora ele aprenda. — Caio me respeitou tanto… que eu me senti burra por ter me anulado antes — completou Isadora. Carla sorriu, tocando a mão de cada uma: — Então talvez essa noite louca tenha servido pra algo. Pra libertar vocês. Pra mostrar pra eles que mulher não é brinquedo de vidro e que, quando a gente quebra, o som é alto. Renata riu fraco: — E o estrago é grande… — Mas a reconstrução pode ser linda — completou Kelly. As cinco se abraçaram ali mesmo, no meio da cozinha, com olhares de cumplicidade. Entre dores de cabeça, risos e lágrimas, estavam mais unidas do que nunca. Mulheres que decidiram não apenas amar… mas também serem amadas do jeito certo.
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