O sol da manhã atravessava a vidraça da cozinha com suavidade. Era quase onze horas quando Carla apareceu primeiro, de pijama e cabelo preso num coque desleixado. Colocou água para ferver e começou a separar xícaras para o café. Uma a uma, as outras foram surgindo: Kelly com os olhos inchados, Renata segurando o estômago, Luísa com uma garrafinha de água e Isadora mascando chiclete para disfarçar o gosto da ressaca.
O silêncio foi quebrado por Carla, com uma xícara fumegante nas mãos:
— E aí? Sobrevivemos?
Kelly resmungou, sentando-se na cadeira com um gemido dramático:
— Por pouco… acho que ainda tô bêbada. Ou traumatizada.
Luísa soltou um riso fraco.
— Eu queria rir, mas minha cabeça tá latejando. Só de lembrar que vomitei no corredor…
— Eu vomitei no Otávio — Kelly confessou, arrancando uma gargalhada geral.
— Eu caí dentro do box e chorei agarrada no Leandro — Luiza admitiu.
— Eu briguei com o João, empurrei ele e depois dormi no colo dele — Renata completou.
Isadora ergueu a mão como se fosse na escola.
— Eu gritei com o Caio e mandei ele se f***r… depois chorei dizendo que o amava.
Todas riram, mas o riso tinha gosto de libertação.
Carla apoiou os braços na mesa.
— Agora que a gente riu da tragédia… a real. Por que a gente fez isso?
Kelly foi a primeira a falar, os olhos marejados.
— Eu tava sufocada. Cada vez que o Otávio queria me “proteger”, eu me sentia mais enjaulada. Eu precisava provar pra mim mesma que ainda tinha controle sobre a minha vida… mesmo que de um jeito i****a.
Renata assentiu.
— Foi isso mesmo. Eu me senti viva, mesmo que tenha acordado um lixo. Era um grito de socorro. Uma vingança emocional. A gente ficou calada por tempo demais.
Luísa completou:
— E também tem a coisa de se provar. De mostrar que a gente não vai se dobrar só porque eles se acham nossos donos. Só que a gente se passou.
Isadora se esticou na cadeira, olhando para as amigas com sinceridade:
— Eu não me arrependo de ter falado tudo o que eu tava entalando. Só me arrependo de ter me destruído pra isso.
Carla serviu mais café, com um sorriso compreensivo:
— O bom é que agora ninguém pode dizer que não sabia o que a gente pensa. Vocês foram ouvidas. E, ao que parece… eles ouviram de verdade.
Kelly suspirou.
— Otávio chorou. Disse que ia tentar mudar. Que quer andar do meu lado, não me arrastar.
— Leandro também — Luiza disse. — Ele me escutou, sem levantar a voz, sem me acusar. Foi estranho… no bom sentido.
— João vai ter que ralar muito ainda — disse Renata. — Mas eu vi um medo nos olhos dele. De me perder de verdade. Talvez agora ele aprenda.
— Caio me respeitou tanto… que eu me senti burra por ter me anulado antes — completou Isadora.
Carla sorriu, tocando a mão de cada uma:
— Então talvez essa noite louca tenha servido pra algo. Pra libertar vocês. Pra mostrar pra eles que mulher não é brinquedo de vidro e que, quando a gente quebra, o som é alto.
Renata riu fraco:
— E o estrago é grande…
— Mas a reconstrução pode ser linda — completou Kelly.
As cinco se abraçaram ali mesmo, no meio da cozinha, com olhares de cumplicidade. Entre dores de cabeça, risos e lágrimas, estavam mais unidas do que nunca. Mulheres que decidiram não apenas amar… mas também serem amadas do jeito certo.