A Ressaca da Verdade

673 Words
Já passava das 22horas da noite quando, aos poucos, a casa foi voltando à vida. As garotas haviam dormido o dia inteiro, embaladas por dores de cabeça, corpos exaustos e emoções à flor da pele. Agora, acordavam uma a uma, ainda meio grogues, mas com as memórias da madrugada anterior pulsando forte. No quarto da Kelly… Ela abriu os olhos devagar. A luz do abajur estava acesa, e Otávio estava deitado ao seu lado, mexendo no celular, em silêncio. Assim que percebeu que ela despertava, ele largou o celular e se virou para ela. — Como você está? Ela respirou fundo, o estômago ainda revirando. — Com vergonha… e sede. Ele sorriu, oferecendo a garrafa de água que já esperava ao lado da cama. — Bebe. Você precisa se hidratar. Ela tomou um gole e depois ficou encarando o teto. — Otávio… tudo que eu falei ontem… era verdade, tá? Eu não tô feliz sendo tratada como uma menininha que precisa de permissão pra tudo. — Eu sei — ele respondeu com calma. — Eu te ouvi. E eu te entendi. Se eu quero estar com você… tenho que aprender a caminhar ao seu lado, não na sua frente. Ela virou o rosto, emocionada, e o abraçou forte. — Obrigada por não desistir de mim. No quarto da luiza... Leandro estava sentado na ponta da cama, de cabeça baixa, ainda com a mesma camiseta da noite anterior. luiza acordou, a cara amassada, os cabelos emaranhados e um gosto amargo na boca. Mas o olhar encontrou o dele, e ali havia algo que doía mais do que a ressaca: o arrependimento. — Leandro… — a voz saiu baixa. — Fica calma — ele respondeu, se levantando e se sentando ao lado dela. — Eu não tô bravo. Só tô tentando entender. — Eu me senti presa. Sufocada. Eu precisava me sentir viva, nem que fosse por uma noite. Ele pegou a mão dela com delicadeza. — Então eu vou tentar te deixar respirar. Só não some de mim, por favor. Ela fechou os olhos e deitou no peito dele. Ainda tonta, mas mais leve. No quarto da Renata... João estava recostado na cabeceira, com o celular na mão, lendo as notícias enquanto ela dormia. Quando ela despertou, soltou um resmungo e levou a mão à testa. — c*****o… minha cabeça tá explodindo. — Aqui — ele estendeu um comprimido e um copo com água. Ela o encarou. Ainda magoada. — Ontem eu te disse o que penso. E não retiro nada. Eu te amo, João, mas se for pra continuar me controlando… eu prefiro não continuar. Ele assentiu com os olhos baixos. — Eu entendi. E eu mereço ouvir isso. Só quero consertar. A gente vai consertar juntos, se você deixar. Ela suspirou e tomou o remédio, deitando de lado. — Um passo de cada vez, João. No quarto da Isadora… Caio estava deitado ao lado dela, vendo vídeos no celular, quando ela abriu os olhos. — Eu morri e tô no inferno? — ela resmungou. — Quase. Mas a gente te salvou a tempo — ele riu fraco. Ela sorriu de leve, mas logo ficou séria. — Eu fui escrota ontem? — Não — ele disse, virando-se de lado para encará-la. — Você foi uma mulher engasgada com tudo que segurou por muito tempo. — E você? Vai querer ficar comigo mesmo eu sendo assim? — Sim. Principalmente por você ser exatamente assim. Só me promete que a gente vai conversar mais e explodir menos. — Prometo — ela sussurrou, e os dois se abraçaram. No quarto da Carla… Tudo estava em paz. Carla acordou devagar, sentindo o cheiro do sabonete no travesseiro. Marcos estava ao lado, tranquilo, jogando um joguinho no celular. Ela virou para ele com um sorriso: — A gente sobreviveu à tempestade, hein? — E saímos secos — ele riu, se inclinando para beijá-la. — A gente tá bem, né? — Estamos. Porque a gente se escuta, se entende, e não tenta mudar um ao outro. Ela o abraçou.
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