O retorno à faculdade foi marcado por aquele misto de saudade e adrenalina. Kelly e Otávio voltavam renovados, ainda com o brilho no olhar dos dias ao lado da família. Os sorrisos se abriram largos ao reencontrar João, Caio, Leandro, Carla, Renata, Luísa e Isadora. Abraços, risadas, promessas de colocar os assuntos em dia — tudo era leve... até a surpresa amarga surgir.
Rafael.
Ele estava lá. No fundo da sala, recostado na cadeira com aquele olhar presunçoso, como se nunca tivesse feito nada errado. Os olhos dele pousaram direto em Kelly, famintos, como se o tempo tivesse apenas alimentado ainda mais aquele desejo inapropriado.
Otávio, ao notar a presença dele, ficou em silêncio. Mas a mandíbula travada, os punhos discretamente fechados, entregavam o turbilhão de raiva por trás do autocontrole.
As semanas se seguiram. Rafael continuava com aquele olhar invasivo, como se quisesse provocar, testar os limites. Otávio se segurava. Kelly evitava contato, desviava os olhos, mudava de caminho. Mas Rafael parecia gostar desse jogo sujo.
Até que veio o estopim.
Kelly estava saindo de uma sala apressada, os cachos soltos balançando levemente sobre os ombros, quando Rafael apareceu subitamente ao lado dela. E num movimento tão “acidental” quanto calculado, enroscou a ponta dos cabelos dela na camisa.
— Ih... — disse ele com um sorrisinho cínico, puxando levemente a blusa — Parece que seus cachos têm vida própria, Kelly. Sempre querendo se prender em mim...
Ela tentou soltar, sem conseguir.
— Por favor... deixa eu tirar — disse com a voz tensa, desconfortável, os olhos procurando socorro.
E foi aí que a porta se abriu.
Otávio apareceu. Alto. Imponente. Os olhos faiscando de raiva.
Kelly congelou.
— Amor, eu... — tentou explicar, mas a voz falhou, o coração disparado. O olhar de Otávio era um furacão prestes a explodir.
Rafael, com toda a sua cara de p*u, virou-se lentamente, sem nenhuma pressa, ainda com os dedos brincando com o fio de cabelo enrolado em sua camisa.
— Relaxa, cara. Foi só o cabelo dela que se prendeu aqui... — disse com sarcasmo no canto da boca, sem sequer fazer esforço real para soltar.
Otávio caminhou devagar até ele. Seus olhos ardiam de fúria. Com um puxão firme, ele soltou o cabelo de Kelly da camisa do desgraçado. Depois olhou bem dentro dos olhos de Rafael, com a voz baixa, mas ameaçadora como um trovão contido.
— Escuta bem o que eu vou te dizer... há meses eu tô me segurando pra não te quebrar inteiro. Mas se você continuar com esse olhar de cachorro no cio pra minha mulher... se você colocar mais um dedo nela... eu vou te arrebentar. Você não tem ideia do quanto eu tô me controlando.
Rafael riu. Um riso seco, desafiador.
— Tá exagerando, cara. Foi só um cabelo... calma aí.
Otávio deu um passo à frente, ficando a centímetros dele.
— Isso não é sobre cabelo. Isso é sobre respeito. E você passou do limite faz tempo. Não se esquece disso.
E então ele virou, pegou a mão de Kelly com firmeza e saiu dali, os passos pesados, o sangue fervendo. Kelly ia ao seu lado, ainda com o coração disparado, os olhos arregalados pela tensão, mas também... por saber que, mais uma vez, Otávio estava ali. Por ela. E que aquela guerra não tinha acabado.
Mas uma coisa era certa: ele não ia recuar.
Nem Rafael.
A tensão agora estava apenas começando.
A porta do apartamento bateu com um estrondo, como se fosse explodir nas dobradiças. Otávio entrou feito um furacão, o rosto vermelho, o maxilar travado, os olhos em brasa. Kelly entrou logo atrás, trêmula, tentando respirar, tentando entender como tudo saiu do controle tão rápido.
— EU NÃO ACREDITO, KELLY! EU NÃO ACREDITO! — ele vociferou, jogando a mochila contra o sofá com violência. — ATÉ QUANDO VOCÊ VAI FINGIR QUE NÃO VÊ O JEITO COMO AQUELE FILHO DA p**a OLHA PRA VOCÊ?!
— Otávio, pelo amor de Deus, eu não fiz nada! Eu juro! Eu nem percebi! Foi só meu cabelo que prendeu! — ela tentou argumentar, as palavras falhando entre os soluços.
— NÃO ME VEM COM ESSA, c*****o! — ele socou a parede com força, fazendo tremer a moldura da foto deles. — VOCÊ PASSA POR ELE, ELE TE SEGURA, ELE ENCOSTA EM VOCÊ E VOCÊ ACHA NORMAL?! VOCÊ ACHA QUE ISSO É COISA QUE ACONTECE POR ACASO?!
— Otávio, para, pelo amor de Deus... — Kelly chorava, nervosa, as mãos levantadas como quem pede trégua. — Eu tava saindo da sala apressada! Ele devia estar perto e prendeu meu cabelo sem querer! Eu não fiz nada!
— "SEM QUERER"?! — ele gritou, batendo a mão aberta sobre a mesa. — SEMPRE SEM QUERER! É SEM QUERER QUE ELE TE ELOGIA! É SEM QUERER QUE ELE SEGUE VOCÊ PELO CAMPUS! É SEM QUERER QUE ELE SE ENROSCA EM VOCÊ?! VOCÊ ACHA QUE EU SOU i****a?!
— Eu não tenho culpa do meu cabelo, você quer que eu corte agora?! É isso?! É isso que você quer?! Que eu fique feia, que eu desapareça, pra nenhum homem olhar pra mim?!
— EU QUERO QUE VOCÊ ENTENDA QUE VOCÊ É MINHA, c*****o! MINHA! — ele gritou tão alto que a própria garganta falhou. Seus olhos estavam vermelhos, o peito subia e descia descontrolado. — EU NÃO CONSIGO, EU NÃO CONSIGO VER AQUELE MERDA CHEGAR PERTO DE VOCÊ E FICAR QUIETO!
Kelly levou as mãos ao rosto, chorando mais alto, engasgada de dor e impotência.
— Otávio, eu não fiz nada! Eu nunca fiz nada! Você me culpa pelo quê? Por andar com meu cabelo solto? Por estudar? Por estar ali? Por existir?!
Mas ele nem ouviu. Ele andava de um lado pro outro, arrancando a camisa do corpo, jogando objetos pelo chão. Gritava palavrões, falava com os próprios pensamentos, perdido em sua fúria.
— Ele quer o que é meu! Ele fica me olhando, me desafiando! Aquele desgraçado tá zombando de mim! Eu vou acabar com ele! EU JURO, KELLY, EU VOU ACABAR COM ELE!
— ENTÃO ACABA COMIGO TAMBÉM! — ela gritou de volta, com os olhos cheios de lágrimas. — Porque a única coisa que eu fiz foi te amar! E você me trata como se eu fosse culpada por ser desejada, como se eu estivesse provocando! Eu não aguento mais!
Silêncio. Um silêncio que doía nos ossos.
Ela se virou, com o rosto coberto de lágrimas, e entrou no quarto. Não bateu a porta. Apenas fechou devagar. Se jogou na cama, ainda vestida, e ficou ali... quietinha, abraçada ao travesseiro, tentando respirar fundo e esquecer tudo que ouviu.
Do outro lado, na sala, Otávio socava o próprio peito, a parede, os pensamentos. Gritava, xingava, esmurrava o ar. Ele não sabia o que fazer com o que sentia. O ciúme o consumia, queimava por dentro, como ácido.
Mas no fundo... no fundo, ele sabia. Ele sabia que o problema não era ela. Nunca foi. E isso doía mais do que qualquer coisa.