Otávio parou à porta do quarto como se houvesse uma parede invisível entre ele e Kelly. O coração batia forte, o peito apertado, os olhos marejados de tanto remorso. A respiração dele estava acelerada, pesada, como se o ar estivesse carregado de culpa.
Lá dentro, a luz fraca do quarto iluminava Kelly sentada na beira da cama, de costas para a porta, a cabeça baixa, os ombros tensos. Ela não chorava mais, mas o silêncio dela era tão doloroso que rasgava por dentro. Ela parecia esgotada... exaurida por dentro e por fora.
Otávio entrou devagar, a voz trêmula:
— Kelly... amor... por favor... me desculpa... — ele se ajoelhou ao lado dela, tentando tocar sua mão. — Não me pune com teu silêncio... isso tá me matando.
Ela não respondeu.
Nem um olhar. Nem um gesto.
Nada.
Apenas aquele silêncio.
Otávio respirou fundo, passou as mãos no rosto, se levantou e saiu do quarto, engolindo o choro. Na cozinha, ouviu o barulho de panelas sendo tiradas do armário. Kelly preparou o jantar com gestos calmos, mecânicos. Fez arroz, frango assado e legumes, tampou a panela, limpou o fogão com delicadeza, como se fosse o único refúgio dela naquela noite.
Mas ela não comeu.
Foi direto para o banheiro, tomou banho demorado, vestiu um pijama leve, prendeu os cabelos ainda molhados e deitou sem dizer nada. Sem olhar pra ele.
Otávio ficou parado no corredor, vendo a mulher que amava se distanciar por inteiro. Tentou comer, mas o estômago embrulhava. Nada descia. Então ele deitou ao lado dela, com cuidado, estendeu o braço para abraçá-la...
Mas Kelly apenas afastou a mão dele.
Delicadamente.
Como quem diz: não.
Ele virou para o outro lado e chorou em silêncio.
Na manhã seguinte, o som do despertador foi a única coisa que quebrou a tensão. Kelly se levantou antes dele, se arrumou em silêncio. Calça jeans clara, blusa rosa, cabelos soltos. Estava linda, mas com o rosto ainda abatido. Pegou a bolsa, os cadernos e ficou parada na sala, esperando.
Otávio saiu do quarto e tentou se aproximar.
— Kelly... por favor... fala comigo... me perdoa, me desculpa... — ele sussurrou com os olhos vermelhos.
Ela apenas o olhou. Um olhar carregado de tristeza, mágoa e cansaço.
Não disse nada.
Na estrada, o silêncio no carro era insuportável. Ele tentou colocar a mão na coxa dela, como sempre fazia. Mas ela, firme, tirou a mão dele com um leve movimento e olhou com seriedade, deixando claro: não encosta.
Na faculdade, assistiram à aula em silêncio. Enquanto isso, Rafael — o safado — percebia tudo. Percebia o abalo, o distanciamento, e sorria com desdém, como quem se alimentava da ruína dos outros.
Depois da aula, Kelly saiu sozinha para o pátio. Precisava respirar. Pensar. As lágrimas voltaram sem que ela quisesse.
Luísa, Renata, Carla e Isadora se aproximaram rápido.
— Kelly? O que houve? — Renata perguntou, vendo os olhos molhados da amiga.
Kelly respirou fundo, enxugando o rosto:
— Ele surtou... por causa do Rafael. Achou que eu tive culpa. Gritou... xingou... foi horrível. Eu não fiz nada... e mesmo assim ele não acredita em mim...
As meninas a abraçaram imediatamente, formando um escudo de amor ao redor dela. Todas indignadas, mas principalmente com o coração partido por ver a amiga tão machucada.
Enquanto isso, do outro lado do campus, Otávio desabava com João, Caio e Leandro:
— Eu gritei, mano... eu gritei com ela. Fui um i****a! Eu não sei o que deu em mim. Eu só fiquei cego de ciúmes... ver aquele babaca mexendo com o cabelo dela... Eu surtei!
— Você ama ela, Otávio. A gente sabe disso, — disse João. — Mas ciúmes sem controle vai destruir tudo.
Otávio segurava a cabeça entre as mãos, o rosto afundado em arrependimento:
— Ela é a minha vida. Eu não sei o que fazer se ela me deixar.
E naquele momento, o silêncio de Kelly doía mais que qualquer grito.
já em casa...A mesa posta, a luz baixa da cozinha, o silêncio pesado preenchendo o ambiente. Eles sentaram um de frente para o outro, o jantar à frente, mas nenhum dos dois tinha fome. Otávio encarava Kelly com olhos ardendo de desespero, a voz quase um sussurro trêmulo, quebrando aquele silêncio frio:
— Amor, por favor... — começou, tentando juntar coragem. — Grita comigo. Me bate, se quiser. Joga as coisas no chão. Só... não fica em silêncio. Por favor... eu errei. Eu não devia ter ajudado assim. Você não tem culpa, amor, de ser tão bonita. De ser tão inteligente. De desejar esse cara. — A voz dele quebrou na última frase, a dor escorrendo. — Mas eu fui um i****a. Eu errei. Por favor, me desculpa.
Kelly só olhou para ele. Sério. Com os olhos marejados. Mas não disse uma palavra. Continuou a mastigar o que tinha no prato, devagar, quase como um ato de resistência silenciosa.
Otávio a observou por longos segundos, sentindo cada pedaço daquele silêncio como punhaladas.
Sem conseguir suportar, ele levantou a cadeira lentamente, deixou o prato intocado na mesa e saiu sem dizer mais nada.
Kelly ficou ali, imóvel, até ele sumir da cozinha.
Mais tarde, no quarto, ela escovou os dentes e se deitou em silêncio, os olhos ainda marejados, enquanto ele permanecia na mesa da cozinha, sozinho.
Sentado, com a cabeça entre as mãos, Otávio deixou as lágrimas rolarem soltas.
— Um idiota... eu fui um idiota... — repetia baixinho para si mesmo, sufocado pela culpa.
Otávio pegpu o celular e ligou para sua irmã...
— Helena... — sua voz saiu rouca, tensa, carregada de tudo que ele não conseguia dizer ao vivo para Kelly. — Eu perdi o controle. Eu gritei, xinguei, fiquei fora de mim. Eu me transformei num monstro que eu nem reconheço mais.
Ele engoliu a própria saliva, as mãos tremendo.
— Mas não foi só isso, não é? — continuou, com a voz já embargada, misturando arrependimento e fúria. — O que me destrói é pensar naquele maldito, naquele safado do Rafael... Ele teve a ousadia de enrolar o cabelo da Kelly na camisa dele. Pensa nisso! Ele fez isso de propósito! Enrolar o cabelo dela, como se fosse um brinquedo, uma provocação, um insulto direto para mim!
A voz dele aumentou, cheia de ódio, como um trovão quebrando o silêncio da noite.
— E ele ainda sorriu, Helena! Sorriso sarcástico, escárnio na cara! Como se dissesse que podia fazer o que quisesse, que eu não ia conseguir fazer nada!
Por um instante, Otávio parecia prestes a explodir, a voz cheia de raiva quase quebrando tudo à sua volta.
— Eu juro, eu queria arrancar ele dali, partir pra cima, mostrar que a Kelly não é brinquedo de ninguém! Mas eu não posso. Eu não quero que ela sofra, que perca a bolsa, a faculdade... — a voz baixou, virando um sussurro angustiado. — Eu só queria... só queria proteger ela, mas eu só estraguei tudo.
Ele sentiu a dor apertar o peito, o arrependimento esmagando sua alma.
— Eu fui um i****a, Helena. Um i****a cego pelo ciúme que quase destruiu a mulher que eu mais amo na vida.
O silêncio do outro lado da linha foi só uma confirmação silenciosa, enquanto Otávio, com lágrimas nos olhos, tentava encontrar forças para não se perder naquele turbilhão.
Otávio apertava o telefone contra o peito, o som da voz da Helena chegando como um bálsamo, mas também como um alerta cortante.
— Irmãozinho, me escuta — disse Helena, firme e amorosa ao mesmo tempo —. Você sempre foi fulminante, sempre protetor. Principalmente comigo, sendo seu irmão mais velho. Você sempre foi extremamente protetor, irmão. Mas agora você precisa mudar.
Ele engoliu em seco, os olhos marejados, a garganta apertada demais para falar.
— Aquela... ela te ama — continuou Helena, com uma voz cheia de carinho, mas com uma firmeza que pesava em cada palavra —. Mas ela vai deixar você se continuar assim. O tratamento de silêncio é porque ela te ama. Porque se não quisesse mais nada com você, ela já teria ido morar no campus. Você sabe que é só ela chegar até a diretora e pedir. Um quarto que a diretora consegue no mesmo momento.
A voz dela, calma e verdadeira, cortava como uma faca dentro dele.
— Meu irmão, se você continuar assim, vai estragar tudo. Vai destruir a família toda, os sonhos dela, o prestígio que ela tem. Você vai chegar aqui, e eu vou ter que apertar sua mão para dizer que você perdeu a mulher que ama — concluiu, com a voz embargada de tristeza.
Do outro lado da linha, Otávio não conseguia responder. Só chorava, sentindo o peso de cada palavra. A voz da Helena era a única coisa que o mantinha firme, enquanto ele se afogava no arrependimento e na dor profunda de seu ciúme descontrolado.