No final da tarde, enquanto o céu começava a escurecer, o celular de Kelly vibrou em cima da mesa. Ela olhou para a tela. Otávio também.
Amanda.
Kelly encarou o nome por alguns segundos, o coração acelerando, não de saudade ou nervosismo — de nojo. Ela pegou o celular, colocou no viva-voz e atendeu sem dizer nada.
Do outro lado da linha, Amanda chorava compulsivamente, com a voz trêmula, descontrolada.
— Me perdoa, Kelly… pelo amor de Deus, me perdoa… por que você fez isso comigo? Você destruiu meu namoro! Você contou pra todo mundo o que eu fiz… agora meus pais sabem de tudo! Fui expulsa de casa, Kelly! Meus pais me botaram pra fora! Por que você fez isso comigo?! Você destruiu a minha vida!
Kelly respirou fundo. Sentiu o sangue ferver nas veias. Apertou as mãos de Otávio, que estava ao seu lado com os olhos cerrados e o maxilar travado de ódio.
Então ela falou. Fria. Firme. Rasgando cada palavra com uma dor que vinha de anos de engano.
— Eu destruí sua vida, Amanda? Jura? Você tem coragem de me dizer isso?
Ela riu, amarga, a voz falhando de raiva contida.
— Eu vivi todos os anos da minha vida te tratando como uma irmã. Mesmo a gente tendo a mesma idade, eu sempre te protegi como se fosse mais velha. Quando você começou com aquela palhaçada de ficar com professor, eu fui a única que disse que era errado. E ainda assim, calei a boca. Fiquei do seu lado. Respeitei a sua escolha de "viver aquilo", mesmo achando um absurdo.
Otávio apertou ainda mais a mão dela, o peito inflando de fúria. Mas Kelly continuava. Agora a voz vinha com o peso de todas as verdades guardadas.
— Eu fiz todos os seus trabalhos. Mesmo quando o meu próprio namorado era contra. Mesmo quando eu tava cansada, ocupada, sobrecarregada… eu fiz. E pra quê? Pra no final você não saber responder uma simples pergunta e me atacar. Dizer que eu queria ser melhor que você. Que eu era “perfeitinha”. Não, querida. Hoje eu vejo com clareza: quem sempre quis ser melhor do que eu… foi você.
— Você sempre tentou me diminuir, Amanda. Sempre. Sempre tentou me apagar pra brilhar sozinha. Você só ficou conhecida como nerd porque andava comigo — porque de nerd você nunca teve nada. Quem fazia os trabalhos em dupla? Eu. Quem carregava nas costas? Eu. Você era só a sombra, e mesmo assim vivia tentando achar defeito em mim.
Kelly se levantou do sofá, como se não coubesse mais dentro do próprio corpo de tanta indignação. Andava de um lado pro outro enquanto falava, e a respiração de Otávio pesava junto com ela, como se ele também fosse explodir.
— Me criticava porque eu não ficava com ninguém. Me chamava de boba, de ingênua, de travada. Mas quando Otávio apareceu… ah, aí a sua máscara caiu. Carne nova, né? Chegava de carro, de moto… você já tinha passado por quase todos, então decidiu cismar com ele. Mas adivinha? Ele nunca te olhou.
Ela virou-se para Otávio e ele apenas a encarou com olhos ardendo.
— Você tentou me diminuir mais ainda. Me jogou pra cima daquele doente que quase abusou de mim. E quando eu te contei que o Otávio me salvou, você teve a coragem de dizer “menina, você dá uma sorte”. Sorte, Amanda?! Você queria que ele me fizesse m*l, pra poder dizer que eu era igual a você. Mas não contava que o Otávio tava apaixonado por mim. Que ele ia me proteger. Que ele nunca teve olhos pra você.
Do outro lado da linha, Amanda chorava mais ainda.
— Eu sei, Kelly, eu sei… eu errei, tá bom? Me desculpa! Eu queria ele sim, mas ele nunca olhou pra mim, só pra você, mesmo você sendo toda… ingênua…
Kelly explodiu.
— Ingênua?! Por eu ser “ingênua” que eu conquistei ele! Por eu ser verdadeira!
E quando eu tentei mudar pra ser como você… com o Gabriel… você destruiu meu namoro Kelly...
Amanda, você destruiu tudo sozinha! Se você realmente quisesse mudar, não teria traído ele! Você jogou no lixo tudo o que tinha! E agora vem me culpar?
Ela olhou o celular, os olhos ardendo de fúria e mágoa.
— Você destruiu sua própria vida, Amanda. Eu só cansei de acobertar. Agora faz um favor pra mim…
Ela respirou fundo. E finalizou com uma voz cortante como navalha.
— Apaga meu número. Esquece meu endereço. Nunca mais me liga. Nunca mais. Você morreu pra mim.
Kelly desligou.
Otávio levantou, foi até ela e a abraçou forte. Os dois ficaram ali, em silêncio, só com a respiração ofegante e os corações ainda acelerados. Mas naquele abraço, Kelly não estava mais sozinha. Agora ela sabia: ela era forte. E estava cercada de quem realmente importava.
Amanda continuou com o celular na mão, ouvindo o som do “chamada encerrada” no viva-voz. Por um segundo, ela ficou paralisada, encarando a tela como se aquilo fosse uma piada de mau gosto. Como se a Kelly, em algum momento, fosse retornar e dizer que estava tudo bem.
Mas não estava.
Ela jogou o telefone no chão com força, o grito preso na garganta escapando em forma de soluço alto e dolorido. Caiu de joelhos no chão do quarto, o rosto molhado pelas lágrimas, os cabelos desgrenhados, o peito arfando. A casa estava em silêncio, e pela primeira vez… ela também estava sozinha. De verdade.
— Ela me odeia… ela me odeia… ela nunca mais vai me perdoar…
A voz dela saía baixa, arranhada, como se tivesse sido engolida por dentro por todos os erros cometidos. O peso da verdade caiu sobre Amanda como uma avalanche.
Ela sabia.
Sabia que tinha passado dos limites.
Sabia que desde o início, lá no fundo, sempre tentou competir com Kelly — e perdia. Tentava apagar o brilho da amiga porque sabia que nunca conseguiria ter aquilo sozinha. Nunca foi vista como referência. Só era “a amiga da Kelly”. E isso doía. Então ela tentou ser mais. Mesmo que para isso tivesse que pisar em quem estendia a mão.
Ela levou a mão à boca, abafando o choro desesperado.
— Eu estraguei tudo… tudo…
A mente girava em mil pensamentos. Lembrou-se do dia em que Kelly a defendeu na sala dos professores. Do dia em que ela chorou no banheiro por ter tirado nota baixa e Kelly largou a própria prova pra consolar. Dos finais de semana que passavam juntas, das risadas, dos segredos. E depois, lembrou-se de como ela começou a mudar. Quando a inveja foi tomando espaço. Quando começou a sabotar Kelly sem perceber. Ou talvez… percebendo, sim. Mas negando pra si mesma.
Agora era tarde.
Os pais não a queriam mais. Gabriel a bloqueou. Kelly… havia enterrado o nome dela.
Ela se encolheu no chão como uma criança, abraçando as pernas, tremendo. E a única coisa que conseguia dizer, num sussurro sujo de culpa e solidão, era:
— Desculpa, Kelly… por favor, me desculpa…
Mas Kelly não estava mais ouvindo.
E talvez nunca mais fosse ouvi-la.
Algumas semanas depois…
Kelly estava sentada no sofá com a mãe, trocando mensagens com Otávio, quando uma notificação surgiu no grupo da escola. Era uma foto m*l enquadrada, tirada discretamente por alguém dentro de um bar. O foco da imagem era Amanda — dançando no palco com roupas curtas, cercada por luzes de neon, música alta, mulheres bêbadas gritando e jogando dinheiro no chão.
Kelly paralisou.
Ampliou a imagem e teve certeza.
— É ela… — sussurrou, o peito afundando num misto de choque e tristeza.
— O que foi, minha filha? — a mãe perguntou preocupada, pegando o celular das mãos dela. Bastou um segundo para o semblante da mulher endurecer.
— Amanda?
Kelly abaixou a cabeça e respirou fundo, com os olhos marejando, mas sem deixar uma lágrima cair.
— É triste, mãe… Antes ela ficava com homens por diversão, por escolha, fazia o que queria… Errado, sim, mas era uma escolha. Agora não… Agora é obrigação. É tortura. Mas… fazer o quê? Ela escolheu esse caminho. Destruiu tudo com as próprias mãos.
— E os pais dela, Kelly? Eles sabem disso?
— Vão descobrir. E vão se decepcionar, muito. Eles me culparam por ter contado a verdade… Mas agora… Agora eles vão ver no que ela se meteu de verdade. E não tem mais volta.
A mãe de Kelly sentou ao lado dela e segurou sua mão.
— Você tentou. Você foi além do que qualquer amiga faria. Se ela não soube valorizar, se perdeu. Mas você… você não vai se afundar junto. Você é diferente.
Kelly encarou a imagem da Amanda no celular mais uma vez. O olhar vazio, o sorriso forçado, o corpo ali… mas a alma claramente em pedaços.
Ela apagou a foto.
— Eu não odeio ela, mãe. Mas também não sinto pena. Ela teve tudo. E jogou fora. O que resta agora é consequência.
E pela primeira vez, Kelly sentiu que estava realmente deixando Amanda no passado.