O resgate da amanda

1170 Words
No dia seguinte… Os pais de Amanda estavam sentados à mesa da cozinha, tomando café em silêncio. O clima em casa já era tenso desde que Amanda fora expulsa. Mas nada poderia prepará-los para o que estavam prestes a descobrir. A mãe dela recebeu uma mensagem de uma conhecida, com o link de um vídeo gravado dentro de um bar noturno feminino. Com o coração acelerado, ela clicou. Amanda aparecia dançando no palco, visivelmente desconfortável, usando um figurino chamativo. Em certo momento, alguém jogava uma bebida no chão e Amanda se abaixava para limpar, enquanto outras mulheres riam. O vídeo terminava com uma delas agarrando Amanda à força. — Não… não é possível… — a mãe murmurou, a xícara escorregando de suas mãos e se espatifando no chão. O pai correu para ver. — Meu Deus… nossa filha… Ambos ficaram em silêncio, devastados. A vergonha queimava como fogo, mas era o desgosto e a impotência que mais doíam. Eles perceberam que tinham perdido a filha para um mundo do qual talvez ela não conseguisse mais sair. — Naquela mesma noite, no bar… Amanda estava sentada no camarim do bar, com maquiagem borrada e olheiras profundas. Suas mãos tremiam. Pegou o celular escondido no bolso do moletom, entrou no banheiro e trancou a porta. Digitou o número de Kelly. Ligou. Chamando… Kelly estava em casa, deitada no colo de Otávio, assistindo a um filme. O celular vibrou. Ela olhou o número e bufou. — De novo… — murmurou. — Atende, se quiser. — disse Otávio, firme, mas respeitoso. Kelly respirou fundo. Atendeu. No viva-voz. — Kelly… sou eu. Me atende, por favor. Só escuta. Eu não aguento mais. Eu tô num inferno. Isso aqui é um inferno! Me pegaram no braço hoje. Eu não queria dançar. Eu tô com medo. Eu tô suja, Kelly… — a voz da Amanda era de puro desespero. Chorava compulsivamente. — Me tira daqui. Me perdoa. Me ajuda. Eu sei que eu não mereço… mas eu não tenho mais ninguém… Kelly não disse nada por alguns segundos. Até que: — Você jogou tudo fora, Amanda. A minha confiança. O meu carinho. A nossa história. Você me vendeu, me traiu, me humilhou. E agora quer que eu te salve? Amanda soluçava do outro lado. — Eu sei… eu sei… mas eu tô com medo, Kelly. Eu juro por Deus, eu não sei mais como sair daqui. Kelly olhou para Otávio. Ele encarou-a, tenso, preocupado. Ela fechou os olhos e respirou fundo. — Me manda o endereço. — disse, com a voz firme. — Eu não vou por você. Vou por mim. Porque mesmo depois de tudo… eu não quero ver mais uma alma sendo destruída. Mas isso não significa que vai ser como antes. — Não vai, eu sei… só me tira daqui. Por favor. — Amanda chorava como uma criança abandonada. Kelly desligou o telefone. E pela primeira vez… ela não sentiu raiva. Sentiu pena. Mas acima de tudo, sentiu que tinha vencido o pior: Amanda não a destruíra. E agora… era ela quem estava de pé. Mais tarde naquela noite… O bar estava em meia-luz, a música alta e abafada por conversas e risadas. Mas naquele instante, um burburinho começou. Portas se abriram com força. Policiais entraram com autoridade, afastando mulheres que tentavam impedir a passagem. Kelly entrou logo atrás, ao lado de Otávio. Os olhos dela estavam secos, duros. Já os de Amanda, no canto do bar, estavam desesperados. Ela correu até Kelly ao vê-la: — Kelly! Me perdoa, por favor! — Amanda gritava, com maquiagem borrada e um roxo no braço visível. Dois policiais a ampararam e a levaram até a saída. Kelly a seguiu em silêncio. Otávio ficou ao lado dela o tempo inteiro, sério, mas pronto para protegê-la de qualquer confusão. — Dentro do carro… Otávio dirigia com firmeza. A cidade passava pela janela como um borrão, enquanto Amanda, sentada no banco de trás, soluçava sem parar. — Kelly, por favor. Me perdoa. Eu errei… Eu só queria ajuda… Eu tava com medo… Eu não queria mais… Kelly apenas olhou pela janela. A mão de Otávio repousava carinhosamente sobre a coxa dela, como quem a ancorava no presente. — Amanda, não quero te ouvir. Por favor. Amanda tentou conter o choro, mas a dor era muita. Kelly respirou fundo. — A única coisa que eu fiz foi te tirar daquela vida. Eu espero de coração que você nunca mais volte pra isso. Porque aquilo… não é vida. — Quer trabalhar? Arruma um emprego numa loja, numa lanchonete, num mercado… mas não se venda assim. — Se valorize pelo menos um pouco. O silêncio voltou a preencher o carro até que pararam em frente à casa dos pais de Amanda. Amanda hesitou. — Eles não vão me deixar entrar, Kelly. Eu tô suja… Eu tô machucada… Kelly virou-se para ela, com firmeza nos olhos: — Então eu resolvo isso. Ela desceu do carro e caminhou até a porta da casa. Tocou a campainha com firmeza. Poucos segundos depois, a porta se abriu. — Senhora Roberta. Senhor Rogério… — disse Kelly com a voz clara, firme. — Eu e meu namorado fomos buscar a Amanda. No bar de mulheres. — Ela estava destruída. Machucada. De tanto que foi torturada lá dentro. Ela me ligou pedindo socorro. E nós a resgatamos com apoio da polícia. Os pais da Amanda estavam em choque, olhos arregalados, silenciosos. — O que eu podia fazer, eu fiz. Eu trouxe de volta. Eu entendo o que vocês sentem. Mas vocês são os pais dela. Vocês decidem agora. Mandem pra uma clínica, pra casa de alguém, ou deem dinheiro pra ela alugar um lugar. Mas pelo amor de Deus, não deixem que ela volte pra aquele bar. — Porque se ela voltar… ela vai procurar por mim. E eu não posso mais viver isso. Eu vivi a vida inteira protegendo essa garota. E agora… agora eu não quero mais. Roberta chorava. Rogério passou a mão pelo rosto e disse com voz embargada: — Kelly… você é uma mulher muito boa. Ele a puxou para um abraço. Roberta fez o mesmo. Foi quando eles caminharam até o carro. — Vem, filha. Vem com a gente. — disse a mãe, abrindo os braços. Amanda saiu devagar do carro, cambaleando. Suja, machucada, com os olhos fundos. Ela se jogou nos braços dos pais. Antes de entrar, olhou para Kelly uma última vez. — Me perdoa, Kelly… por tudo… Kelly respirou, com os olhos marejados, mas a voz firme: — Você está perdoada, Amanda. Eu só não quero mais saber de você. — Desejo que você fique bem. Que viva em paz. E que deixe seus pais cuidarem de você. Amanda caiu em lágrimas, abraçada à mãe. Kelly voltou ao carro. Otávio a esperava de portas abertas. Ela entrou, e ele a puxou para perto, beijando sua testa antes de dar partida. A estrada à frente era calma. Kelly encostou a cabeça no ombro dele. Pela primeira vez em anos… ela estava em paz.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD