As luzes da cidade ainda refletiam nas poças de chuva quando Otávio entrou em casa. A porta se fechou atrás dele com um estalo seco. O silêncio do apartamento contrastava com o turbilhão dentro do seu peito. A noite tinha sido longa. O encontro com os amigos havia começado com risadas, piadas antigas, lembranças da faculdade, mas terminou em um redemoinho de raiva, indignação e ciúme queimando cada célula de seu corpo.
Otávio estava levemente bêbado, mas sóbrio o suficiente para sentir o veneno do que estava atravessando seu coração.
No quarto, Kelly dormia serena, deitada de lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, o rosto iluminado apenas pela luz fraca que entrava pela janela entreaberta. Ela parecia tão distante da guerra que estava explodindo dentro dele… tão alheia à tensão que tomava conta dos seus pensamentos.
Ele se aproximou da cama com passos lentos, ajoelhou-se ao lado dela, e com os olhos marejados pela mistura de álcool e sentimentos, sussurrou:
— Eu vou te proteger a todo custo, minha princesa. Ninguém vai chegar perto de você… ninguém.
Levantou-se sem fazer barulho e foi direto ao banheiro. Deixou a água do chuveiro cair sobre a nuca, os ombros, o peito. Tentava lavar a raiva, o ciúme, o medo de perdê-la. Mas não havia água fria o bastante pra apagar o fogo que Rafael tinha acendido em seu peito.
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Kelly acordou cedo no dia seguinte, como sempre fazia. Colocou um moletom confortável, prendeu o cabelo em um coque e foi até a cozinha preparar o café da manhã. A casa ainda estava em silêncio, mas havia uma inquietação pairando no ar. Era como se algo estivesse quebrado — não entre os móveis, mas entre os dois.
Ela montou a mesa com carinho: pão na chapa do jeito que ele gostava, café forte, suco natural. Quando ouviu os passos dele se aproximando, seu coração apertou. Otávio surgiu na cozinha com o rosto fechado, os olhos sombrios e uma tensão evidente nos ombros. Não disse nada. Apenas se sentou à mesa e começou a comer em silêncio.
Kelly sentou-se à sua frente, observando cada movimento. Não conseguia mais aguentar aquele clima.
— Amor… — ela disse, com doçura, mas firmeza. — A gente precisa conversar.
Ele ergueu os olhos devagar. O olhar carregado. A mandíbula cerrada.
— O que tá acontecendo? — ela insistiu. — Fala pra mim. Tudo o que você está sentindo. Por favor.
Otávio pousou os talheres na mesa, respirou fundo e finalmente explodiu:
— É o Rafael. Aquele desgraçado. Eu não aguento mais ver a forma como ele olha pra você. Aquilo não é admiração. É desejo. É falta de respeito. E você sabe disso, Kelly!
Ela arregalou os olhos, surpresa com a intensidade. Mas deixou que ele continuasse.
— Eu tô me segurando, tentando manter a calma, tentando ser racional… mas toda vez que ele te encara, é como se ele me dissesse com os olhos que você pode ser dele. Como se ele tivesse algum direito sobre você. E o pior… é que você nem percebe!
— Otávio…
— Não, deixa eu terminar! — ele interrompeu, com a voz falhando. — Você é minha mulher. E eu sei que confio em você. Mas tá doendo, Kelly. Tá doendo pra c****** ver ele cruzando todas as linhas, sorrindo enquanto você apresenta um trabalho, te observando como se já tivesse imaginado você pelada na frente dele. E isso me dá vontade de arrebentar a cara dele.
Ela respirou fundo, tentando conter as lágrimas que começavam a surgir. A dor dele era real, e ela precisava mostrar que o amor deles era mais forte do que tudo isso.
— Otávio, meu amor… — ela começou, com a voz baixa. — Eu nunca dei a******a pra ele. Eu não posso controlar o olhar de ninguém. Eu tô ali, focada nos meus estudos, nas apresentações, nos debates. O que ele pensa ou sente é problema dele. Mas eu jamais dei sequer um motivo pra você duvidar de mim.
Ela levantou-se, caminhou até ele e sentou-se no colo dele, segurando seu rosto com as duas mãos.
— Você é o homem com quem eu durmo todas as noites. É com você que eu acordo todos os dias. É pra você que eu me arrumo. É por nós que eu luto. Eu te amo, Otávio. E só você. Então, por favor, não deixa esse i****a destruir a gente. Ele não tem esse poder. A menos que você dê isso a ele.
Otávio não conseguia esconder as lágrimas que começaram a escorrer. Sua expressão tensa desmoronou no colo dela. Ele a abraçou com força, como se pudesse fundi-la ao corpo.
— Desculpa, meu amor… — murmurou. — Eu só tenho medo. Medo de perder você. Porque você é a única coisa que faz tudo valer a pena.
— E você não vai me perder. Porque eu sou sua. Só sua. — ela respondeu, colando os lábios nos dele num beijo demorado, carregado de promessas e amor.
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Naquela noite, Otávio estava mais calmo. Mas ainda atento. Ainda em guarda. O veneno do ciúme não desaparecia tão facilmente. Ele sabia que o tal Rafael continuaria lá, circulando, olhando, desejando. Mas agora, com Kelly ao seu lado, com a verdade dita entre os dois, ele tinha uma nova força dentro de si: o amor. E se esse amor fosse ameaçado, ele seria capaz de tudo. De tudo.