06 - Letícia

1255 Words
Letícia Narrando Depois de chorar a noite inteira, dormir soluçando, daquele jeito feio mesmo, acordei com a cabeça latejando. Parecia que alguém tinha batido um tambor dentro do meu crânio. Olhos inchados, ardendo, coração pesado. Vontade zero de levantar. Mas a vida não pausa porque a gente tá quebrada por dentro. Me arrastei pra fora da cama, fui direto pro banho. A água quente ajudou a aliviar um pouco a dor e a confusão. Fiquei ali parada alguns minutos, deixando cair, respirando fundo, tentando juntar os pedaços. Quando saí, fiz uma make caprichada. Nada exagerado, mas bem feita. Não vou sair por aí com cara de pobre coitada. Chorar é humano, parecer fraca pro mundo não é opção. Me arrumei, vesti uma roupa confortável, mas bonita. Desci e tomei café com a minha mãe. Meu pai já tinha saído cedo, como sempre. Ela me olhou daquele jeito de mãe que enxerga tudo, mas respeita o silêncio. — Seu pai tá feliz com a liberdade do Coringa — ela comentou, mexendo o café. Sorri de leve. Um sorriso automático, educado. Não era mentira, mas também não era toda a verdade. — Ele sempre gostou dele — respondi, dando um gole. Cada uma foi pro seu carro e seguimos pra ONG. Assim que cheguei, fui direto pra minha sala. Tomei um remédio, antes da Papelada, projetos, relatórios. Trabalho ajuda a ocupar a mente, ainda mais quando a cabeça insiste em ir pra onde não deve. Eu tava concentrada quando a porta abriu sem bater. — Bom dia, Minha Best — Milene entrou toda solta, jogando a bolsa na cadeira. Revirei os olhos. — Bom dia, Milene. Educação passou longe hoje? Ela riu e sentou na minha frente. — Vim te atualizar. O Cazuza já espalhou pra geral que tá solteiro. Levantei a sobrancelha. — E ? — E a Evelyn tá se achando. A mulher do bandidão — ela completou, cheia de ironia. Não aguentei e sorri. — Cada um vive a ilusão que consegue sustentar. Milene me olhou sério por dois segundos e depois soltou: — Você errou. — Errei onde? — perguntei, já imaginando a mërda. — Era pra ter enfeitado a cabeça dele também, antes de separar. Fechei a cara na hora. — Milene, filtra o que fala. Ela fez cara de inocente. — Ué, só tô sendo sincera. — Você é assim mesmo, sem filtro nenhum — respirei fundo. — Você me ama? Ela riu alto. — Amo, né. Por quê? — Porque uma atitude dessas me deixaria careca, você sabe como o Romano é. Ela deu de ombros. — Não, você só estaria devolvendo. E olha, eu sou professora, mas nesse caso, seria sua advogada de defesa. Não segurei o riso. Balancei a cabeça, derrotada. — Você não presta. — Presto sim. Só não passo pano pra homem safädo. Que ódio, se fosse comigo, eu pegava o melhor amigo dele. Botava pra füder. — Milene, Chega! Ficamos conversando mais um pouco. Ela me contou que na noite anterior foi ver o pai dela. Disse que não conversaram, tava tendo festa lá. E a marmita dele tava lá. Milene não suporta a Laura. — Vou lá, depois a gente se fala. — Vai com Deus — respondi. No horário de almoço, voltei pra casa. Precisava respirar outro ar. Tomei outro banho, troquei de roupa, me arrumei com calma. Almocei algo leve, sentada à mesa, em silêncio. A casa vazia ajuda a organizar os pensamentos, mesmo quando eles doem. Depois, peguei minhas coisas e fui pra escola. Meu segundo horário do dia. Outro ambiente, outras crianças, outra versão de mim mesma. A professora firme, paciente, que sorri, que ensina, que acolhe. Enquanto saí pelo portão, senti aquele aperto conhecido no peito. Mas segui em frente. Porque, no fim das contas, a vida não espera a gente se recompor. A gente vai vivendo, mesmo com os olhos inchados, a cabeça doendo, e o coração tentando aprender a ficar inteiro de novo. Assim que cheguei na escola, respirei fundo antes mesmo de atravessar o portão. Aquele lugar sempre teve um efeito quase mágico em mim. Mesmo nos dias em que eu tô em frangalhos por dentro, ali eu viro a tia Lelê, e isso carrega uma responsabilidade bonita demais pra ser deixada de lado. Peguei o cartaz colorido que eu mesma preparei e colei bem na entrada. Era dia da nossa dinâmica do afeto. Sempre que faço isso, eles já sabem: formam uma filinha toda organizada, do jeitinho desorganizado deles e escolhem como querem começar nossa aula. Um abraço, um toque de mão ou um beijo no rosto. Parece simples, mas pra eles é tudo. E pra mim também. Hoje foi diferente. Acho que meus pequenos sentiram. Não sei explicar como criança percebe essas coisas, mas percebe. Mesmo eu sorrindo, cantando, fazendo voz fina, dançando igual doida, eles sentiram que a tia aqui tava em pedaços por dentro. Um por um, eles foram batendo no cartaz. Abraço. Abraço. Abraço. Nenhum escolheu outra coisa. Todos queriam abraço. Me segurei como pude. Quando o primeiro envolveu seus braços no meu pescoço e falou baixinho: — Eu te amo, tia Lelê. Meu peito apertou de um jeito que quase faltou ar. Outro veio logo depois, apertou forte e disse: — Você tá linda hoje, tia. Sorri. Sorri grande. Sorri com os olhos marejados, segurando o choro com unha e dente. Não era hora de desabar. Não ali. Eles não têm culpa das dores dos adultos. Dei minha aula como sempre. Letras, números, histórias. Fizemos roda, cantamos, erramos juntos, acertamos juntos. Depois veio a recreação, aquela bagunça gostosa que eles amam, e eu mais ainda. Corri, brinquei, fiz cara feia, fiz cócegas, gritei: Olha o pega! Esses momentos com as minhas crianças me curam de um jeito que nenhuma terapia no mundo explica. Aqui eu não sou a mulher traída, a gordinha rejeitada, a que perdeu tempo com quem não merecia. Aqui eu sou referência, sou porto seguro, sou amor. Quando o sinal tocou e os pais começaram a chegar, fui organizando a saída, abraçando mais uma vez, desejando boa tarde. Aos poucos a sala foi esvaziando. Peguei minha bolsa, desliguei a luz da sala e segui em direção ao portão. Foi aí que eu vi. Um homem forte, tatuado, postura de quem manda sem precisar falar alto. Lindo, imponente, mas com um olhar duro, pesado. Não precisei de ninguém me dizer quem era. Só podia ser ele. O Coringa. Pelo tanto de homem atrás, pela forma como o espaço ao redor parecia respeitar a presença dele. Meu coração deu um pulo estranho. Não de interesse. De impacto. E então, como se o universo quisesse testar minha sanidade, vi Cazuza ali, no meio deles. Senti o estômago revirar. Não parei. Não encarei. Mantive a cabeça erguida, atravessei a calçada como se nada daquilo tivesse me atingido. Entrei no carro, fechei a porta e só aí soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Minhas mãos tremiam quando peguei o celular. Disquei sem pensar duas vezes. — Doutor Gaspar? — falei assim que ele atendeu. — Letícia, tudo bem? — Por favor, prepare o meu divórcio. Quero tudo agilizado. Eu pago o que precisar. Houve um pequeno silêncio do outro lado. — Tem certeza? — Tenho. Absoluta. Desliguei. A mulher que um dia amou demais, que se diminuiu, que aceitou migalhas, tá aprendendo. Aprendendo a se respeitar. Aprendendo que amor não humilha. E que, às vezes, a maior prova de força é escolher ir embora de onde nunca foi valorizada.
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