05 - Coringa

1125 Words
Coringa Narrando O dia amanheceu diferente. Não foi o sol, não foi o barulho do morro acordando, fui eu. Acordei sem susto, sem apito, sem grito de guarda. Abri o olho devagar, esticado na minha cama, teto conhecido acima de mim. Fiquei uns segundos parado só sentindo. Carälho, livre. Levantei sem pressa. Fui pro banheiro e abri a torneira. Água caindo sem ninguém berrando pra desligar. Só isso já é coisa de outro mundo. Peguei a lâmina, espuma na cara, comecei a fazer a barba com calma. Sem contar minuto, sem alguém enchendo o saco na porta. — Isso aqui é luxo pra quem já foi jaula — falei sozinho, rindo de canto. Entrei no banho depois. Água quente, demorando. Deixei cair no corpo como se estivesse lavando vinte anos de cadeia. Fechei o olho. Respirei fundo. Nada de pressa. Nada de: acabou o tempo. Só eu. Me vesti no estilo de sempre. Roupa leve, corrente no peito, pistola na cintura. Costume antigo. Desci. Lá embaixo já tava tudo pronto. Mesa arrumada, café passado, pão quente, ovo, fruta. Coisa simples, mas feita com cuidado. Sentei, comi devagar. Saboreando. Isso também tinha me faltado: comer sem vigia, sem barulho de ferro. O Romano encostou logo depois. — Bom dia, chefe. — Bom pra quem tá vivo — respondi. Terminamos o café e já partimos. Ele me entregou a chave de uma moto. — Bora dar uma volta. Subi na moto, e quando a gente começou a rodar pelo Salgueiro, meu peito apertou de um jeito bom. Carälho que saudade eu tava disso. Do vento batendo, do cheiro do morro, do som da quebrada viva, lutando pra se manter de pé. Os moleque tudo homem agora. Os que eu deixei moleque, hoje é tudo vapor, postura firme, respeito no olhar. — Olha o Coringa! — O chefe voltou! — A benção, chefe! Eu só levantava a mão, assentia com a cabeça. Não precisava falar nada. Presença fala sozinha. A tropa de bico tava junto, mas só na contenção. Nada de bagunça. Movimento limpo. Olho atento. Romano comandando tudo com calma. — Hoje é só leitura — ele falou enquanto rodava. — Mostrar que tu tá de volta, mas sem alarde. — Certo — respondi. — Quem grita demais chama problema. Fomos passando pelas vielas, pelas lajes, pelos pontos estratégicos. Tudo no lugar. Tudo funcionando. O Salgueiro respirando do jeito que sempre respirou. Paramos num ponto mais alto. Desci da moto, olhei em volta. Meu território. Meu chão. — Tu segurou tudo direitinho — falei pro Romano. — Sempre foi teu, Irmão. Eu só cuidei. Foi aí que ele soltou: — Vão ficar na tua contenção direta agora. Olhei pra ele. — Quem tá comigo? Ele começou a apontar, falando baixo. Nomes conhecidos, caras antigos, gente de confiança. Até que ele falou: — O Cazuza tá na contenção também. Franzi a testa de leve. Olhei pro moleque. Ele tava mais afastado, postura reta, respeitando. — Aquele ali? — perguntei. — Ele mesmo. Moleque é sangue bom. Trabalha certo, não se adianta, não dá problema. Observei mais um pouco. O olhar atento, sem arrogância. Fiz um gesto com a cabeça. — Então deixa. Fidelidade se prova no tempo. Romano sorriu. — É isso. Subi de novo na moto. Continuamos rodando. O morro inteiro sabendo: Coringa voltou. Mas sem foguetório, sem exagero. Do jeito certo. No fundo, eu senti uma coisa clara: a vida tava retomando o ritmo. Devagar. No controle. E eu tô exatamente onde sempre devia estar. Romano me chamou para almoçar no bar da jura. — Mulher pra pörra te olhando, Carälho — soltou, zoando. Eu ri de canto. Jura sempre foi vitrine. Quem senta ali vira assunto. No meio disso tudo, vi a Mayara, mãe da minha filha. Ela tava encostada no balcão, cabelo preso, cara tranquila. Nossos olhos se encontraram. Ela sorriu. Eu sorri de volta. Respeito existe. História também. Mas dessa daí eu quero distância. Já foi, já cumpriu o papel, hoje é só paz e limite. Saí dali direto pro QG. Entrei, fiz vistoria em tudo. Conferi rádio, câmera, porta, gente. Tudo funcionando redondo. O cheiro do lugar, o barulho baixo, a disciplina, isso me dá uma calma que pouca coisa dá. Sentei na minha cadeira de novo. A minha cadeira. Encosto gasto, braço firme. Parecia que nunca tinha saído. Romano encostou na mesa, braço cruzado. — Tua volta merece comemoração, Coringa. Pensei em marcar um baile. Levantei o olho devagar. — Baile chama atenção demais — falei sério. — Já levantamos o esquema, já mostrei que tô de volta. Agora eu quero sigilo. Prefiro morro quieto do que cheio. Melhor um pagode fechado. Ele assentiu na hora. — Então fechou. Nada de baile. Ficamos mais um pouco ali, alinhando coisa fina, detalhe que ninguém vê mas sustenta tudo. Quando terminamos, descemos pra ver o outro lado do morro. Andar é leitura. Quem manda precisa ver, sentir, ouvir. Foi aí que aconteceu. A gente vinha descendo tranquilo quando passamos na frente da escolinha. Criançada já tinha saído, portão meio aberto. E foi ali que eu vi ela. Devia ser professora. A mina era linda, sem exagero. Gordinha, mas daquele jeito que impõe presença. Alta, postura reta, bundäo daquele que não pede licença. Jeans justo, marcando as coxas grossas, cintura desenhada. Camisa da farda, mas nela parecia roupa cara. Cabelo preto, liso, caindo nas costas. Quando ela virou, a gente se encarou. Não foi aquele olhar rápido, não. Foi o segundo a mais. O silêncio no meio do barulho do morro. O mundo deu uma travada de leve. — Que deusa é essa. — pensei na hora. Ela não desviou. Olho firme, curioso, sem medo. Não sorriu, não fechou a cara. Só olhou. Eu senti um negócio estranho no peito, coisa que não é comum. Não foi desejo bruto. Foi impacto. Presença reconhecendo presença. Segui pilotando, sem virar o rosto. Não podia dar bandeira. Ninguém percebeu. Romano falava alguma coisa atrás de mim, mas eu nem ouvi direito. A imagem dela ficou martelando. Carälho, fiquei mexido. E isso me incomodou mais do que qualquer outra coisa. Eu não me mexo fácil. Não depois de tudo. Mulher bonita sempre teve. Mas aquela ali tinha algo diferente. Talvez o lugar errado, a hora errada. Talvez o fato de ela não saber quem eu era, ou saber e mesmo assim sustentar o olhar. De eu não saber quem é. Continuei o giro, mantendo a postura, mas por dentro a mente já tava longe. Coisa rara. Quando voltamos, parei um segundo antes de entrar no QG. Respirei fundo. Balancei a cabeça, tentando botar ordem. — Foco, pörra — falei baixo pra mim mesmo. Mas no fundo eu sabia: aquela cena não ia sair da minha cabeça tão cedo.
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