Letícia Narrando
Meu nome é Letícia França, tenho 23 anos e sou formada em pedagogia. Sempre foi o meu sonho lecionar. E hoje me sinto realizada, pelo menos profissionalmente. Mas aqui no Salgueiro ninguém me chama assim. Aqui eu sou a Lelê. E pras crianças, eu sou a tia Lelê. É assim que eu existo de verdade.
Eu queria muito começar dizendo que minha infância foi feliz, que eu corria pelo complexo, brincava de pique esconde, tinha um monte de amigos, ria alto e nunca liguei pra nada. Mas não foi assim. E fingir nunca foi meu forte.
Sou filha única. Meu pai é o Vicente, muito conhecido aqui no Salgueiro. Homem respeitado, trabalhador, desses que todo mundo cumprimenta com carinho. Minha mãe, a Luciene, minha mãe é gigante. Foi ela quem fundou a ONG que ajuda famílias, mães solo, crianças, idosos. Eu cresci dentro dessa ONG. Cresci vendo gente chegar sem nada e sair com esperança. Cresci aprendendo a cuidar.
Eu nunca estive sozinha. Mas sempre me senti.
Na escola, eu não era a menina popular. Eu era a menina gordinha. A blusa do uniforme ficava apertada, marcava tudo. Quando trocava pelo tamanho adulto, ficava enorme, caindo no ombro. Não tinha meio-termo pra mim. Nunca teve.
E os apelidos, Ah, os apelidos.
— Chupeta de baleia.
— Rola de poço.
— Roliça.
— Imensa.
Tudo dito com risadinha, como se fosse brincadeira. Como se não doesse. Doía. Doía muito. Eu chegava em casa com o peito apertado, o nó na garganta segurando o choro até entrar correndo na sala da minha mãe.
— Mãe. — eu falava, já desabando.
Ela me abraçava. Sempre. Meu pai também. Nunca minimizaram minha dor. Nunca disseram ignora. Isso é brincadeira de criança, ou cresce Letícia. Nunca fizeram isso. Eles escutavam. Eles cuidavam. Mas mesmo assim, as palavras ficavam. Palavra maldosa cria raiz. E com o tempo, eu fiquei forte. Literalmente, já não chorava. Não tentava brigar, apenas ignorava. Ignorei tanto, ao ponto de ficarem com raiva e parar de me encher.
Minha melhor amiga desde sempre foi a Milene. A gente cresceu juntas. Dividiu lanche, lágrima, segredo. Eu nunca conheci o pai dela. Nem ela. Só sei que ele foi preso quando a gente ainda era criança. Todo mundo sabe quem ele é. O verdadeiro chefe do tráfico daqui. O melhor amigo do meu pai.
O nome dele sempre foi um sussurro: Coringa.
Meu pai visitava ele na cadeia. Sempre. Nunca escondeu. Mas isso nunca me interessou. Nunca quis saber de crime, de poder, de nada disso. Meu mundo sempre foi outro. E Eu só queria ser aceita.
Comecei a namorar com quase dezoito anos, com o Cazuza. Foi meu primeiro tudo. Os garotos nunca me olharam como mulher. Nunca. E eu achava que o problema era eu. Sempre eu.
Já tentei de tudo pra emagrecer. Dieta maluca, ficar sem comer, tomar remédio. Já desmaiei. Já passei mäl. Já vi meus pais desesperados comigo.
— Filha, assim não — minha mãe dizia, chorando.
— Tu não precisa disso — meu pai falava firme.
No começo, eu achei que o Cazuza me achava bonita. Que ele me via, além da gorda que todos costumavam chamar. Só depois, quando a gente já morava junto, foi que a verdade caiu como uma bomba.
Ele nunca me amou.
O que ele queria era conforto. Uma casa limpa. Comida pronta. Roupa lavada. Alguém que cuidasse dele. Ele pagava as despesas, sim. Mas eu não era a mulher que ele queria mostrar pro mundo. Eu era a mulher que ele queria esconder dentro de casa.
Quem me contou não foi amiga. Foi meu pai.
— Lelê. — ele chegou sério. — Eu vi o Cazuza.
— Viu onde, pai? — perguntei, já sentindo o coração afundar.
— Com a Evelyn. Na garupa da moto. E já mandei investigar, eles estão saindo quase todas as noites. E teve um baile de um aliado do Coringa, ele tava na contenção do Romano. Mas levou a Evelyn, botou de camarote e tudo.
Eu chorei. Chorei muito. Meus pais me abraçaram. Minha mãe falou com aquela calma que só ela tem:
— Filha, vêm embora. Você merece mais.
Voltei pra casa decidida. Tomei banho. Me arrumei. Passei o perfume que ele dizia que era maravilhoso. Eu sabia que era. Arrumei minhas coisas, coloquei tudo na mala e deixei ela no quarto. Sentei no sofá. Esperei.
Quando ele chegou do corre, colocou o fuzil no cantinho, como sempre. Veio me beijar.
— Tá cheirosa — ele falou.
Desviei.
— O que foi agora? — ele perguntou, irritado.
Respirei fundo.
— Tá tudo acabado.
Tirei a aliança do dedo e coloquei na mesinha de centro. Com calma. Sem grito.
— Pra quê isso agora, Letícia? — ele riu.
— Porque eu não tenho vocação nenhuma pra pagar de cörna conformada, para o complexo inteiro e adjacências.
Ele me olhou e sorriu.
— Tá sendo dramática.
Levantei.
— Vou ser dramática lá na casa dos meus pais. Chama a calcinha dura da Evelyn pra cuidar de você. Bora ver se ela sabe fazer um arroz, fritar um ovo, lavar roupa, limpar uma casa como eu limpei essa daqui. Ou pelo menos comprar um brilho labial na loja de dez com o próprio dinheiro.
Ele me encarou. E aí falou o que eu nunca achei que ouviria, da boca dele.
— Pelo menos ela é magra. Não me faz passar vergonha. Olha pra tu, toda gorda, mäl ajeitada. Teu rosto é até bonito, mas parece um pão recheado. Fala sério, tu acha que alguém vai te querer? Se tu me deixar, vai morrer sozinha. Ninguém vai querer uma porca gorda roncando do lado.
Cheguei perto dele. Botei o dedo na cara dele.
— Porca não. Se tem uma coisa que eu sou é limpa. Tu que é um porco. Eu cuidei de você esse tempo todo. Agora se vira.
Respirei fundo.
— E vamos ver se ninguém me quer. E se não quiser, tá tudo bem. Eu me basto.
Fui pro quarto, peguei minha mala. Quando tava saindo, ele ria.
— Volta pro chiqueiro! Engorda mais.
Entrei no carro. As lágrimas desceram. Mas eu arranquei dali.
O morro tava em festa. Dizem que o Coringa voltou.
E eu tô arrasada.
Não por ele. Mas pelo tempo que perdi amando alguém que nunca me enxergou.
E Hoje começa outra história.