Lis observava a xícara de café sobre a mesa como se fosse uma bomba-relógio prestes a explodir. O líquido escuro esfriava lentamente, ignorado. Seus dedos tremiam, mas ela se forçava a manter a postura firme. Cada respiração era um ato de coragem. Cada batida do coração, um lembrete de que ela ainda estava viva — mesmo depois de ter sua filha arrancada dos braços.
O apartamento modesto em que vivia agora era silencioso, mas não por paz. Era o tipo de silêncio que sufocava. Que lembrava todos os dias que Aurora não estava ali. Que sua voz, seus choros, sua presença, haviam sido engolidos pelo abismo chamado Dante Lucchesi.
Ela não sabia quanto tempo conseguiria suportar.
— Ele enviou isso hoje — disse Marta, depositando uma pasta bege sobre a mesa.
Lis engoliu seco. A pasta estava selada com o brasão dos Lucchesi: uma águia dourada cravada em papel timbrado. Sinônimo de poder. De intimidação. De crueldade.
— Mais uma intimação?
— Pior — respondeu Marta, a expressão dura. — Ele entrou com um pedido de restrição total. Está tentando impedir que você se aproxime de qualquer um dos funcionários, propriedades ou pessoas ligadas à empresa dele. Inclusive... da Aurora.
Lis sentiu o chão se mover. A cabeça latejou.
— Isso é... Isso é ilegal! Eu sou a mãe dela! Eu tenho direito de vê-la, de saber como ela está!
Marta assentiu, mas sua expressão era amarga.
— Ele a acusa de instabilidade emocional, ameaça de sequestro e tentativa de coação. Está usando o próprio sistema que ele domina para transformá-la em uma inimiga pública.
Lis levou as mãos ao rosto. Um choro seco escapou, sem lágrimas. Era dor crua. Era injustiça escorrendo pelos poros.
— Eu não fiz nada disso! Tudo que eu fiz foi... tentar ficar perto da minha filha. Eu... eu sou mãe dela, por Deus!
— Ele sabe. É por isso que está atacando com tanta força. Porque você é o único ponto que pode desmontá-lo.
No escritório de mármore n***o, Dante Lucchesi fechou a tampa do laptop com força. Seus olhos, antes frios, estavam turvos de algo que ele se recusava a nomear.
A imagem de Lis diante dele, com a pele pálida e o olhar sangrando revolta, ainda ecoava em sua mente. Ela o encarava como se ele fosse um monstro. Como se fosse o d***o vestido de terno.
E talvez fosse mesmo.
Mas não se arrependia. Não podia. Se arrependesse, perderia o controle.
— Você está se excedendo, Dante — disse Enrico, seu advogado, aproximando-se da mesa. — Isso aqui vai virar contra você se continuar assim.
— Ela está tentando me desestabilizar. Eu não vou permitir.
— Ela é a mãe da sua filha.
— Ela é uma ameaça à minha filha. — Dante se levantou, a sombra dele projetando-se contra a parede envidraçada. — E você sabe o que fazemos com ameaças.
Enrico engoliu em seco, mas assentiu.
— Os juízes podem ver isso como abuso de poder. Precisamos ter cuidado.
— Eles me temem mais do que respeitam a lei. Não se esqueça disso.
E essa era a verdade que movia Dante Lucchesi. Um homem que nunca confiou em sentimentos. Que usava os tribunais como ferramentas. Que vestia o ódio como uma armadura de três peças feita sob medida.
Lis passava os dedos pelas páginas do processo como quem acaricia uma arma. Cada cláusula era um soco. Cada acusação, uma facada.
— Ele me quer calada. Apagada — disse ela, olhando para Marta. — Mas ele se esquece que eu sobrevivi ao pior. E agora, ele me ensinou a odiá-lo com a mesma intensidade com que eu amo a minha filha.
— Temos duas opções — disse Marta, firme. — Ou recuamos e tentamos negociar por fora, o que não recomendo. Ou vamos para a briga judicial completa. E aí, Lis... você vai ter que suportar tudo. Ele vai expor você, sua história, sua dor. Vai usar tudo contra você.
— Que tente. — Os olhos de Lis ardiam. — Ele acha que eu sou fraca porque chorei. Porque sangrei. Mas não é o sofrimento que destrói uma mulher. É o silêncio. E esse... eu não vou mais carregar.
Na semana seguinte, Lis entrou no prédio do fórum com o que lhe restava de dignidade: os ombros erguidos, a cabeça reta e as mãos fechadas em punhos discretos.
Dante já estava lá.
Ele usava um terno azul-escuro com colete. Gravata cinza perolada. O cabelo perfeitamente penteado. E o olhar... Deus, aquele olhar.
Frio. Cirúrgico. Vazio.
Eles estavam separados por metros, mas o ar entre eles parecia em chamas. Quando os olhos se cruzaram, o mundo parou por um segundo.
— Senhora Vasconcellos — chamou o juiz, com voz austera. — A acusação é grave. O senhor Lucchesi apresentou provas de que a senhora tentou se aproximar da criança sem autorização, coagiu funcionários da Lucchesi Group e enviou cartas ameaçadoras à residência do réu.
— Isso é mentira! — Lis se levantou, a voz firme. — Eu sou a mãe da Aurora. Tudo o que fiz foi escrever uma carta pedindo notícias. Pedi... uma foto. Uma maldita foto!
— Silêncio no tribunal — advertiu o juiz.
Dante não se moveu. Não sorriu. Não demonstrou nada.
Mas por dentro... por dentro, algo se contorcia. Porque ao ouvir o nome "Aurora" sair da boca de Lis, algo dentro dele vibrava. E ele odiava isso.
— A senhora terá direito a apresentar sua defesa por meio de seus representantes. Este tribunal não é lugar para escândalos emocionais.
Marta segurou a mão de Lis por baixo da mesa. Ela estava tremendo.
— Vamos vencer isso — sussurrou.
Lis não respondeu. Mas algo nela queimava. E não era medo.
Era fúria.
Na saída, os fotógrafos cercaram o hall do tribunal. Luzes, flashes, perguntas.
— É verdade que a senhora ameaçou o senhor Lucchesi?
— A senhora está mentalmente estável para cuidar de uma criança?
— Houve um acordo financeiro entre vocês?
Lis não disse nada. Não ainda. Mas, antes de entrar no carro, ela parou. Olhou para a câmera principal, erguida por um jornalista audacioso, e disse:
— Nenhuma criança deveria crescer sem amor. Nem sob chantagem.
E então entrou no carro, deixando para trás um Dante parado na escada, encarando-a como se, pela primeira vez, não tivesse resposta.
Naquela noite, Lis olhou para o teto do quarto sem conseguir dormir. A dor era insuportável. A sensação de impotência era quase paralisante.
Mas ela não ia recuar.
Porque agora o mundo estava começando a ouvir sua voz.
E Dante... Dante, com toda sua frieza, começava a sentir o calor da culpa queimando sob a gravata de mil dólares.