Prisão Invisível

1199 Words
Lis acordou com o som de passos do lado de fora. Eram seis da manhã e o sol ainda m*l iluminava as ruas. Ela se levantou devagar, espiando pela janela. Dois homens em ternos escuros estavam parados perto da entrada do prédio, fingindo olhar o celular. Ela sabia quem eram. Dante não perderia tempo. Marta havia avisado: o cerco começaria com sutileza, depois apertaria com crueldade. E Lis sentia o aperto a cada segundo. O processo nem havia sido protocolado ainda, e já estava sendo vigiada como uma criminosa. Ela voltou para o quarto e se olhou no espelho. A mulher à sua frente parecia mais magra, com olheiras profundas, mas os olhos... os olhos tinham um brilho que há semanas não se via. Era dor, sim. Mas também era fúria. Uma fúria silenciosa, persistente. Pegou o celular e ligou para Rubens. — Eles já estão aqui. Dois seguranças. Desde o amanhecer. — Lis... você precisa entender que, para Dante, isso não é apenas sobre uma filha. É sobre poder. Sobre alguém desafiando um sistema que ele comanda. — Eu não vou recuar. — Então teremos que ser mais inteligentes do que ele. Comece a registrar tudo. Fotos, vídeos. Tudo o que puder. — Já comecei — respondeu, seca. Desligou e, com as mãos trêmulas, tirou uma foto dos homens da janela. Em seguida, anotou a hora. A paranoia se misturava ao cansaço. Mas ela precisava se manter firme. A prisão não tinha grades. Mas era real. Naquela tarde, Lis tentou sair para comprar mantimentos. Assim que dobrou a esquina, percebeu que os dois homens a seguiam. Não disfarçavam. Um deles fingia olhar vitrines, o outro falava no celular. Mas ambos estavam colados a cada passo. Ela apertou os olhos, engolindo a humilhação. No supermercado, foi ainda pior. Uma mulher comentou em voz alta, próximo ao caixa: — Essa é a moça que perdeu a guarda da filha pro Lucchesi... dizem que era desequilibrada. Lis segurou a sacola com força. Não respondeu. Não reagiu. Mas quando chegou em casa, desabou. Jogou as compras no chão e caiu de joelhos. Chorou até não ter mais forças. O mundo estava comprando a versão de Dante. E ela, que por tanto tempo evitara os holofotes, agora era personagem de um escândalo silencioso que ninguém ousava nomear. Ela não era vítima. Era “a mulher instável que perdeu a filha”. Do outro lado da cidade, no alto do edifício Lucchesi, Dante observava a tela do celular. Vídeos de câmeras. Relatórios de comportamento. Ele via Lis como quem observa um experimento. Ela estava sofrendo. E, por algum motivo, isso o incomodava. Aurora chorava no quarto ao lado. A babá tentava acalmá-la. Dante franziu o cenho. Aquilo era irritante. Uma criança não deveria ser assim tão... intensa. Mas aquela bebê parecia desafiar todas as regras. Como a mãe. — Senhor Lucchesi? — a assistente chamou da porta. — Diga. — A senhora Gisela pediu para lembrá-lo do jantar de amanhã. Disse que já confirmou a reserva. Ele assentiu. Gisela. Uma herdeira importante, filha de investidores que poderiam ser úteis. Bela. Elegante. Totalmente indiferente a sentimentos — como ele preferia. — Diga a ela que estarei lá. Enquanto voltava o olhar para o berço, sua expressão endureceu. Aurora chorava com o rosto vermelho. A babá o encarava, nervosa. — Faça ela parar — ordenou, antes de sair da sala. Ele não tocaria na menina. Não agora. Talvez nunca. Lis passou a noite escrevendo. Um depoimento. Uma carta para Aurora. Um grito mudo. Não sabia se aquilo teria valor jurídico, mas precisava colocar no papel o que sentia. "Filha, eu sei que um dia você vai me perguntar por que eu não lutei mais. E eu quero que saiba que lutei com tudo que tinha. Cada minuto longe de você foi um segundo de tortura. Mas sua mãe nunca desistiu. Mesmo quando todos diziam que era impossível." Ela chorou ao reler. E, com mãos trêmulas, gravou um vídeo. Olhos inchados, sem maquiagem. Apenas verdade. — Aurora... minha filha... eu te amo. E vou lutar por você até o último suspiro. Duas semanas se passaram. Lis não conseguia emprego. Seu currículo sumira dos bancos de dados. Empresas que antes lhe ligavam, agora sequer retornavam. Até mesmo a imobiliária ameaçou rescindir o contrato de aluguel, alegando "má conduta pública". Marta, aflita, continuava sendo sua única fonte de informações. E o que trazia não era bom. — A babá me disse que ele está preparando um dossiê contra você. Alegando que tem provas da sua “instabilidade emocional” durante a gestação. — Ele está inventando um passado para justificar o presente — murmurou Lis. — Sim. E está preparando a mídia. Colunistas pagos, portais de fofoca. Quando isso explodir, a opinião pública vai acreditar nele. — Eu preciso agir antes. — Mas como? Lis olhou para o celular. Respirou fundo. — Ele vai ao jantar com Gisela amanhã, não vai? — Vai. Por quê? — Porque é quando eu vou invadir o castelo. No dia seguinte, Lis vestiu-se com firmeza. Jeans escuro, blusa preta, coque alto. Passou batom vermelho como quem coloca uma armadura. Pegou o celular, as anotações, o pen drive com o vídeo. Encontrou Rubens na porta do fórum, onde iriam registrar oficialmente o início do processo — mesmo sabendo que viriam retaliações. — Está pronta? — Não, mas vou assim mesmo. Entregou os documentos. Oficializou o pedido de revisão de guarda. Rubens avisou: — Isso é uma guerra. E a primeira batalha acaba de começar. Naquela noite, Lis esperou a hora certa. Sabia que Dante estaria no jantar com Gisela. Sabia também que o apartamento dele ficaria entregue às babás e seguranças. Marta a ajudou a conseguir um encontro com uma funcionária terceirizada do prédio. Uma mulher simples, com três filhos e um coração solidário. — Você só tem dez minutos. E tem que sair antes que os seguranças percebam. Lis assentiu. Quando entrou no saguão do prédio, o coração quase parou. Tudo era frio, silencioso, imponente. Ela subiu até o andar da cobertura. A babá se assustou ao vê-la. — Senhora Lis? Não pode estar aqui. — Eu só quero ver minha filha. Dez minutos. Por favor. Aurora estava no berço, dormindo. Lis se aproximou como quem se aproxima da vida. As lágrimas caíram antes que pudesse controlá-las. A bebê respirava suave, inocente. Estava maior. As mãos miúdas, o cabelo mais escuro. Lis tocou o rostinho com a ponta dos dedos. — Mamãe está aqui, meu amor. Estou lutando. Você vai voltar pra mim. Pegou o ursinho rosa e colocou no berço, ao lado da filha. Gravou outro vídeo. Um novo registro. Uma nova prova. Mas o tempo corria. Saiu antes que fosse vista. E, enquanto o elevador descia, Lis sabia: a guerra estava longe de acabar. Mas, pela primeira vez, ela tinha deixado sua marca dentro do castelo de Dante. Na manhã seguinte, Dante assistiu à gravação pelas câmeras de segurança. Viu Lis entrando. Viu Lis chorando diante da filha. Viu o ursinho rosa no berço. Nada foi dito. Mas algo em seus olhos tremeu. Por um segundo. E depois se apagou. — Dobrem a vigilância — ordenou. — A guerra começou.
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