A Voz Que Não Querem Ouvir

1046 Words
O som da chaleira apitando rompeu o silêncio do pequeno apartamento. Lis continuava sentada no sofá, as mãos apertadas sobre os joelhos, o olhar perdido em algum ponto do nada. Três semanas haviam se passado desde que Aurora nascera. Três semanas desde que a arrancaram de seus braços. Desde que ela deixou a maternidade com os s***s cheios de leite e os olhos secos de tanto chorar. Ela não sabia ao certo como ainda respirava. Desligou a chaleira mecanicamente, despejando a água sobre o pó de café com movimentos lentos, automáticos. Tudo naqueles dias era assim — uma sequência de atos sem sentido, como uma marionete que só existia por hábito. Viver era um verbo que doía. No silêncio da manhã, o interfone tocou. Lis levou um susto e hesitou antes de atender. — Alô? — É Marta. Por favor, Lis... me deixa subir? A voz do outro lado era hesitante, carregada de culpa. Lis não respondeu imediatamente. Sentiu o peso do nome, da lembrança. Marta havia sido sua enfermeira, sua única aliada... até virar cúmplice de Dante. Ela poderia ignorar. Poderia simplesmente desligar. Mas a solidão cobrava caro. E ela precisava de respostas. Respirou fundo. — Pode subir. O elevador parou com um estalo metálico, e Marta surgiu à porta como alguém que havia envelhecido anos em poucas semanas. Os olhos fundos, os ombros curvados, o semblante cansado. — Obrigada por me deixar entrar. Lis apenas assentiu, voltando ao sofá. Marta fechou a porta atrás de si e permaneceu de pé por alguns segundos, constrangida. — Eu não sabia, Lis. Juro por Deus. Dante me enganou. Prometeu que você veria a menina depois, que era temporário. Eu... eu acreditei. — Ele nunca quis ser pai — Lis murmurou, encarando a xícara de café em suas mãos. — Nunca quis uma criança. Só quis controle. — Eu fui usada. Assim como você. Lis levantou o olhar, duro. — Com a diferença de que eu perdi tudo. E você ainda tem um emprego. O silêncio entre as duas foi denso, sufocante. Marta sentou-se na poltrona, apertando as mãos. — A bebê... Aurora... ela está bem. É linda. Tem seu nariz. Mas... está sempre no colo da babá. Dante quase não toca nela. Não a embala. Não canta. Ele só a observa como se fosse... uma posse. Lis fechou os olhos, engolindo o choro. — Ela chora à noite — continuou Marta, com a voz embargada. — Eu ouvi. E ninguém a pega no colo. Esperam que ela “aprenda” a dormir sozinha. A dor foi como uma lâmina atravessando o peito de Lis. Sua filha chorava sozinha em um berço frio enquanto ela, a mãe, passava as noites em branco com os braços vazios. — Por que veio aqui? — Porque preciso consertar o que fiz. Quero te ajudar a recuperar a guarda. Lis piscou, incrédula. — Acha que um monstro como Dante vai permitir? Ele tem dinheiro, poder, influência... Eu sou só uma mulher comum. Uma mulher que ninguém ouve. — Mas você é a mãe dela. — Isso nunca significou nada para ele. Na manhã seguinte, Lis caminhou até um pequeno escritório de advocacia no centro da cidade. Marta havia marcado uma consulta com um advogado que atuava em casos de violência institucional e abusos de autoridade familiar. O lugar era modesto, mas acolhedor. — Lis Benevides? — chamou uma voz firme e gentil. Ela se levantou. O advogado era um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, olhar sereno. — Doutor Rubens. — Ela estendeu a mão. Sentaram-se. Lis contou tudo. Da inseminação, do erro médico, do parto, da assinatura coagida, da separação forçada. A cada palavra, revivia o trauma. Mas também sentia algo novo crescer: indignação. — Ele quer que eu desapareça. Que eu aceite a ideia de que minha filha não é minha. Que ela é... propriedade dele. Rubens ouvia com atenção. Tomava notas. Respirava fundo entre um relato e outro. — O acordo que você assinou... precisa ser analisado. É possível que ele seja considerado nulo, dependendo da forma como foi imposto. E se houver provas da coação... — Marta pode testemunhar. E a médica da clínica que acompanhou o pré-natal sabe de tudo. Rubens assentiu. — Vamos começar. Mas prepare-se. Isso não será fácil. Ele é um Lucchesi. Vai reagir. Lis o encarou, firme pela primeira vez em semanas. — Que venha o inferno, doutor. Eu já vivi nele. Dois dias depois, o telefone de Lis tocou. — Dona Lis Benevides? Aqui é da equipe jurídica do Grupo Lucchesi. Fomos informados de que a senhora está tentando abrir um processo de revisão de guarda e contestação do acordo assinado após o parto. Lis apertou o celular com força. — E? — Fomos instruídos a alertá-la formalmente de que qualquer tentativa nesse sentido violará cláusulas contratuais previamente acordadas e poderá acarretar medidas legais severas, incluindo indenizações e restrições legais mais graves. — Vocês estão me ameaçando? — Estamos cumprindo ordens do senhor Dante Lucchesi. Tenha um bom dia. Lis jogou o celular no sofá e sentou-se no chão. Os joelhos cederam. Ela sabia que seria assim. Sabia que ele viria como um rolo compressor. Mas ouvir aquilo... sentir-se esmagada de novo... A campainha tocou. Ela abriu a porta sem pensar. Era Marta, com o rosto pálido. — Ele descobriu. E está furioso. Está espalhando que você é instável, emocionalmente desequilibrada. Que abandonou a filha. Que é uma oportunista. Lis riu, mas foi um riso amargo. — E o mundo vai acreditar nele. — Nem todos. E se começarmos a reunir provas? Se gravarmos conversas, coletarmos mensagens, testemunhos? — Ele vai nos esmagar. — Ou você vai ser a primeira a derrubá-lo. Naquela noite, Lis ficou sentada na varanda. A cidade pulsava abaixo de seus pés, indiferente à dor de uma mãe sem filha. Ela apertava nas mãos um ursinho de pelúcia que havia comprado durante a gestação. Era rosa, com um laço torto. Tinha sonhado vê-lo nos braços de Aurora. Ela sussurrou: — Você vai voltar pra mim, filha. Nem que eu morra tentando. E, naquele instante, algo mudou dentro dela. A dor não cessou. Mas deixou de ser paralisante. Tornou-se um motor. Um grito. Uma voz que não queriam ouvir. Mas que, a partir daquele momento, não se calaria mais.
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