A Primeira Derrota de Dante

1103 Words
A primeira vez que Lis sentiu o gosto da vitória desde que cruzou o inferno com os pés descalços foi silenciosa. E por isso mesmo, foi devastadora. Não houve grito. Não houve soco. Não houve rebelião explosiva. Houve um olhar. Dado na hora exata. Do jeito certo. E que, pela primeira vez, fez Dante Lucchesi perder o chão. Ele estava de pé à frente do berço, de terno impecável, mas as olheiras denunciavam as noites m*l dormidas. Aurora chorava com uma frequência irritante — e, pior, quando estava no colo dele, o choro parecia se intensificar. Uma ironia da vida: o homem que mais lutou para não ter filhos agora se via refém de um choro que não sabia calar. Lis, do outro lado do quarto, com os pulsos ainda marcados por dias de contenção forçada, observava em silêncio. Não havia súplica. Nem raiva aparente. Apenas uma quietude que dizia tudo. Dante caminhava de um lado para o outro, balançando a filha como se estivesse segurando um peso inconveniente, uma bomba prestes a explodir. Estava exausto — e furioso por estar exausto. Era um homem acostumado ao controle absoluto, e ali estava ele: suado, descabelado, descompassado, diante de uma recém-nascida que não seguia suas regras. “Essa criança só chora com você”, dissera a babá horas antes, quase como uma piada inocente. Mas aquilo ficou martelando como um insulto. Lis, sentada, observava. E mesmo muda, ferida, frágil… tinha algo nela naquele dia que não era mais de derrota. Era outro tipo de olhar. Um olhar que dizia: "Você está perdendo." Dante sentiu. E odiou. — Por que está me olhando assim? — rosnou, dando um passo na direção dela. Ela não respondeu. Manteve os olhos nos dele, intensos, firmes. Ele segurou a filha com um braço e apontou para Lis com o outro. — Vai ficar calada? — vociferou. — Depois de tudo o que fez? Do escândalo? Da invasão? Do teatro ridículo? Ela só abaixou os olhos por um segundo, e então se levantou. Devagar. Com os pés descalços e os olhos brilhando. Lis deu dois passos. Estendeu os braços em direção à filha. O gesto foi firme, sereno. Aurora, que ainda chorava no colo do pai, esticou os bracinhos em direção à mãe. Aquele instante, pequeno para o mundo, foi imenso para Dante. A filha, que tanto rejeitava o colo dele, parou de chorar ao ver a mãe. Os bracinhos agitados em direção a Lis pareciam implorar: Me dá você. Lis não falou. Só esperou. Dante não sabia o que fazer. Por um segundo, ele realmente considerou entregar a criança. Mas então o orgulho falou mais alto. Ele recuou, abraçando a filha contra o peito — mesmo que ela gritasse em protesto. — Você perdeu esse direito, Lis — disse ele, com a voz trêmula, tentando manter a frieza. — Não tem mais nada aqui. Nem voz, nem lugar, nem filha. Lis não reagiu. Mas os olhos… ah, os olhos. Eles disseram o que a boca ainda não podia. Disseram: Você está mentindo para si mesmo. Dante se virou, furioso, e entregou a bebê à babá, ordenando que a levasse embora dali. Assim que Aurora deixou o quarto, ele voltou-se para Lis com um olhar de fera ferida. — Acha que me venceu porque ela estendeu os braços? — cuspiu. — Isso não significa nada. Essa criança é minha. Esse império é meu. E você… você é só uma sombra, uma lembrança do erro de um hospital incompetente. Lis se aproximou dele. Estavam tão perto agora que ela podia sentir o cheiro da raiva dele, da frustração, da culpa mascarada. Ela ergueu o queixo. E, então, falou. Pela primeira vez em dias. — Você não sabe segurá-la, Dante. Foi como um tapa. Ele piscou. Trêmulo. — O quê? — Você a segura como se ela fosse uma arma — disse Lis, com voz baixa. — Como se fosse algo perigoso. Mas ela é só um bebê. Sua filha. A palavra o atingiu com força: filha. Ele desviou o olhar. Por um instante, Dante pareceu vulnerável. Mas logo depois, como uma fera encurralada, ele atacou de novo. — Saia do meu campo de visão, Lis — ordenou. — Antes que eu realmente me arrependa de ter poupado você da morte. Ela deu um passo para trás. Mas sorriu. Um sorriso seco, cansado, dolorido — mas que carregava uma vitória. Porque pela primeira vez, ela o fez recuar. Porque pela primeira vez, Dante sentiu. Horas depois, trancada novamente em seu quarto, Lis tremia. Não de medo. Mas de adrenalina. A reação dele ainda ecoava em sua mente. O olhar de descontrole. A hesitação. A raiva sem alvo. A culpa m*l escondida. Ela sabia que aquele momento, aquele instante em que Aurora estendeu os braços para ela, não era apenas instinto de bebê. Era um sinal. Elas ainda estavam ligadas. Ainda havia tempo. Ainda havia chance. Lis respirou fundo. Levantou-se, caminhou até a pequena escrivaninha e puxou debaixo do colchão uma folha que rasgara de um livro. Pegou o lápis escondido na barra da cortina — onde ninguém jamais procuraria. E começou a escrever. Não sabia ainda para quem. Mas sabia que aquela história precisava ser contada. Mesmo se fosse só para si. "Hoje, ela estendeu os braços para mim. E ele recuou. Pela primeira vez, ele recuou." "O império dele não está desmoronando de fora para dentro. Está ruindo por dentro. Ele não sabe, mas a ruína já começou." "E eu... ainda estou aqui. Esperando. Lutando. Respirando." "Um dia, ela vai voltar para mim. Porque ela já me escolheu." Na ala norte da mansão, Dante bebia. Sozinho. Os olhos fixos na lareira, onde as chamas dançavam como as memórias que ele queria apagar. Aurora estava no quarto, finalmente dormindo, depois de horas de grito. Ele deveria estar aliviado. Mas não conseguia parar de ouvir a voz de Lis. "Você não sabe segurá-la." Aquilo não era só sobre o jeito com que ele segurava a filha. Era sobre o que ele fazia com tudo na vida. Ele não sabia ter. Só sabia dominar. Dante largou o copo sobre a mesa e esfregou os olhos com força. Não. Não podia permitir que uma mulher destruída o desestruturasse. Mas, ao fundo, na lembrança involuntária da tarde, ele se viu segurando Aurora... e ela chorando ainda mais alto. Depois, nos braços da mãe, o silêncio. O vínculo. O que ele jamais poderia comprar. Por um segundo, Dante se viu diante de um espelho interno — e não gostou do que viu. Ele estava perdendo. E isso... isso ele não sabia como aceitar.
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