Amigos Sabem Tudo

1531 Words
Cheguei em casa ainda com o corpo leve demais para alguém que passou a semana inteira carregando responsabilidades. O sábado tinha começado diferente, eu tinha passado a noite com a Manuela. Não havia despertador. Não havia agenda. Não havia pressa. O apartamento estava silencioso, daquele silêncio que não incomoda. Abri as janelas, deixei o ar entrar, caminhei pela sala com um café na mão, tentando organizar os pensamentos — tarefa inútil, porque tudo em mim ainda girava em torno de Manuela. Do jeito como ela me olhou ao acordar. Do café que tomamos juntos. Do modo como ela me abraçou na porta, como se já soubesse que aquele gesto simples ficaria comigo o dia inteiro. Sorri sozinho, apoiado no balcão da cozinha. Era estranho. Eu não costumava sorrir assim sem motivo prático. Peguei o celular, rolei a lista de contatos e parei no nome que eu já sabia que apareceria ali como uma presença inevitável. Nathan. Enviei uma mensagem curta: “Almoço hoje? Preciso te contar uma coisa.” A resposta veio em segundos. “SE FOR O QUE EU TÔ PENSANDO, EU ESCOLHO O RESTAURANTE.” Ri. Tomei banho com calma, escolhi uma roupa confortável — nada formal demais, nada relaxado demais — e, enquanto me vestia, percebi que aquela animação era nova. Não vinha de expectativa vazia. Vinha de algo concreto. Algo que tinha nome, voz e olhar. Nathan escolheu um restaurante que combinava com ele: moderno, movimentado, daqueles que misturam boa comida com gente bonita e conversas altas. Quando cheguei, ele já estava sentado, braços abertos, como se estivesse me recebendo em um palco. — OLHA ELE! — anunciou, alto demais. — O HOMEM QUE FINALMENTE SAIU DO MODO MONASTÉRIO! Revirei os olhos, puxando a cadeira. — Você sempre foi discreto assim? — Só quando a ocasião pede — respondeu, piscando. — E essa ocasião pede fogos de artifício. Mal sentei, ele já se inclinou sobre a mesa. — Então. Começa do começo. E não pula NADA. Pedi um vinho. Ele pediu outro. Nathan nunca esperava. Comecei contando sobre o café da manhã. Sobre acordar ao lado dela. Sobre o jeito tranquilo como tudo aconteceu. Fui descrevendo aos poucos, com mais detalhes do que eu costumava dar a qualquer pessoa. Nathan ouvia com atenção quase religiosa. — Ela te olhou enquanto você dormia? — interrompeu. — Olhou. — Pronto. Já era. Mulher que observa homem dormindo já decidiu metade do futuro. Continuei. Falei do beijo na porta. Do clima leve. Da sensação de paz. Quando terminei, ele bateu as mãos na mesa. — EU SABIA. — Sabia o quê? — Que essa mulher não era passageira. — apontou o dedo para mim. — Leonardo, presta atenção: você não fala assim de ninguém há anos. — Não exagera. — Não tô exagerando. Eu te conheço desde sempre. Você descreveu cirurgias com menos emoção do que descreveu esse café da manhã. Ri, balançando a cabeça. — Você sempre foi dramático. — E você sempre foi resistente. Até agora. A comida chegou, mas Nathan m*l tocou no prato. Estava ocupado demais comemorando. — Então, deixa eu te explicar uma coisa — ele disse, sério de repente. — Essa mulher tá completamente no seu papo. E não é papo raso. É papo de futuro. — Nathan… — Não, escuta. — ergueu a mão. — Ela te chamou pra casa. Isso não é convite casual. Isso é confiança. Mulher madura não brinca com isso. Fiquei em silêncio por um momento, mexendo no copo. — Eu sei — admiti. — E é isso que torna tudo… importante. Ele sorriu, satisfeito. — Olha ele usando palavras emocionais. Que fase linda. Conversamos por horas. Sobre ela. Sobre mim. Sobre o quanto eu tinha mudado sem perceber. Nathan fazia piadas, exagerava, mas, por trás do humor, havia algo genuíno ali: felicidade por me ver vivo de novo. — Investe, Leo — disse, mais calmo. — Você merece isso. Vocês dois merecem. Assenti, sentindo aquela certeza se acomodar dentro de mim. Quando saímos do restaurante, o sol já estava mais baixo. Caminhamos um pouco pela calçada, sem pressa. — Só uma coisa — ele disse, antes de se despedir. — Se você vacilar, eu mesmo vou lá conquistar essa mulher. Só pra provar um ponto. — Você não teria chance. Ele riu alto. — Tá vendo? Confiança. É disso que eu tô falando. Voltei para casa com a sensação de que algo tinha começado oficialmente naquele sábado. Não porque eu tinha contado para alguém. Mas porque, ao dizer tudo em voz alta, percebi que já não era só entusiasmo. Era envolvimento. E isso não me assustava. A noite tinha caído mansa sobre a cidade. As luzes dos prédios piscavam ao longe, e o apartamento estava silencioso demais para alguém que tinha passado o dia inteiro cercado de gente, risadas e conselhos exagerados. Tirei os sapatos, deixei as chaves sobre o aparador e caminhei pela sala ainda com o corpo carregando aquela sensação estranha de expectativa — como se algo estivesse prestes a acontecer, mesmo sem motivo aparente. Abri uma garrafa de água, sentei no sofá e deixei a cabeça cair para trás, encarando o teto. Manuela vinha à minha mente com facilidade demais. O jeito como ela sorria antes de dizer algo importante. A forma como me tocava sem pressa. A segurança silenciosa que ela transmitia. Foi então que a campainha tocou. Franzi a testa, confuso. Não esperava ninguém. Levantei devagar, caminhei até a porta e, ao abrir, o mundo pareceu mudar de eixo. Manuela estava ali. Usava um vestido simples, elegante, que marcava o corpo sem esforço. Nos braços, uma garrafa de vinho e uma pequena caixa de chocolates. O cabelo solto, o olhar vivo, um sorriso que misturava timidez e ousadia. — Eu sei que é tarde — disse, antes que eu falasse qualquer coisa. — Mas… fiquei com saudade. Demorei um segundo a reagir. Não por falta de vontade, mas porque aquela cena era bonita demais para ser apressada. — Você sempre aparece assim? — perguntei, abrindo espaço para que entrasse. — Só quando vale a pena. Assim que cruzou a porta, deixou as coisas sobre a mesa e voltou-se para mim. Não houve palavras. Apenas a aproximação lenta, decidida. Manuela segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou. Não foi um beijo cuidadoso como os outros. Foi intenso, cheio de urgência contida, como se ela tivesse passado o dia inteiro segurando aquilo. Correspondi no mesmo instante, sentindo o corpo inteiro reagir à presença dela ali, no meu espaço, na minha noite. Ela me empurrou levemente para trás, sem quebrar o beijo, e minhas costas encontraram a parede. As mãos dela passeavam por mim com familiaridade surpreendente, como se já soubessem onde ficar. — Eu pensei em você o dia inteiro — murmurou contra minha boca. — Eu também — respondi, com a voz mais baixa do que pretendia. Ela riu de leve e voltou a me beijar, conduzindo-me até o sofá. Caímos ali quase rindo, quase sem coordenação, como dois adolescentes descobrindo o próprio desejo. O mundo se reduziu àquela sala. Ao toque das mãos, aos suspiros contidos, à troca de olhares que diziam mais do que qualquer palavra. As roupas foram deixadas de lado com pressa e descuido, não por falta de respeito, mas por excesso de vontade. Manuela se acomodou sobre mim, os joelhos no sofá, o rosto próximo demais, o sorriso cheio de provocação e carinho. — Você me deixa imprudente, Leonardo. — Você me deixa vivo — respondi, antes de puxá-la para mais um beijo. Não houve roteiro. Não houve planejamento. Apenas entrega. O sofá rangia discretamente sob nossos movimentos, enquanto a noite avançava lá fora, indiferente ao que acontecia ali dentro. Os beijos se tornavam mais profundos, os toques mais confiantes, o tempo perdendo o sentido. Era intenso, mas não bruto. Era rápido em alguns momentos, lento em outros. Como se estivéssemos aprendendo o ritmo um do outro no meio do caos delicioso daquele reencontro inesperado. Manuela escondia o rosto no meu pescoço em alguns instantes, respirando fundo, como se quisesse guardar aquele cheiro, aquela sensação. Eu a envolvia com os braços, sentindo seu corpo se ajustar ao meu de forma natural demais para ser recente. Não havia vergonha. Não havia insegurança. Apenas vontade. Quando finalmente nos aquietamos, ainda no sofá, ela estava deitada sobre meu peito, os dedos desenhando linhas distraídas no meu braço. O silêncio que se instalou não era constrangedor. Era confortável. — Acho que estraguei seus planos de noite tranquila — disse ela, sorrindo sem me olhar. — Acho que você melhorou tudo. Ela levantou o rosto, apoiou o queixo sobre meu peito e me encarou com aquele olhar atento que já estava se tornando familiar. — Eu não costumo aparecer assim na casa dos outros. — Ainda bem que hoje você resolveu quebrar esse padrão. Ela sorriu, satisfeita, e voltou a se acomodar. Ficamos ali por um tempo indefinido. Falando pouco. Sentindo muito. Naquele sábado à noite, com Manuela deitada comigo no sofá, eu entendi algo simples e poderoso: algumas pessoas não chegam devagar. Elas chegam no momento exato em que a gente está pronto para sentir de novo. E eu estava.
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