PRÓLOGO
PRÓLOGO: O ARQUITETO DAS SOMBRAS E A MÉDICA DO ABISMO
PARTE I: O TRONO DE PÓLVORA E A GENIALIDADE TRAÍDA
O asfalto da metrópole sempre pareceu uma sela apertada demais para as ambições de Kael. No topo do Morro de Pedra Bruta, onde o horizonte se perdia entre o cinza das lajes inacabadas e o emaranhado caótico de fios de eletricidade que cortavam o céu como cicatrizes expostas, o mundo se resumia a luzes distantes e ao silêncio tenso de quem detém o poder absoluto. Kael não era um homem de gritos ou de ostentação barulhenta; ele era o homem dos sussurros, das estratégias traçadas em guardanapos de bares copo-sujo e dos cálculos mentais que previam o movimento das viaturas do choque com a precisão cirúrgica de um relógio suíço.
Sob seu comando, o crime organizado em Pedra Bruta era uma engrenagem lubrificada por uma inteligência que muitos chamavam de genialidade maligna. Ele se via como o "Arquiteto". Ele projetava uma ordem social onde o Estado havia falhado miseravelmente há décadas. Sob seu punho de ferro, porém justo, a comunidade experimentava uma paz que nenhum projeto governamental jamais entregou. Não se rouba morador, não se oprime o trabalhador, e a violência gratuita era proibida para não atrair operações policiais que terminavam em corpos de inocentes cobertos por lençóis de jornal.
Mas a paz em um terreno construído sobre o alicerce da pólvora é o alvo mais cobiçado pela inveja. Kael cometeu o erro fatal de acreditar que a lealdade era uma constante matemática, algo imutável como pi ou a gravidade. Ele esqueceu que o inimigo mais letal não é o rival com fuzil estrangeiro, mas aquele que senta à sua mesa no almoço de domingo, compartilha do seu pão e carrega o mesmo sangue correndo nas veias.
Breno era a sombra que Kael tentou iluminar, sem perceber que algumas sombras nascem da própria podridão inerente da alma. Enquanto o irmão mais velho coordenava um império que movimentava milhões, Breno acumulava um ressentimento que fermentava como veneno no sol escaldante. Ele queria o trono, o brilho, a reverência. Odiava a calma do irmão. A traição foi uma obra-prima da perversidade: Breno usou Vanessa, a própria mulher dele, como um peão descartável em seu jogo sujo pelo poder.
A noite do crime foi um ensaio sobre o horror absoluto. Numa chuva fina e gélida, Breno ligou para Kael simulando um desespero lancinante, alegando que Vanessa fora atacada. Kael desceu o morro sem escolta, desarmado emocionalmente. O que ele encontrou foi o cenário do seu próprio enterro em vida: o corpo de Vanessa estendido num oceano escarlate sobre o mármore italiano. O "click" metálico da arma que Breno deixou cair ao lado de Kael precedeu a invasão da polícia. Kael foi pego de joelhos, com as mãos manchadas de sangue, tentando estancar uma ferida que já não tinha vida. Naquela noite, o golpe final não veio das algemas, mas do olhar de sua mãe, Marta, que escolheu acreditar na dor teatral e ensaiada de Breno. O Arquiteto morreu ali; o que restou foi uma estrutura de puro gelo e um ódio que se refinaria ao longo de cada segundo de cárcere.
PARTE II: O ECLIPSE DO CONTROLE E A LEI DO IMPACTO
O trajeto até o Hospital Central foi um borrão de luzes de freio e sirenes imaginárias ecoando na mente de Íris Duarte. Ela dirigia com uma precisão gélida, as mãos coladas ao volante na posição "dez e dez", cortando o trânsito como se o seu SUV fosse um bisturi. O medo de perder a mãe para a Neutropenia Febril era uma fera faminta mordendo seus calcanhares, mas ela o mantinha enjaulado sob o jaleco de linho. Ela precisava ser a médica antes de ser a filha; se deixasse a emoção assumir o volante, elas não chegariam vivas.
Após deixar a mãe estabilizada sob os cuidados da equipe de oncologia, Íris voou para buscar documentos e itens pessoais. O tempo era sua única variável controlável. Mas o destino tinha outros planos. No retorno, o trânsito do Leblon, na Vieira Souto, travou completamente. Íris, no celular com o pai, tentava manter a sanidade enquanto os segundos escorriam como areia por entre os dedos.
BUM!
O mundo não apenas parou; ele implodiu. Um esturro metálico, um choque seco e brutal que reverberou por cada vértebra de sua coluna. O impacto traseiro foi tão violento que seu SUV de duas toneladas foi projetado para frente como um brinquedo de plástico. A cabeça de Íris foi lançada contra o volante com um baque surdo. Sangue quente começou a escorrer sobre sua sobrancelha perfeitamente delineada. O celular voou para o abismo escuro do console. O riso do pai no telefone sumiu num chiado abafado de linha aberta.
— Mas que desgraçado... — ela rosnou, a fúria incinerando qualquer traço de dor física.
Ela abriu a porta com um chute, saindo para o asfalto que pulsava o calor da noite carioca. A traseira do seu carro estava reduzida a pó de vidro e metal retorcido. Atrás dela, um sedã preto blindado, imponente e sinistro, com vidros tão escuros que pareciam buracos negros.
— VOCÊ TÁ CEGO, SEU i****a? — gritou ela, batendo com força no capô do blindado, deixando a marca de sua mão ensanguentada no metal preto brilhante.
A porta do sedã abriu com uma lentidão cínica. Kael desceu. Ele não era um playboy distraído; era uma força da natureza vestida de couro e jeans escuro. Ele tinha olhos de granito, profundos e calculistas, que analisavam Íris como se ela fosse uma equação a ser resolvida.
— Dirigindo e falando ao celular? — A voz dele era um trovão grave, uma vibração que parecia vir das entranhas do asfalto. — É assim que vocês salvam vidas agora, "doutora"? Com uma mão no volante e a outra na fofoca?
Íris quase explodiu. A audácia do homem em inverter a culpa, em usar o seu desespero contra ela, foi o estopim de sua alma estraçalhada pelo luto e pela recente descoberta da traição de seu falecido marido, Rafael.
— Eu não estava na fofoca! Estava numa emergência! Minha mãe está morrendo e você, seu irresponsável, destruiu meu único caminho até ela! Você é um obstáculo para a vida de quem não tem tempo!
Kael riu, um som seco, desprovido de qualquer humor.
— Você fala de tempo como se fosse a dona dele, boneca. Mas olha só para você... presa aqui no asfalto, sangrando e gritando com um estranho. Aceita logo que você errou. Fica menos feio do que esse seu showzinho de histeria.
Ele sacou um talão de cheques e rabiscou um valor que faria qualquer pessoa normal tremer as pernas.
— Esse valor está bom para você? Compra um carro novo e tira umas férias para cuidar desse seu temperamento de cão. Considera um patrocínio para a sua falta de atenção.
Íris arrancou o papel da mão dele, rasgou em dez pedaços e jogou os restos na cara dele como se fosse neve no inferno.
— Enfia esse valor no seu... eu não quero seu dinheiro sujo de prepotência! Eu quero que você aprenda que nem tudo na vida se resolve com dinheiro!
Quando ela se virou para sair, Kael a provocou uma última vez: "Vê se não fala no celular enquanto dirige, hein?". Foi o limite. Íris voltou como um furacão, dedo em riste, pronta para incinerá-lo. Num movimento fluido, Kael grampeou o pulso dela com uma mão e, com a outra, envolveu sua cintura, colando o corpo dela no dele. O impacto foi eletrizante. O cheiro de hospital dela e o perfume caro dele colidiram num vácuo de tensão.
— Me solta! Você ficou louco? — ela sibilou, a voz saindo rouca.
— Você grita demais para quem está no meio de uma avenida bloqueada — ele sussurrou perigosamente perto dos lábios dela. — E eu já te disse: eu não gosto de deixar projetos inacabados.
O trânsito ao redor era um hospício. Motoristas gritavam para eles saírem da frente. Íris o empurrou com toda a sua força, entrou no carro e arrancou pelo canteiro, deixando o para-choque para trás. Kael ficou lá, encostado no blindado, sentindo o vazio deixado pelo perfume dela. m*l sabiam eles que o Rio de Janeiro era pequeno demais para a colisão que estava por vir.
PARTE III: O REENCONTRO NO PURGATÓRIO (MESES DEPOIS)
Meses se passaram. O mundo de Íris desmoronou ainda mais quando ela descobriu que Rafael tinha uma vida dupla, outra família e um filho de seis anos que carregava seus traços. A dor virou uma fúria fria. Para não sucumbir, ela aceitou uma missão voluntária no presídio de segurança máxima. Ela queria encarar o pior da humanidade para entender a escuridão que o marido escondera dela.
O presídio cheirava a desinfetante barato e desespero. Íris estava na enfermaria, organizando prontuários com uma rigidez militar, quando a porta de ferro gemeu. Um detento entrou para tratar um corte profundo — um ferimento "acidental" que cheirava a briga de galeria.
Ela nem levantou os olhos de imediato.
— Senta aí. Vai precisar de pontos.
— Vai usar a mesma mão que rasgou meu cheque, boneca? Ou essa aí só serve para apontar o dedo no asfalto?
O coração de Íris errou a batida. O ar na sala pareceu subitamente escasso. Ela levantou o rosto devagar. Lá estava ele. Sem a jaqueta de couro, vestindo o uniforme laranja do sistema carcerário, mas com a mesma postura de rei em exílio. O rosto estava mais marcado, o olhar de granito ainda mais afiado pelas sombras da cela.
— Você... — as palavras dela saíram como um sopro de incredulidade. — O arrogante desgraçado do blindado...
Kael deu um sorriso torto, sentando na maca com uma calma que desafiava as grades ao redor.
— O mundo dá voltas, doutora. E olha onde o projeto nos trouxe. Para o mesmo teto.
Íris sentiu o sangue ferver, mas agora era uma raiva diferente, uma que queimava por dentro. Ela pegou a agulha com uma firmeza perigosa.
— Eu devia ter imaginado. Sabia que era bandido, traficante... tinha cara de quem vivia na lama. O asfalto da Vieira Souto não era o seu lugar, não é? O seu lugar é aqui, atrás das grades, como o lixo que você é.
Kael não se abalou. Ele inclinou o corpo para frente, invadindo o espaço pessoal dela mesmo algemado em um dos pulsos à maca.
— Você fala muito de "lugar", boneca. Mas o "lixo" aqui sabe mais da sua verdade do que aquele marido santo que você enterrou. O asfalto mente, a cadeia não. Aqui, a gente vê quem as pessoas são de verdade. E você... você não é essa santa de jaleco. Você tem um abismo aí dentro que está gritando para sair.
— Cala a boca! — ela disse, começando a sutura sem anestesia, querendo ver se ele gritava, se ele sentia algo além de arrogância.
Kael nem piscou. Ele fixou os olhos nos dela, suportando a dor física como se fosse um detalhe técnico sem importância.
— Pode furar, doutora. A carne já está calejada. Mas a sua alma está em carne viva. Você está aqui porque quer ver o monstro nos outros para parar de procurar por ele no espelho. A gente se reconheceu naquele asfalto, Íris. Dois traídos, dois feridos pela lealdade.
Íris parou por um segundo, a agulha suspensa, a respiração curta. O cheiro de álcool e o calor da pele dele a transportaram de volta para aquela noite no Leblon. O toque dele ainda parecia marcado em sua pele.
— Você não sabe nada sobre mim — ela mentiu, tentando recuperar o controle.
— Eu sou o Arquiteto, esqueceu? — ele sussurrou, a voz vibrando na espinha dela. — Eu projeto rotas de fuga. E a sua rota de fuga dessa mentira que você vive... sou eu. O alvará vai sair, Íris. E quando eu pisar no Pedra Bruta para cobrar o que me devem e retomar o meu trono, eu vou querer a minha médica do meu lado.
— Você está louco se acha que eu vou me envolver com um criminoso — ela rebateu, terminando o último ponto com um puxão ríspido.
— Condenado pela lei dos homens, talvez. Mas inocente na lei do sangue. O jogo está só começando, boneca. Prepara o teu psicológico, porque o fogo que a gente começou naquela avenida vai incendiar este estado todo. A vingança é o meu projeto final.
Ele se levantou quando os guardas bateram na porta de ferro, sinalizando o fim do atendimento. Antes de sair, ele parou ao lado dela, o som das correntes ecoando no silêncio mortal da enfermaria.
— Guarda o meu lugar, doutora. O Arquiteto está voltando para casa. E desta vez, não vai ter cheque para rasgar. Vai ter sangue para limpar.
Íris ficou parada, vendo-o desaparecer no corredor escuro das galerias. Ela olhou para as próprias mãos; elas tremiam visivelmente. Ela sabia que ele era o perigo real, a personificação de tudo o que ela devia odiar. Mas naquele purgatório de mentiras e sombras, Kael era a única coisa que parecia, assustadoramente, de verdade.
A vingança estava sendo desenhada em traços de ódio e paixão. Pedra Bruta estava prestes a ver o retorno de seu verdadeiro rei. E a Doutora, que jurou salvar vidas, estava prestes a descobrir que, para alguns venenos, o único antídoto é o caos absoluto.
NOTA DA AUTORA
E aí, meninas? O que acharam desse prólogo ? O destino realmente não brinca em serviço! Kael e Íris já se estranharam no asfalto e agora o acerto de contas é dentro de um presídio de segurança máxima.
Será que desta rivalidade explosiva vai nascer um amor capaz de superar a traição e o crime? Ou será que o abismo entre eles é profundo demais para ser atravessado? Íris é uma mulher de princípios, mas o Arquiteto sabe exatamente onde tocar para desestabilizar o mundo dela.
Preparem o coração, pois este é apenas o começo de uma jornada repleta de vingança, poder e um desejo incontrolável. Fiquem ligadas para os próximos capítulos, porque o Pedra Bruta vai pegar fogo!
ANOTAÇÃO IMPORTANTE: Fiquem atentas ao calendário! No dia 01 de Abril teremos um novo lançamento explosivo aqui no perfil! Não é mentira, é a promessa de uma história que vai abalar todas as vossas estruturas!