O ECLIPSE DO CONTROLE E A LEI DO IMPACTO
PARTE I: O PROTOCOLO DO MEDO
O trajeto até o Hospital Central foi um borrão de luzes de freio, sirenes imaginárias ecoando na minha mente e o som da respiração curta e ruidosa da minha mãe no banco de trás. Eu dirigia com uma precisão gélida, as mãos coladas ao volante na posição "dez e dez", cortando o trânsito da metrópole como se o meu SUV fosse um bisturi abrindo caminho em um tecido necrosado. O medo era uma fera faminta mordendo meus calcanhares, mas eu o mantinha enjaulado sob o meu jaleco de linho. Eu precisava ser a médica antes de ser a filha; se eu deixasse a filha assumir o volante, nós não chegaríamos vivas.
Ao cruzarmos as portas automáticas da emergência, o protocolo que eu tanto defendia como uma religião assumiu o controle absoluto. A equipe de plantão, reconhecendo-me de imediato, agilizou a triagem. Helena foi levada para uma ala reservada, um box de isolamento com pressão positiva, onde o monitoramento multiparamétrico começou a bipar em um ritmo que parecia zombar da minha ansiedade.
A Dra. Beatriz Lemos, oncologista chefe e uma das poucas profissionais cuja competência eu respeitava sem ressalvas, entrou no quarto com o semblante sério. Ela não perdeu tempo com amenidades. Examinou os exames de sangue que eu mesma fiz questão de processar no laboratório de emergência em tempo recorde. Meus olhos devoravam o hemograma: a contagem absoluta de neutrófilos estava abaixo de 500/mm³. O diagnóstico era uma sentença técnica que eu já conhecia, mas que ouvir da boca de outra pessoa tornava real.
— Íris, o quadro é de Neutropenia Febril, exatamente como você suspeitou no primeiro toque — Beatriz disse, ajustando os óculos e olhando para Helena, que agora repousava sob o efeito de uma dose baixa de ansiolítico para acalmar os calafrios. — A imunidade dela sofreu um nadir severo após essa última sessão de quimioterapia com o protocolo de taxanos. O corpo dela está sem soldados para lutar contra qualquer bactéria comum.
Senti um peso hercúleo sair dos meus ombros, apenas para ser substituído por uma nova camada de tensão. Olhei para o meu pai, que parecia ter envelhecido décadas em apenas algumas horas. Ele estava sentado ao lado da cama, segurando a mão de Helena com uma força que era, ao mesmo tempo, um ato de amor e um pedido desesperado para que ela não partisse.
— Vou iniciar imediatamente o protocolo de antibioticoterapia de largo espectro, via intravenosa — continuou Beatriz, anotando as prescrições. — Vamos usar cefepime e monitorar a curva térmica a cada hora. Ela precisa de hidratação vigorosa e isolamento rigoroso. Ninguém entra aqui sem máscara N95 e higienização completa.
— Eu vou ficar com ela, Beatriz — anunciei, minha voz não aceitando contestações. — Vou dobrar meu turno, cancelar minhas consultas de amanhã. Não saio do lado dela por nada.
— Íris, querida — meu pai interveio, levantando-se com dificuldade, os olhos marejados refletindo as luzes fluorescentes do hospital. — Você m*l dormiu. Teve um dia exaustivo na pediatria, lidando com o peso do mundo. Deixe que eu fico. Eu conheço os horários dela, as manias de como ela gosta que arrume o travesseiro... você precisa de um mínimo de descanso para poder ser a médica lúcida que ela vai precisar amanhã.
— Pai, eu não vou conseguir pregar o olho sabendo que ela está aqui sob risco de uma sepse — rebati, a teimosia ruiva faiscando em cada poro. — Eu sou a única que entende a gravidade real disso aqui! Se eu sair, sinto que o sistema colapsa!
— Então faça o seguinte — ele sugeriu, com aquela doçura que sempre me desarmava. — Vá em casa. Pegue a pasta de couro com os documentos originais e o histórico das biópsias anteriores que ficaram na escrivaninha. Pegue a bolsa de higiene dela, o lenço de seda azul que ela tanto gosta e aproveite para pegar algo para comermos. O café do hospital é intragável e você sabe disso. Eu não saio daqui por nada. É minha missão de vida, Íris. Deixe-me cumpri-la.
Eu olhei para Beatriz, que assentiu silenciosamente, reforçando que a estrutura do hospital estava garantida pela melhor equipe possível. Suspirei, rendendo-me à lógica implacável. Eu precisava de uma ducha para tirar o cheiro de hospital, de roupas limpas e da bolsa de Helena.
— Tudo bem. Eu vou e volto voando. Dez minutos para chegar, dez para organizar tudo e dez para voltar. Não ria, pai, eu cronometro tudo porque o tempo é a única variável que a gente ainda pode tentar controlar — eu disse, já me virando para sair, o som dos meus saltos estalando no corredor como tiros.
Ele soltou uma risadinha fraca, um som que aqueceu meu coração por um breve segundo.
— Vá logo, minha pequena Arquiteta da Ordem.
Saí do hospital como um furacão, ignorando o cansaço que começava a nublar minha visão. O ar da noite estava denso, carregado com a promessa de uma tempestade de verão que se recusava a cair, mantendo a umidade em níveis sufocantes. Entrei no meu SUV, joguei o estetoscópio no banco do passageiro e arranquei, os pneus cantando levemente no asfalto quente. O trajeto até o nosso edifício de alto padrão no Leblon foi feito no modo automático. Minha mente era uma calculadora biológica: repassando níveis de creatinina, balanço hídrico e a imagem daquela outra mulher que Rafael escondera de mim. O trabalho era meu único escudo contra a memória da traição.
Entrei no apartamento 1202, o santuário dos meus pais, onde cada detalhe exalava uma vida de amor que eu agora via como uma raridade estatística. Peguei a bolsa de couro macio da minha mãe e a pasta com os exames. Passei no meu próprio apartamento, o 1201, apenas para trocar meu scarpin por um tênis de couro mais funcional e retocar o batom. Eu precisava daquela máscara de perfeição para não desmoronar.
Já de volta ao carro, o cenário mudou. Uma retenção inesperada na avenida principal, causada por um acidente quilômetros à frente, transformou a via em um cemitério de metal, luxo e impaciência. As buzinas formavam uma cacofonia irritante. A ansiedade borbulhava em mim como ácido. Peguei o celular no console e disquei para o meu pai. O tempo estava correndo contra nós.
— Pai? — chamei assim que ele atendeu. O celular estava pressionado entre meu ombro e minha orelha enquanto eu tentava avançar miseráveis centímetros na fila indiana.
— Oi, filha. Ela acordou agora por um instante, pediu um pouco de água. A febre estabilizou em 37,9°C. A Beatriz já começou o antibiótico. Estamos indo bem, no tempo dela — a voz dele trouxe um alento momentâneo, mas a preocupação ainda estava lá, subjacente.
— Ótimo. Eu já peguei tudo, inclusive o prontuário antigo. Estou presa nesse engarrafamento infernal, mas em breve chego aí para te render. E não ria do meu jeito, pai, eu sei que sou paranoica com horários, mas em uma emergência oncologia, cada segundo de atraso é uma porta aberta para a morte!
Meu pai soltou uma gargalhada genuína do outro lado da linha, um som que eu amava e que me lembrava de tempos mais simples.
— Eu não estou rindo da situação, querida. Só estou admirando como você tenta controlar até a órbita dos planetas para que nada saia do seu planejamento...
— Não ria, pai! Eu estou falan...
BUM!