Capítulo 26 A mágoa do Kael

709 Words
A marca do tapa dela ainda latejava na minha pele, o calor da palma da mão de Marta se transformando em uma pulsação rítmica e dolorosa que acompanhava cada batida pesada do meu coração. Mas a dor no meu peito era uma ferida muito mais antiga, uma fissura profunda e purulenta que eu vinha tentando ignorar, selando-a com camadas de concreto e cálculos frios, desde que me entendi por gente. Encarei os olhos dela aqueles olhos que nunca me viram como um ser humano, mas apenas me avaliaram como se eu fosse um projeto m*l executado, uma viga torta que insistia em não se alinhar ao desenho que ela idealizara para o herdeiro de Pedra Bruta. — Eu queria entender, mãe... — minha voz saiu baixa, carregada de uma amargura que eu não conseguia mais conter sob a máscara de granito. O silêncio que se seguiu no hall da mansão foi denso, pesado, cortado apenas pelo som da respiração ofegante dela. — Eu queria muito entender por que você tem tanta raiva de mim. Por que o seu olhar sempre carrega esse peso de julgamento? Desde que eu comecei a carregar esse fardo, desde que abdiquei da minha juventude, dos meus sonhos de arquitetura no asfalto, para garantir que a sua vida continuasse sendo esse conto de fadas regado a luxo e joias, você só me oferece espinhos e desprezo. Marta abriu a boca para rebater, as narinas dilatadas de indignação, mas eu não dei espaço. O eclipse do meu silêncio, que durou décadas de repressão, tinha acabado naquele exato microssegundo. O Arquiteto estava derrubando as paredes da própria contenção. — Eu nunca tive o seu carinho, mãe. Nunca soube o que era um abraço que não fosse protocolar ou uma palavra que não fosse uma cobrança disfarçada. O que eu sempre senti vindo de você foi a rejeição gélida. O carinho, o colo, as palavras doces... isso tudo sempre foi monopólio do Breno. Se ele quebrava um vaso de cristal de valor inestimável, você sorria e dizia que era "coisa de criança". Se ele roubava dinheiro da sua bolsa para se drogar com os moleques da Baixada, era "traquinagem de menino crescendo". Mas e eu? Se eu cometesse o menor deslize, se eu questionasse uma única ordem bruta do meu pai ou se eu tentasse ser algo além de um soldado perfeito e sem alma... você me espancava. Ela recuou um passo, o rosto empalidecendo sob a luz fria do lustre de cristal, mas eu avancei, a voz agora vibrando com a força de anos de silêncio, cada palavra saindo como um veredito final de um juiz sem misericórdia. — Você lembra, não lembra? Dos cintos de couro, das varas, do isolamento em quartos escuros por dias porque eu "não tinha o espírito de guerra do meu pai". Você tentou me quebrar sistematicamente até que sobrasse apenas isso: essa pedra fria e calculista que você agora despreza. Você me moldou com pancadas, me forjou no fogo da rejeição e agora reclama que eu não sou capaz de abraçar? Você destruiu a minha capacidade de sentir e agora exige afeto? Que tipo de engenharia emocional é essa, Marta? Olhei para cima, para o mezanino, onde o Breno continuava como um abutre à espreita, com o rosto inchado e um resto de sorriso que estava sumindo. O sorriso cínico dele agora estava levemente vacilante, as sobrancelhas franzidas diante da minha exposição pública de uma verdade que ele sempre usou para se sobressair como o "preferido". — O Breno podia incendiar o mundo inteiro que você daria o fósforo e o abraçaria no meio das cinzas! Eu? Eu sou o cara que apaga os incêndios que ele começa com a sua burrice c***l. Eu reconstruo o que ele destrói com a sua inconsequência. E o que eu recebo em troca é um tapa na cara e o seu ódio visceral! Você diz que o meu pai teria vergonha de mim? O meu pai morreu sabendo que o único motivo pelo qual o nome dele ainda significa algo nas ruas é porque o "filho seco" aqui não deixa a estrutura desabar sobre as nossas cabeças! Sem mim, vocês dois estariam apodrecendo em uma vala comum ou em uma cela de presídio federal!
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