O bip dos aparelhos no corredor, que antes era o ritmo reconfortante da minha competência, agora martelava no meu crânio como uma marcha fúnebre. Eu estava ali, sentada na minha cadeira de couro, com o carimbo de médica na mão e o coração sendo triturado, fibra por fibra, por uma ficha de papel. Olhei para o pequeno Leonardo — o Léo — e, pela primeira vez na minha carreira, a pediatra meticulosa deu lugar à mulher traída, à esposa enganada, à arquiteta que acabava de descobrir que sua própria fundação era feita de areia movediça. — Leonardo Alencar Duarte — repeti em um sussurro, as sílabas queimando minha língua como ácido. — Isso, doutora. — A mãe dele suspirou aliviada, um sorriso ingênuo e grato iluminando o rosto. Ela parecia uma mulher simples, bonita de um jeito solar, o oposto ab

