Capítulo 1 - Nanda
Nanda
Cinco anos atrás
Eu olhei para o teste de gravidez em cima da pia pela décima vez e levei a mão até a boca para tentar controlar o sorriso que insistia em aparecer. As duas linhas continuavam ali, bem fortes, provando que eu não estava imaginando nada e que aquele atraso que vinha me deixando preocupada tinha uma explicação muito maior do que qualquer coisa que tivesse passado pela minha cabeça.
Meu nome é Maria Fernanda, mas todo mundo me chama de Nanda. Tenho 18 anos, sou ruiva, tenho os olhos verdes, 1,70 m de altura e um corpo muito bonito. Sou casada com o Vampiro, o dono da Mangueira, mas é claro que eu não fico chamando meu marido pelo vulgo dentro de casa. Para mim, ele sempre foi Vinícius.
E agora eu estava grávida dele.
Ainda parecia estranho pensar nisso. Passei alguns minutos sentada na tampa do vaso, segurando o teste entre os dedos e imaginando como seria contar para ele. Vinícius não era exatamente o homem mais sentimental do mundo, mas eu sabia que ele queria construir uma família comigo. Nós já tínhamos conversado algumas vezes sobre filhos, embora nunca tivéssemos planejado que acontecesse naquele momento. Mesmo assim, eu estava feliz. Assustada porque uma criança mudaria completamente a nossa vida, mas muito mais feliz do que com medo.
Decidi que não contaria por mensagem nem por telefone. Queria olhar para a cara dele quando dissesse que seria pai, então guardei o teste dentro da bolsa e passei o restante da tarde pensando em como faria aquilo. No final, resolvi preparar a comida que ele mais gostava e esperar que chegasse em casa. Não precisava inventar nenhuma surpresa enorme, porque só queria nós dois, nossa casa e aquela notícia que, na minha cabeça, transformaria aquela noite em uma das mais especiais das nossas vidas.
Vinícius tinha me avisado que precisaria resolver algumas coisas no morro e provavelmente chegaria mais tarde, então preparei tudo com calma. Fiz a comida, arrumei a mesa e até tomei banho novamente para esperá-lo. Enquanto terminava de me arrumar, olhei para minha barriga pelo espelho e comecei a rir sozinha porque meu corpo continuava exatamente igual. Era estranho saber que tinha uma vida crescendo dentro de mim quando ainda não existia nenhuma mudança que outra pessoa pudesse perceber.
Perto das dez da noite, estava tudo pronto, mas Vinícius não apareceu. Esperei mais uma hora e mandei uma mensagem perguntando se ele demoraria. Como não respondeu, tentei ligar. O telefone chamou até cair e comecei a ficar preocupada. Eu conhecia a vida do homem com quem me relacionava e sabia muito bem que ser o dono da Mangueira significava não ter horário para quase nada, principalmente quando surgia algum problema. Ainda assim, Vinícius costumava me avisar. Se não pudesse falar comigo, mandava alguém dizer que estava tudo bem justamente porque sabia que eu ficava preocupada.
Quando passou da meia-noite e continuei sem nenhuma notícia, já não consegui permanecer sentada esperando. Peguei minha bolsa e saí de casa em direção à boca, porque imaginei que encontraria Vinícius por lá. Levei a comida que tinha preparado porque, na minha cabeça, ele estaria trabalhando e provavelmente não teria comido nada. Eu estava até irritada enquanto subia, pensando que brigaria com ele por ter me deixado preocupada justamente naquela noite. Depois entregaria a comida, esperaria ele comer e contaria sobre o bebê.
Quando cheguei, achei estranho encontrar tudo tão silencioso. A porta não estava completamente fechada, então entrei e chamei por ele, mas ninguém respondeu.
— Vinícius?
Continuei andando pelo corredor até ouvir um barulho vindo do quarto. Naquele momento, não pensei em traição e muito menos imaginei que existisse uma mulher ali. Apenas caminhei até a porta e empurrei.
Foi como se alguma coisa tivesse atravessado meu peito.
Vinícius estava na cama com outra mulher.
Laila.
Eu parei na mesma hora, sem conseguir entrar e sem conseguir recuar. Ela estava deitada ao lado dele, debaixo do mesmo lençol, com os cabelos espalhados pelo travesseiro e parte dos ombros descobertos. As roupas dela estavam jogadas perto da cama, e aquela cena não deixava espaço para qualquer outra interpretação na minha cabeça.
A sacola com a comida escapou da minha mão e bateu no chão.
A mulher virou o rosto na minha direção e arregalou os olhos.
— Maria Fernanda?
Eu nem respondi.
Eu não tinha nada para falar com aquela p*****a. Não queria saber há quanto tempo aquilo acontecia e muito menos quantas vezes Vinícius tinha me feito de i****a sem que eu percebesse.
Olhei para ele mais uma vez e senti as lágrimas queimarem meus olhos.
Horas antes, eu estava dentro de um banheiro sorrindo para duas linhas em um teste de gravidez. Depois, tinha passado a noite preparando comida para ele e imaginando a expressão que faria quando descobrisse que seria pai. Enquanto eu estava em casa sonhando com a nossa família, ele estava naquela cama com outra.
Dei um passo para trás.
— Fernanda, espera...
Não esperei, não gritei e não quis ouvir nenhuma explicação. Se permanecesse naquele quarto por mais alguns segundos, sabia que desabaria na frente dos dois, e ainda me restava orgulho suficiente para não permitir aquilo.
Virei as costas e saí correndo.
Ouvi meu nome novamente antes de alcançar a porta, mas continuei andando. Desci as ruas da Mangueira chorando com uma das mãos sobre a boca para tentar não chamar a atenção das pessoas que ainda estavam acordadas. Meu coração parecia ter sido arrancado do peito e, a cada passo, aquela imagem voltava para minha cabeça.
Vinícius com outra mulher.
O homem que eu amava tinha me traído.
E eu estava grávida dele.
Quando finalmente cheguei em casa, tranquei a porta e encostei as costas nela. Olhei para a mesa que tinha arrumado para nós dois e não consegui segurar mais nada. Chorei até minhas pernas perderem as forças e acabei sentada no chão, abraçada aos próprios joelhos, tentando entender como a noite que deveria ser uma das mais felizes da minha vida tinha se transformado na pior.
Passei a mão sobre a barriga ainda completamente lisa e chorei ainda mais. Eu não tinha culpa do que Vinícius havia feito, e muito menos o meu bebê. Meu bebê tinha sido desejado desde o segundo em que descobri sua existência, e nada que tivesse acontecido naquele quarto mudaria isso.
— Agora somos nós dois, meu amor. Eu ainda nem sei se você é um menino ou uma menina, mas eu vou cuidar de você. Eu prometo que nunca vai faltar amor.
Foi naquele momento que tomei minha decisão.
Eu iria embora.
Não ficaria esperando Vinícius aparecer para tentar explicar o que eu tinha acabado de ver com meus próprios olhos. Também não contaria que estava grávida. Algumas horas antes, eu queria desesperadamente dividir aquela notícia com ele, mas agora não conseguia imaginar olhar para sua cara e dizer que teríamos um filho.
Peguei uma mala e comecei a colocar minhas roupas dentro dela. Não organizei praticamente nada. Joguei o que conseguia carregar, separei meus documentos, peguei o dinheiro que tinha guardado e coloquei algumas coisas pessoais dentro da bolsa. Eu precisava sair antes que Vinícius aparecesse.
Meu celular começou a tocar.
O nome dele surgiu na tela.
Vinícius.
Meu dedo ficou parado por alguns segundos sobre o aparelho. Uma parte de mim queria atender, porque eu ainda amava aquele homem e sentimentos não desapareciam em poucos minutos. Mas bastou fechar os olhos para enxergar novamente a mulher naquela cama.
Recusei.
Ele ligou outra vez.
Recusei novamente.
Na terceira chamada, desliguei o celular e continuei arrumando minhas coisas.
Eu não estava deixando apenas um relacionamento para trás. Estava abandonando a vida inteira que imaginei construir com ele. Aquela casa deveria ser o lugar onde contaríamos sobre a gravidez para as pessoas próximas, onde começaríamos a comprar as primeiras coisas do bebê e onde, meses depois, provavelmente discutiríamos porque Vinícius estaria comprando coisas demais para uma criança que nem tinha nascido.
Nada daquilo aconteceria mais.
Antes do amanhecer, fechei minha mala e saí.
Consegui um carro para me levar para longe dali e coloquei minhas coisas no porta-malas sem olhar muito para trás. Só quando entrei e o motorista começou a descer percebi que estava realmente deixando a Mangueira.
Encostei a cabeça no vidro e acompanhei as ruas ficando para trás.
Doeu.
Doeu porque aquele lugar fazia parte da minha vida. Doeu porque eu estava indo embora sem saber quando veria novamente várias pessoas de quem gostava. Mas, principalmente, porque, até algumas horas antes, eu acreditava que meu futuro estava ali.
Agora, meu futuro era aquela criança que crescia dentro de mim.
Coloquei a mão sobre a barriga e respirei fundo, tentando controlar mais uma crise de choro.
— Nós vamos conseguir. Eu não sei como ainda, mas nós vamos conseguir.