Nanda
O médico fecha o prontuário da minha filha e solta um suspiro que faz meu coração disparar. Estou sentada diante dele há quase meia hora, tentando entender os resultados dos exames, mas tudo o que consigo pensar é que Ágata tem apenas quatro anos e já sofreu mais do que muitas pessoas durante uma vida inteira. Aperto as mãos sobre o colo, procurando alguma coisa que me ajude a controlar o medo, enquanto ele ajeita os óculos e volta a olhar para mim.
– Fernanda, a doença da sua filha é rara e compromete o funcionamento da medula óssea. Infelizmente, o quadro dela está se agravando, e precisamos começar o tratamento o quanto antes.
– Mas ela vai ficar boa, doutor? É só isso que eu quero saber. Minha filha vai ficar boa?
– Existe uma possibilidade de cura, mas precisamos considerar duas alternativas. A primeira é um tratamento específico, que tem um custo bastante elevado. A segunda é um transplante de medula óssea, caso encontremos um doador compatível.
– Quanto custa esse tratamento?
Quando ele me informa o valor, sinto o chão desaparecer debaixo dos meus pés. Não tenho aquele dinheiro. Poderia trabalhar durante anos, economizar cada centavo e ainda assim não conseguiria reunir a quantia necessária. Levo a mão à boca, tentando segurar o choro, porque não posso aceitar que a vida da minha filha dependa de um dinheiro que não tenho.
– E o transplante? Eu posso doar? Pode fazer todos os exames que precisar, doutor. Se tiver que tirar alguma coisa de mim para salvar minha filha, eu deixo.
– Vamos avaliar todas as possibilidades, Fernanda. Mas precisamos investigar a compatibilidade do pai também. Ele pode ser uma alternativa importante, caso seja compatível. Você consegue entrar em contato com ele?
A pergunta faz meu corpo inteiro gelar. Durante cinco anos, fiz de tudo para esquecer aquele homem, e agora descubro que talvez precise procurá-lo para salvar a única pessoa que tenho no mundo.
– Não sei se consigo – respondo, quase sem voz.
– Entendo que possam existir problemas entre vocês, mas estamos falando da saúde da Ágata. Precisamos tentar todas as possibilidades.
Saio do consultório com as pernas tremendo e caminho até o quarto onde minha filha está internada. Quando entro, encontro Ágata dormindo, abraçada ao ursinho que ganhou no último aniversário. A cadeira de rodas está ao lado da cama, e meus olhos se enchem de lágrimas ao lembrar que, há poucos meses, ela ainda conseguia brincar sem sentir tantas dores. Aproximo-me devagar, ajeito os cachinhos ruivos espalhados pelo travesseiro e beijo sua testa.
Minha pequena tem apenas quatro anos. Quatro anos de uma vida que começou quando a minha estava desmoronando. Ela não merece passar por nada disso, e eu daria qualquer coisa para trocar de lugar com ela.
O problema é que a única pessoa que talvez possa salvá-la é justamente o homem de quem passei os últimos cinco anos fugindo.
Vinícius.
Ou melhor, Vampiro, o dono da Mangueira.
Meu marido. O homem que eu amava mais do que tudo e que destruiu nossa história numa única noite.
Fecho os olhos, mas é impossível impedir que as lembranças voltem.
Cinco anos atrás.
Eu tinha dezoito anos quando vi aquelas duas linhas aparecerem no teste de gravidez. Lembro perfeitamente de estar sentada sobre a tampa do vaso, segurando aquele pequeno objeto entre os dedos e tentando acreditar que realmente estava grávida. Levei a mão à boca para controlar o sorriso, porque nunca tinha sentido uma felicidade tão grande. Vinícius e eu éramos casados, e eu tinha certeza de que ele ficaria feliz quando descobrisse que seria pai. Passei alguns minutos imaginando sua reação, pensando em como seria nossa família e em todas as coisas que viveríamos juntos.
Eu estava grávida do homem que amava.
E acreditava que nada poderia destruir aquela felicidade.
Abro os olhos quando Ágata se mexe na cama. Minha filha solta um gemidinho, mas continua dormindo. Seguro sua mão pequena e sinto outra lembrança atravessar minha cabeça, tão nítida que parece ter acontecido ontem.
Naquela noite, fui até a boca de fumo para encontrar Vinícius. Levava a comida que tinha preparado para ele e uma notícia que mudaria nossas vidas. Quando cheguei, achei estranho encontrar tudo tão silencioso, mas não imaginei que alguma coisa estivesse errada. Entrei e caminhei pelo corredor até ouvir um barulho vindo do quarto. A porta estava encostada. Bastou empurrá-la para que meu mundo inteiro desmoronasse.
Vinícius estava na cama com outra mulher.
A comida na minha mão caiu no chão.
Fiquei parada na entrada do quarto, olhando para os dois sem conseguir acreditar no que estava vendo. Os lençóis estavam bagunçados, havia roupas espalhadas pelo chão e não existia nenhuma explicação capaz de apagar aquela cena da minha cabeça.
Aperto os olhos, sentindo uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
Ainda consigo me lembrar do instante em que a mulher virou o rosto na minha direção.
Era Laila.
Ela estava deitada ao lado do meu marido, debaixo do mesmo lençol, e arregalou os olhos quando me reconheceu.
– Maria Fernanda?
Não consegui responder. Olhava para ela, depois para Vinícius, tentando entender como duas pessoas podiam me humilhar daquela maneira. Horas antes, eu estava comemorando uma gravidez, imaginando a expressão que meu marido faria quando descobrisse que seria pai. Enquanto eu sonhava com nossa família, ele estava na cama com outra.
– Fernanda, espera... – Vinícius disse, levantando-se.
Mas eu não queria ouvir nada.
Não queria explicações, desculpas ou promessas. Naquele momento, a única coisa que desejava era desaparecer dali antes que ele percebesse o tamanho da minha dor.
– Mamãe...
A voz fraquinha de Ágata me traz de volta ao presente. Limpo rapidamente as lágrimas e me aproximo da cama, encontrando seus olhinhos verdes entreabertos.
– Oi, meu amor. A mamãe está aqui.
– Quero ir pra casa.
Sinto meu coração apertar. Ela já me fez essa pergunta tantas vezes que perdi a conta, e cada vez fica mais difícil explicar por que precisamos continuar naquele hospital.
– Eu sei, princesa. A mamãe também quer ir pra casa, mas precisamos cuidar de você primeiro.
– Você promete?
– Prometo que vou fazer tudo o que puder para você ficar boa.
Ela fecha os olhos novamente, e permaneço segurando sua mão até perceber que voltou a dormir.
Olho para o rosto da minha filha e lembro da última vez em que estive na Mangueira.
Depois de encontrar Vinícius com Laila, voltei para casa completamente destruída. Chorei até minhas pernas perderem as forças, sentada no chão do quarto que dividíamos. Naquela noite, abracei minha barriga e prometi ao bebê que estava crescendo dentro de mim que nunca deixaria faltar amor em sua vida. Peguei uma mala, coloquei minhas roupas e meus documentos dentro dela e fui embora antes do amanhecer. Não contei a Vinícius que estava grávida. Não tive coragem de olhar novamente para o homem que tinha acabado de partir meu coração.
Lembro de entrar no carro, olhar pela última vez para as ruas da Mangueira e colocar a mão sobre a barriga.
– Nós vamos conseguir. Eu não sei como ainda, mas nós vamos conseguir.
E conseguimos, pelo menos durante algum tempo.
Só que minha fuga teve consequências que eu jamais poderia imaginar.
Pouco depois da minha partida, Vinícius foi preso. Ele acreditou que eu tinha sido responsável por sua prisão, que o havia denunciado e entregado à polícia. Nunca fiz isso. Fui embora porque não suportava continuar ao lado dele depois do que vi, mas Vampiro nunca acreditou na minha inocência.
A notícia de sua ameaça chegou até mim e acabou com qualquer possibilidade de retorno. Ele jurou que me mataria se eu colocasse os pés na Mangueira novamente.
Desde então, vivi tentando manter minha filha longe daquele mundo. Vinícius nunca soube que eu estava grávida quando fui embora, muito menos que tem uma menina de quatro anos que herdou tantas características dele.
Agora, porém, não posso continuar escondendo a verdade.
Olho para Ágata, tão pequena naquela cama de hospital, e sinto o desespero apertar meu peito. Se procurar Vampiro, talvez ele não queira me ouvir. Talvez nem acredite que Ágata seja sua filha. Mas, se eu não fizer nada, posso perder a pessoa mais importante da minha vida.
Seguro a mão dela com mais força e tomo a decisão que venho evitando desde que saí do consultório.
Vou voltar à Mangueira.
Vou procurar Vinícius, contar que temos uma filha e implorar para que faça os exames de compatibilidade. Se precisar me ajoelhar diante dele, vou fazer isso. Meu orgulho deixou de ter importância no instante em que o médico disse que Ágata precisava de ajuda.
O que me apavora não é apenas a possibilidade de ele recusar.
É saber que, para salvar minha filha, vou precisar enfrentar o homem que mais me odeia neste mundo.
Eu tinha jurado nunca mais voltar. E ele tinha jurado me matar se eu voltasse.