Acordo ao som do despertador.
Mais um dia.
Desligo o despertador, uma vontade de chorar, mais um dia que as coisas vão ser exatamente iguais, e isso me cansa, já tem tenho mais medo do manhã, pois já sei como ele começa e como termina, isso dói, ser sempre a mesma coisa, dói se sentir inútil, não sentir vontade alguma de levantar da cama, afinal, é só mais um dia como todos os outros, mais um dia em que eu vou viver e fazer absolutamente as mesmas coisas. As vezes eu sinto vontade de mudar e quando eu tento vejo tudo dar errado em questão de segundos, acho que a minha vida está resumida a isso, ser sempre o mesmo, a diferença é que a vontade de viver diminui a cada nascer do sol, a cada toque do meu despertador e todas as vezes que eu levanto da cama.
Respirei fundo.
Mais uma vez. Respiro mais fundo ainda, procurando ar o suficiente pra me levantar e começar o dia.
Levanto, vou no banheiro e lavo o rosto, escovo os dentes. Tomo um banho gelado pra vê se esses sentimentos vão embora com a água corrente. Depois do banho coloco minha roupa pra ir pro trabalho, arrumo minha bolsa, pego o meu celular e vejo que tem mensagem do Iago.
WhatsApp
Iago:
Bom dia, cê tá bem?
Tive um sonho com você...
To passando pra te desejar um bom dia
Quero que você saiba que estarei sempre aqui.
Um beijo e um bom trabalho, amo você!
Eu:
Bom dia. Não acordei bem
Não sei se estou vem, mas vou ficar
Tenha um ótimo dia
Também amo você!
WhatsApp
Coloco o celular no bolso da calça e desço pra tomar café. Meu pai como todos os dias estava no comando, Philip já tinha buscado o pão, minha mãe e o Luide já estavam lá em baixo, acho que só faltava eu mesmo.
Lúcio:
— Bom dia meu bem – me deu um beijo na testa.
Fabiana:
— Pensei que não ia descer hoje.
Iris:
— Tomei um banho pra acordar de verdade.
Philip:
— Isso sempre funciona comigo.
Lúcio:
— Tá ansiosa pro jogo filha?
Iris:
— Não muito, acho que o treino de sexta vai me deixar mais ansiosa.
Philip:
— Domingo eu tenho jogo.
Iris:
— Que legal, que horas, com certeza eu vou.
Fabiana:
— Você não tinha uma festa pra ir?
Iris:
— A festa é a noite mãe, eu posso ir no jogo do Lip sem preocupações.
Luide:
— Sis me leva.
Iris:
— Levo.
Lúcio:
— Acho que a família toda tem dois esportes para assistir esse fim de semana.
Tomamos café, subi e escovei os dentes, desci e meus pais estavam discutindo sobre a venda da casa da praia, minha mãe queria vender e meu pai, eu e Philip passamos uma grande parte da nossa infância lá, ano passado fomos pra só nós dois e tocamos o terror, lá sempre funcionou pra mim fugir dos meus problemas e eu não queria que vendesse.
Desci a escada e eles pararam de falar, fui pra fora pra esperar meu pai. De longe vejo o carro do Gabriel. Ele foi meu namorado, ele terminou comigo e depois de 3 dias pediu pra voltar, meu pai quis jogar água fervente nele, mas minha mãe não deixou, ele é totalmente imaturo e muito chato, fica insistindo pra ter amizade, ou até mesmo uma nova chance de namoro, diz que ainda me ama e que quer me reconquistar. Ele parou o carro perto de mim e baixou o vidro.
Gabriel:
— Eu sei que você está me evitando...
Iris:
— Ah, sério? Pensei que eu só estivesse seguindo a minha vida.
Gabriel:
— Caraca, o que custa a gente conversar.
Iris:
— O que custa você me deixar em paz e me esquecer?
Gabriel:
— É tudo o que eu queria, mas não consigo, você sabe, já te disse.
Iris:
— Me erra garoto, caça teu rumo.
Lúcio:
— Tá tudo bem por aqui? – apareceu com um tom de voz bravo.
Gabriel:
— Eu só estava cumprimentado a Sis
Philip:
— Pra você é Iris, se liga.
Gabriel:
— Ok, já entendi.
Lúcio:
— Acho bom.
Ele fechou o vidro do carro e saiu acelerando. Entrei no carro, meu pai ia levar o Philip pra escola, o amigo que ele sempre pega carona está doente e vai ficar o resto da semana em casa. Deixamos ele na porta da escola, me lembrei de dois anos atrás, eu estava aqui, daqui alguns meses faço 19 anos.
Lúcio:
— É me lembro quando eu te trazia aqui, na porta da escola.
Iris:
— Eu adorava, você sabe.
Lúcio:
— Eu sei que você ouviu a minha conversa com a sua mãe.
Iris:
— Pai eu não quero que venda a casa da praia, Philip também não quer, poxa nossa infância toda ali.
Lúcio:
— Sua mãe quer comprar outra casa.
Iris:
— Aí meu Deus, pra que? Nossa casa é tão grande.
Lúcio:
— Ela disse que quer uma mais no centro e mais perto da família dela.
Iris:
— Não tem dinheiro no banco o suficiente pra isso?
Lúcio:
— O pior é que tem, mas eu não quero deixar ela mexer no dinheiro da sua faculdade, tem a do Philip também.
Iris:
— E é esse dinheiro que ela quer?
Lúcio:
— É.
Iris:
— Poxa.
Fiquei quieta, apenas pensando, era meu dinheiro, que chato. Chegamos na empresa e eu fiz o mesmo de sempre, quando eu digo que a rotina é algo cansativo é disso que eu falo. Passei a parte da manhã toda pensando na conversa que tive com o meu pai. Almocei fora com ele, não falamos mais sobre o assunto. Estávamos contando pra empresa, no carro e ele quebrou o silêncio.
Lúcio:
— Tadeu está de mudança pra cá.
Iris:
— Pra cá? Pra onde? Pra nossa casa?
Lúcio:
— Lógico que não, sua mãe me mataria. Ele está de mudança pra cidade.
Iris:
— Isso é bom não é?
Lúcio:
— Sua mãe odiou essa notícia.
Iris:
— Tadeu não tem culpa nenhuma das suas atitudes, ele é só uma criança, mamãe deveria entender isso.
Lúcio:
— É, mas não entende, ela disse que não quer o Luide perto dele.
Iris:
— Os dois são irmãos, meio irmãos, mas tem sangue que une eles, que horror.
Lúcio:
— Explica isso pra sua mãe.
Iris:
— Eu não, ela vai falar que eu apoio seus erros e dizer que eu mereço mesmo ficar sem o meu dinheiro da faculdade já que eu nunca faço nada, você sabe que é sempre assim.
Lúcio:
— É, infelizmente.
Iris:
— As vezes eu acho que ela acha que eu sou uma inimiga dela, que eu vou te roubar dela e esquece que eu sou sua filha.
Lúcio:
— As vezes eu sinto que quanto mais velha você fica, mais difícil fica a convivência convivência entre vocês duas.
Iris:
— E você está totalmente certo.
Chegamos na empresa, eu voltei pra minha mesa. Tem sido assim a meses, minha mãe sempre acha algo pra jogar na minha cara, muitas coisas bobas, tenho evitado estar no mesmo ambiente que ela, eu tentei trabalhar na empresa da família dela, mas até lá ela dava um jeito de me encher a paciência.
No cair da tarde fui embora, com o meu pai, ele me deixou em casa e foi pra academia, eu me troquei, coloquei meu uniforme do vôlei, tomei meu café da tarde e fiquei esperando a Sophie. Ela não demorou muito, assim que ela parou entrei no carro, minha mãe tinha acabado de chegar em casa e eu não estava muito afim de conversar com ela.
Sophie:
— O que foi?
Iris:
— Muitas coisas que nem sei por onde começar...
Alina:
— Quando você fala assim da até medo.
Iris:
— Não quero falar sobre isso hoje, nem amanhã é nem depois, prefiro esquecer.
Alina:
— Quem vê pensa que você consegue.
Sophie:
— Dorme em casa de sábado pra domingo, a gente faz a noite das meninas.
Alina:
— Adorei a ideia.
Iris:
— Philip tem jogo domingo e eu prometi levar o Luide.
Sophie:
— A gente vem e busca ele.
Iris:
— Tá, me convenceu.
Alina:
— Eu vou adorar, eu tô precisando disso.
Iris:
— Sabe quem parou na frente da minha casa hoje?
Sophie:
— Gabriel?
Iris:
— Esse i****a mesmo.
Alina:
— Meu Deus ele não desiste nunca?
Sophie:
— Não – rimos.
Iris:
— Meu pai já queria voar no pescoço dele.
Sophie:
— É por isso que eu amo o tio Lúcio.
Fomos pro vôlei, o treino foi mais suave, mas já sabíamos que o de sexta ia ser bem puxado, seria o último treino antes do jogo, que seria na parte da tarde, só em pensar, que esse jogo poderia decidir quem entra ou não no campeonato, e com certeza temos que ganhar.
Sophie me deixou em casa, fui pro meu quarto, tomei meu banho, jantei e fui deitar, o cansaço físico e mental hoje estava demais, dei apenas um boa noite no grupo e fui dormir, era o que eu precisava e o que eu queria.
03:54
Acordo assustada e soando.
Mais um pesadelo.
Sinto meu rosto molhado.
Mais um pesadelo tão real que chorei.
Mandei mensagem pra Paola e ela me respondeu, conversamos um pouco e ela me tranquilizou, deixei o celular de lado e vai no sono novamente.