Prólogo: Sorrisos, planos e promessas demais.
— No que está pensando, senhor?
— Já falei pra não me chamar de senhor. — Digo rindo, para não soar grosseiro com a minha assistente. — Tenho 28 anos, não 40. — Tiro os olhos da janela e a observo. — Você só é alguns anos mais nova que eu…
Ela ofereceu um sorriso tímido e deu de ombros.
— Fui bem educada para ser bem-educada com os mais velhos. — Michele fala num tom travesso, me fazendo rir.
Me aconchegando na poltrona da primeira classe, muito m*l-acostumado com todo aquele luxo que minha carreira me proporcionou, reflito um pouco sobre minha vida atual. Escrever sempre foi a coisa mais libertadora que fiz em minha vida, poder viver disso ainda era algo surreal.
Ficamos em silêncio por algum tempo, me permito viajar um pouco em minhas lembranças, sem pretensão em encontrar algo específico; mas, como sempre, acabo voltando para uma pessoa.
Ela domina boa parte das minhas melhores memórias.
— Sabe porque te contratei? — Solto a pergunta sem pensar, apoiando o cotovelo no braço da poltrona e meu rosto na palma da minha mão, olhando para a jovem sentada à minha frente.
Cabelos acobreados e ondulados, num tom escuro, olhos verdes me observavam através dos óculos redondos de armação branca, emoldurando seu rosto pequeno e delicado, como se fosse uma princesa da Disney, salpicada com poucas sardas que se concentravam no meio do rosto, acima do nariz arrebitado.
Michele sempre vestia camisas sociais brancas ou rosas e calças pretas de alfaiataria, mas hoje vestia um jeans escuro e uma camisa azul simples, com o desenho do Stitch no bolsinho na altura do coração.
Meus olhos se fixaram no Stitch, um sorriso bobo e involuntário dominou meu rosto.
— Porque sou a pessoa mais organizada que você já teve. — Sugeriu, petulante.
Neguei com a cabeça, erguendo meus olhos.
— Você me lembra alguém que conheci há muito tempo. — Respondi simplesmente. — Alguém que também se achava melhor que todo mundo, bem soberba. — Minha voz é quase sonhadora. — Tenho lembranças muito boas com ela…
Michele arregalou os olhos.
— Então… Sou um tapa buraco? — Perguntou, indignada, levando a mão ao peito.
Tenho plena consciência de que ela está se divertindo com o rumo da nossa conversa.
— Claro que não! — Respondi, fingindo estar irritado. — Se fosse um tapa buraco, eu não te contrataria, só te comeria! — Respondi seco, a fazendo rir.
Ouço alguém pigarreando, me viro em direção ao som e vejo uma comissária de bordo com o rosto vermelho, ela conduzia um carrinho de bebidas.
— Desejam alguma coisa? — A aeromoça está claramente desconfortável com nossa conversa.
Neguei com a cabeça, Michele pediu um gim tônica de morango.
— Como se eu fosse te dar… Alguma chance… — Minha assistente provocou, olhando de lado para a comissária desesperada que preparava um copo da bebida para sair dali o mais rápido possível.
Dei de ombros, entrando na brincadeira.
— É, sou demais pra você… — Comentei, também observando a aeromoça, achando graça no modo que nos olhava com indignação.
— Eu também sei muitas coisas… Poderiam te causar um infarto, senhor. — Michele está se divertindo nesse joguinho de provocações.
Mas eu sou quase um profissional nesse jogo.
— Você não teve o professor que tive. — Um sorriso vitorioso domina meu rosto.
A comissária de bordo já tinha preparado a bebida, mas nos observou por alguns instantes, esperando a continuação do nosso joguinho bobo. Absorvendo minhas palavras, Michele, por alguns segundos, transparece confusão e depois, lentamente, a compreensão surge em seus olhos.
— Você curte homens?! — Pergunta um pouco surpresa, perdendo a postura de superioridade de antes.
A aeromoça coloca a bebida na mesinha que nos separa, com a mão trêmula, despertando a nossa atenção. Michele a olha com falsa inocência, e a vemos se afastar com o carrinho resmungando, consigo escutar a palavra “inacreditável” e “eu não ganho o suficiente para isso”.
— Puritana… — Michele murmura, sorrindo desdenhosa.
— E respondendo a sua pergunta. — Digo, a trazendo de volta para a conversa. — Não ligo pro gênero da pessoa, mas preciso… Conhecer bem a pessoa antes de qualquer coisa. — Explico, um pouco mais sério.
Ela faz um leve bico, parecendo impressionada com minha resposta.
— Criou i********e, é vapo. — Resume dando um gole no seu gim tônica,
— Isso. — Digo rindo. — Mas eu nunca disse que meu professor era homem.
— Mas você sugeriu que seu professor era homem. — Argumentou, semicerrando os olhos, como se dissesse “trapaceiro!”
Dei o sorriso mais inocente que tinha no meu repertório de falsidade.
— Já ouviu falar em “gênero neutro”? — Perguntei, achando graça da sua reação.
Não definimos regras.
Michele se dá por vencida, eu respiro fundo e me ajeito na poltrona, cruzando os braços e me preparando para o que ia dizer.
— Te contratei porque você é sincera. — Explico, voltando ao assunto. — Crítica e me atura, mas você também é teimosa, cheia de opinião pra dar, tem muito potencial, e é ambiciosa. — Batuco os dedos na lateral do meu braço. — Ambição é algo que valorizo muito.
Ficamos em silêncio, enquanto tomava sua bebida, logo deixando o copo vazio na mesinha entre nós, perto do meu notebook, onde tinha um caderno velho sobre ele.
— Senhor… — Percebo que, dessa vez, o tratamento formal foi involuntário.
— Rafael. — A corrigi.
Ela bufou, com raiva por eu a ter interrompido.
— Tá tá… Rafael. — Michele continua. — Você disse que te lembro de alguém… — Ela se inclina para frente, com seus olhos verdes nos meus. — Quem seria essa pessoa misteriosa?
Um sorriso saudoso veio ao meu rosto, encarei o Stitch na blusa dela.
— É uma longa história, bem longa e antiga…
— E depois diz que não é velho. — Ela brinca, se reclinando para o encosto da sua poltrona. — Temos umas… — olhou para o horário no celular. — Quatro horas de voo ainda.
Suspirei, descruzando os braços e puxando meu velho caderno sobre meu notebook.
— Esse alguém me deu esse caderno. — Comento, passando a mão na capa de couro vermelha. — Dizia que escrever as ideias no papel… Fluem melhor que no computador.
— Naquela época tinha computador? — Michele perguntou, me tirando do transe da nostalgia que me encontrava.
Revirei os olhos e Bufei, ela recolheu os lábios, com sua típica expressão travessa.
— Desculpa. — Ela ergueu as mãos, se rendendo à minha raiva. — Não vou mais te interromper.
Respirei fundo, abrindo o caderno e folheando as páginas despretensiosamente.
— Essa pessoa me fez prometer que eu seguiria meu sonho de ser escritor, prometeu que faria o mesmo, que seguiria seu sonho e que sempre estaria do meu lado… — Senti uma pontada de tristeza. — Mas…
Deixei o silêncio pairar por um tempo.
— Não me diga que ela morreu! — Michele pediu, levando a mão a boca e com os olhos brilhando do início de um choro.
— Não! Pelo amor de Deus, Michele! Que exagero! — Briguei com ela.
— Ah! Sei lá, você pareceu que perdeu alguém! — Se justificou.
É quase isso.
Abaixei meus olhos, abri numa página aleatória, na qual dediquei um dos meus vários poemas para ele…
“Cabelos de fogo,
O furacão dos seus olhos
Castanhos claros,
Me deixam exposto.
Tem tanto mistério ali,
Uma bagunça de sentimentos,
Sonhos e desejos.
Tudo que eu sempre quis,
Se tornou tudo que eu mais odeio,
Você me afasta, quero voltar e ficar.
Quero desistir de tudo,
Quero apenas queimar,
Me faz questionar
‘O que eu queria, deixei de querer?
O que eu era, deixei de ser?’
Você me fez acreditar
Nas constelações
Espalhadas em sua pele.
Guiando minhas ações…”
Eu não conseguia pensar numa rima para finalizar o poema, ele apenas arrancou a caneta da minha mão, como sempre fazia, e escreveu uma simples frase:
“Assim, me incinere”
— A única coisa que perdi foi o contato um pouco antes da formatura. — Informei, passando os dedos pelas suas palavras. — Ela não cumpriu sua parte da promessa… Não realizou seu sonho, mudou para outro país e seguiu um caminho completamente diferente.
Michele me mirou com pesar por alguns momentos, então algo pareceu brilhar em seus olhos.
— E agora? — Indagou, curiosa.
Olhei para ela, confuso.
— E agora o quê?
— Cancelou entrevistas e compromissos, mandou arrumar passagens para o Brasil o mais rápido possível, por que, de repente, sentiu saudade de casa? — Perguntou sarcástica. — Tá indo atrás dessa pessoa, certo? — Sua convicção era invejável.
Suspirei, sem nenhuma vontade de negar o óbvio.
— Sou tão previsível assim? — Um sorriso flutua em meus lábios.
Michele sorriu outra vez, parecia uma criança.
— Apenas liguei os pontos… — Disse, balançando o indicador na frente do rosto, como se conectando pontos invisíveis no ar.
Igualzinho ao…
— Me conte. — Ela pediu, cortando minha linha de pensamento. — Quero saber a história toda, já que vou assistir de camarote essa novela, preciso saber do início de tudo.
Neguei com a cabeça.
— Você não pode só… Deixar pra lá?
— Ah, não mesmo. — Michele se ajeitou na poltrona, esperando pacientemente eu começar.
— Ok. — Respirei fundo, deixando o caderno no colo e me virando novamente para a janela, vendo as nuvens brancas contrastando com o céu azul. — Foi há dez anos…